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'O Brilho do Diamante Secreto' usa a 'crise do heroísmo' para subverter o cinema de espionagem

Filme arrojado dirigido por Hélène Cattet e Bruno Forzani foi ao Festival de Berlim e estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta, 17; leia entrevista com os diretores

16 jul 2025 - 20h11
(atualizado às 20h31)
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Espiões charmosos, mulheres fatais e ladrões mascarados, percorrendo os cenários paradisíacos das praias europeias. Estes são os elementos centrais de O Brilho do Diamante Secreto, primeiro filme da dupla Hélène Cattet e Bruno Forzani a estrear comercialmente no Brasil. Os dois franceses são apaixonados pelo cinema de gênero, e exploram a maneira como a ficção de antigamente se adapta aos nossos dias.

Nos seus filmes cult anteriores (especialmente Amer e A Estranha Cor das Lágrimas do Seu Corpo), brincaram com as regras do faroeste e do Giallo — um subgênero do terror. Agora, investem no Eurospy, a exploração mais ou menos assumida da espionagem à la 007, na qual o corajoso herói salva o dia e conquista a bela mocinha, que sai em câmera lenta das águas do mar.

No entanto, o hipnótico filme da dupla subverte estes códigos. "A ideia inicial foi um Morte em Veneza versão James Bond", explica Forzani ao Estadão. Para os autores, os filmes com espiões italianos e franceses apostavam em soluções fáceis para um mundo simples, onde bastava a valentia masculina para solucionar grandes dilemas internacionais. Tratava-se de um "universo paradisíaco, infantil e falso", nas palavras de Cattet. Logo, o interesse da dupla reside no choque desta ilusão com o cinema atual.

‘O Brilho do Diamante Secreto’, de Bruno Forzani e Hélène Cattet, tenta subverter o tradicional cinema de espionagem
‘O Brilho do Diamante Secreto’, de Bruno Forzani e Hélène Cattet, tenta subverter o tradicional cinema de espionagem
Foto: Divulgação / Estadão

O resultado é uma trama caleidoscópica: O Brilho do Diamante Secreto apresenta um espião aposentado (John D., interpretado por Fabio Testi na maturidade, e por Yannick Renier na juventude), que acredita reconhecer, em seu hotel na Côte d'Azur, uma figura feminina que o atormentou no passado. Seria apenas uma ilusão? Uma lembrança que retorna? De repente, mortes e perseguições acontecem no local — ou tudo não passaria do delírio de um homem traumatizado?

Labirinto mental

"Achamos importante deixar espaço ao espectador", pontua a diretora. "Não gostamos destes filmes onde só existe uma maneira de ver, porque nos explicam tudo. Prefiro que o espectador participe. É como a experiência de ler um livro: descreve-se um mundo, mas cada um imagina a sua versão. Quisemos fazer a mesma coisa aqui: o espectador pode criar seu próprio filme. Não gosto desse cinema-guardanapo que a gente usa e joga fora depois". Forzani completa: "O espectador vive o labirinto mental no qual o personagem está preso, e se torna tão alucinado quanto ele. A ideia é perder nossas referências, assim como acontece com o herói."

No entanto, o cineasta recusa a ideia de que o projeto seria uma homenagem às tramas de espiões. Pelo contrário, a dupla coloca o gênero em conflito, ao invés de enaltecer o Eurospy. Por isso, na hora de citar as referências ao longa-metragem, ele cita obras tão díspares quanto Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder; Atriz Milenar, de Satoshi Kon; a ópera Tosca e as pinturas de Fabienne Verdier.

Além disso, para os autores, a iniciativa parte de uma constatação da crise do heroísmo. "Quando somos crianças, nos ensinam a proteger o mundo, a acreditar que podemos salvar o planeta. Mas depois crescemos e vemos tudo ruindo", Forzani sublinha.

Cattet estima que a proposta se tornou ainda mais pertinente após a experiência da covid-19, quando desenvolveram o roteiro: "Durante a pandemia, havia as fake news e o mundo real. Diziam que nossa experiência era falsa, e que a realidade se tornou fabricada. O que é a ilusão, neste contexto? Se alguém fizer um documentário sobre nossos tempos, vai se tornar uma ficção científica, porque já faz quinze anos que não conseguimos mais distinguir o verdadeiro do falso. Nós sempre trabalhamos, em nossos filmes, com o apagamento entre o real e a ficção."

A 'retroguarda'

Por isso, O Brilho do Diamante Secreto nos convida a um quebra-cabeça de imagens deslumbrantes. Diversas cenas incluem a ninja interpretada por Thi Mai Nguyen, assim como a agente vivida por Céline Camara, envolvidas em sequências de ação construídas com a ajuda de espelhos, reflexos, efeitos caleidoscópicos e lutas intensamente coreografadas.

Cattet e Forzani riem quando se lembram que foram chamados de "retroguardistas" após apresentarem o resultado aos financiadores. "Disseram que nosso cinema constrói uma vanguarda retrô. Tem sentido", ele admite.

Para criar imagens tão sedutoras plasticamente, a diretora explica seu método de trabalho: "Preparamos tudo com antecedência. As imagens estão prontas na cabeça, e o som também. Criamos um storyboard (desenho prévio das tomadas, imagem a imagem) muito preciso. Como somos dois cineastas, precisamos ter a ideia bem afinada. Cada imagem desempenha um papel na construção do personagem, ou do conflito. Não dá para improvisar. É impossível chegar ao set de filmagem e pensar: 'Hum… O que vamos fazer agora?'. Além disso, não temos dinheiro para improvisar, isso está fora de cogitação".

Cena do filme ‘O Brilho do Diamante Secreto’, de Bruno Forzani e Hélène Cattet
Cena do filme ‘O Brilho do Diamante Secreto’, de Bruno Forzani e Hélène Cattet
Foto: Divulgação / Estadão

Apesar do evidente humor desta história, devido aos absurdos da perseguição e espionagem, os diretores explicam que nunca estimulam os atores no registro da paródia. As instruções foram claras aos veteranos Fabio Testi e Maria de Medeiros, assim como ao experiente Yannick Renier. "Pedimos para atuarem seriamente, e nunca julgarem os personagens. Era preciso realmente acreditar naquilo". Entretanto, revelam que cada cena é filmada inúmeras vezes, permitindo diferentes tons e emoções dos atores. Assim, os cineastas obtêm preciosas variações para a montagem.

O resultado foi exibido na competição oficial do Festival de Berlim — algo raríssimo para um longa-metragem tão radical. Cattet e Forzani felicitam a Berlinale, cuja programação "tem evoluído nos últimos anos", no sentido de acolher propostas mais arrojadas na seleção principal. Graças a esta visibilidade, o filme garantiu distribuição em vários países, incluindo o Brasil.

"Nós realmente fizemos o filme pensando na experiência da sala de cinema, ao invés das plataformas. A potência vem das características da sala, com a grande tela e o som imersivo. Mas eu não tinha percebido o quanto um festival deste porte ajudaria no destino do filme", confessa o diretor.

A aventura singular de O Brilho do Diamante Secreto chega aos cinemas nesta quinta-feira, 17 de julho, pela Pandora Filmes.

Estadão
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