Do apartamento da avó para as telonas, cineasta leva raízes latinas ao terror em 'Rosário'
Ao 'Estadão', diretor Felipe Vargas fala que o horror nasce de suas origens e que há mais espaço para o gênero na América Latina
Há algo profundamente pessoal no primeiro longa-metragem de Felipe Vargas. Quando o diretor colombiano-americano decidiu filmar Rosário em Bogotá, sua cidade natal, ele levou para o set muito mais do que equipamentos e roteiro. Carregou objetos do apartamento da própria avó, escalou os pais como figurantes e mergulhou de cabeça em um universo que conhece desde criança - aquele onde o misticismo e o terror se entrelaçam nas tradições familiares.
"Foi muito especial fazer meu primeiro filme e tê-lo lançado nos cinemas", conta Vargas, que desde pequeno alimentava a paixão pelo horror. "Eu amarrava próteses nos meus cachorros e matava meus primos em diferentes filmes caseiros", lembra, rindo. Essa obsessão juvenil pelo macabro se transformaria, anos depois, no combustível criativo de Rosário, terror que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 28.
O filme acompanha Rosario Fuentes (Emeraude Toubia), uma corretora de Wall Street que retorna ao apartamento da avó falecida em Nova York. O que deveria ser apenas um acerto de contas com o passado se transforma em confronto sobrenatural quando ela descobre uma câmara secreta repleta de artefatos ligados a rituais sombrios. É uma história sobre raízes, sacrifícios familiares e o preço de se afastar das próprias origens.
Terror de casa
Para Vargas, dirigir um longa foi como "fazer dez curtas, videoclipes e comerciais ao mesmo tempo, um atrás do outro - é uma maratona". Mas o processo teve um sabor especial de volta às origens. "Não foi muito diferente dos meus curtas, porque me senti muito em casa", explica. "Pude usar as coisas do apartamento da minha avó como objetos de cena, escalei meus pais como figurantes".
A diferença estava na escala e na possibilidade de trabalhar com uma equipe profissional. "Eu costumava fazer criaturas em casa com caixas de leite. Aqui, pude trabalhar com um time profissional", diz o diretor, que fez questão de privilegiar efeitos práticos em detrimento dos digitais.
A escolha não é apenas estética, mas visceral. "Você sente na pele", explica Vargas sobre os efeitos práticos. "Para mim, essa é a magia dos filmes - criar esses efeitos especiais tangíveis." Cada monstro do filme - da alma atormentada de Elena às diferentes criaturas que habitam a narrativa - foi pensado nos mínimos detalhes: como o arame farpado se entrelaça na pele, como os olhos se enchem de terra.
Visualmente, Rosário bebe em fontes clássicas do horror. Vargas cita Sam Raimi dos anos 90, Guillermo del Toro, mas também mergulha no cinema italiano com Mario Bava e Dario Argento. "Queríamos fazer um filme que tivesse cor, que tivesse vermelhos, verdes, amarelos, textura e sujeira", explica.
A inspiração também vem do cinema mexicano clássico - La Llorona original, El Vampiro - filmes que estabeleceram um tom de realismo mágico que Vargas queria capturar. O resultado é um horror que não tem medo da cor nem da textura, afastando-se da paleta dessaturada comum ao gênero contemporâneo.
O momento latino
Para o diretor, 2025 é um ano especial para o horror. "O terror sempre reflete os medos e ansiedades de uma sociedade", analisa. Ele identifica uma tendência crescente no body horror - o horror corporal - e no que chama de "horror cultural", exemplificado por filmes como Pecadores.
Mas é no potencial do horror latino-americano que Vargas deposita suas maiores expectativas. "Nossas histórias, nossas lendas, nossos folclores, nossos mitos são visualmente incríveis", defende. "Eles tocam em um público enorme e não foram explorados o suficiente no cinema internacional".
Rosário mergulha especificamente na cultura Palo, uma religião afro-latina que nasceu em Cuba, migrou para o México e chegou aos Estados Unidos. "É sobre uma cultura muito específica", explica Vargas, que vê nesse mergulho cultural uma oportunidade de expandir os horizontes do gênero.
No centro do filme está uma questão que transcende o sobrenatural: o peso das escolhas familiares e o preço do distanciamento das origens. Rosario precisa enfrentar não apenas os demônios literais que habitam o apartamento da avó, mas também os fantasmas de uma herança cultural que tentou deixar para trás.
"Minhas tias eram médiuns, minha avó estava um pouco nesse mundo de rituais", conta Vargas sobre suas próprias raízes. "Era algo que realmente me conectava ao filme". Essa conexão pessoal com o misticismo familiar dá ao terror de Rosário uma autenticidade que vai além dos sustos - é um filme sobre pertencimento, sobre o que perdemos quando nos afastamos de quem somos.
Com elenco que inclui David Dastmalchian - ícone do horror contemporâneo visto em Entrevista com o Demônio - e Paul Ben-Victor - conhecido no Brasil por Todo Mundo Odeia o Chris -, Rosário chega aos cinemas brasileiros carregando as expectativas de quem acredita que o horror latino-americano tem muito a oferecer ao mundo.
"Espero que as pessoas, especialmente na América Latina e no Brasil, se conectem com esses elementos de família, de sacrifício, de uma cultura impregnada de tradição e misticismo", diz Vargas. Para ele, não há melhor lugar para sentir essa conexão do que na sala escura do cinema, onde o terror ganha vida coletiva.