'O Mandaloriano e Grogu' não é perfeito, mas traz frescor e tom 'família' ao universo 'Star Wars'
Longa-metragem abraça a aventura espacial em uma história que parece não ter vergonha de olhar para as novas gerações
O universo de Star Wars nunca foi exatamente para toda a família. Intrigas políticas, vinganças, mortes e traições afastaram um público mais jovem, por mais que personagens e criaturas como Jar Jar Binks, Ewoks, Porgs e afins tentassem colocar uma dose mais infantil na equação. Agora, Star Wars parece abraçar de vez o tom familiar com o lançamento de O Mandaloriano e Grogu, novo filme que estreia nesta quinta-feira, 21, e que enfim quebra o jejum da saga nos cinemas.
Dirigido por Jon Favreau, o cineasta que deu o tom da Marvel com Homem de Ferro e homem de confiança da Walt Disney Company, o longa-metragem continua a história das outras três temporadas da série The Mandalorian. Agora, o personagem-título, vivido por Pedro Pascal, e Grogu, a criatura chamada carinhosamente de Baby Yoda, partem em diversas missões à favor da República para prender criminosos e conspiradores que querem a volta do Império.
Um filme em episódios
É inegável pensar que O Mandaloriano e Grogu sofre do mesmo mal de Moana 2: são séries que viraram filmes e, nessa mudança de formato, sobra um tom episódico. A sensação, ao longo de seus 132 minutos, é de que quase tudo poderia ser um episódio de série ou, pior, funcionaria melhor dessa forma seriada. É o caso de uma longuíssima cena de Grogu se virando como pode enquanto o Mandaloriano está fora de combate. Daria um simpático episódio da quarta temporada, mas perde muito o ritmo em um longa-metragem.
Apenas uma ou outra cena convence como cinema. Logo no início, por exemplo, o público é brindado com uma sequência de ataque a um aliado do Império. Tem até um plano-sequência e, por ter mais trabalho e refinamento, funciona na telona.
Aventura honesta
Apesar desse tropeço, porém, O Mandaloriano e Grogu está longe, muito longe, de ser um fiasco como A Ascensão Skywalker ou Han Solo, pensando nos cinemas. Ao abraçar o tom familiar de vez, e sem vergonha de assumir isso, o longa-metragem mostra que a Disney está em busca de novos públicos e possibilidades para uma franquia desgastada nos últimos anos com histórias fracas e seriados que não deram em nada - algo similar ao que aconteceu com a Marvel, vítima de uma exaustão que a Disney não soube dosar.
Numa mudança brusca e absoluta de rota, a franquia passa a colocar personagens improváveis na equação, como um Hutt fortão e sensível (dublado por Jeremy Allen White), uma criatura de quatro braços medrosa (dublada inesperadamente pelo cineasta Martin Scorsese) e sequências de Grogu como se fossem momentos para a família toda assistir e se divertir - além de abrir mais espaço para vender ainda mais bonecos por aí.
O tom aventuresco, que foi tão negligenciado após os três filmes iniciais de Star Wars (Uma Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi), ganha contornos suaves e divertidos. O universo de Star Wars passa a ser explorado quase em tom de descoberta e fascínio, com novas criaturas, quase nunca digitais, pipocando aqui e acolá. É como se aquele mundo de Yoda, mostrado em O Império Contra-Ataca, ganhasse pernas próprias -- um tom lúdico, uma aventura com espaço para confusões e personagens carismáticos.
Obviamente, isso pode afastar uma boa parcela dos fãs que, vale lembrar, reclamaram aos montes da presença de Jar Jar Binks em A Ameaça Fantasma ou, então, de toda a trama envolvendo Rose Tico em Os Últimos Jedi. Se sai um pouco do que estão acostumados, reclamam, vaiam, boicotam. Mas, vale dizer, a Disney está certa: já passou da hora de buscar novos caminhos para Star Wars, dar novos protagonismos, entender e abraçar novas linguagens. Uma coisa não invalida a outra, mas chegou a hora de seguir em frente.
O Mandaloriano e Grogu não é um filme perfeito. Tem arestas, tem um tom episódico excessivo e, por vezes, não sabe como seguir a história. Ainda assim, empolga e traz um frescor divertido e inspirado que não era visto desde Os Últimos Jedi. Talvez seja, enfim, o direcionamento que essa saga criada por George Lucas tão ansiava: personagens mais diversos, tramas menos políticas e um pouco mais de diversão no espaço adentro.
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