Almodóvar acerta contas com o mundo do cinema e faz autoficção em 'Natal Amargo'
Cineasta espanhol exibiu no Festival de Cannes seu novo filme, que estreia nos cinemas brasileiros no dia 28 de maio
CANNES - Ainda não será dessa vez que Pedro Almodóvar ganhará sua Palma de Ouro. É a sétima vez que ele participa da seleção oficial do Festival de Cannes. Seus filmes já receberam diversos prêmios aqui, mas nunca o maior de todos. Dessa vez, Almodóvar arrisca-se a ver outro espanhol - Rodrigo Sorogoyen, de El Ser Querido - levantar o troféu que persegue há tanto tempo. A 79º edição do festival termina no sábado, 23, com a atribuição dos prêmios. Alguns filmes tem-se destacado - o de Sorogoyen, o de Pawel Pawlikowski (Fatherland) e o Andrei Zviaguintsev (Minotaur) - e a crítica começa a fazer suas apostas, mas há grande curiosidade quanto ao júri. Afinal, seu presidente, o sul-coreano Park Chan-wook, é, como diretor, um notório cultor do cinema de gênero. Há curiosidade para saber, e a premiação poderá indicar, quais são seus gostos como espectador.
Amarga Navidad, que será lançado no Brasil como Natal Amargo, tem atrativos suficientes para agradar ao mais exigente cinéfilo, só não é tão grande quanto Carne Trêmula, ou Tudo Sobre Minha Mãe, ou ainda Fale com Ela.
O próprio Almodóvar é o primeiro a admitir que Natal Amargo - batizado como Autofiction (Autoficção) na França - forma um díptico com Dor e Glória, seu longa que valeu a Antonio Banderas o prêmio de melhor ator em Cannes, 2019. Em ambos ele parte diretamente do que é, da sua persona artística e até privada - o que se sabe dela -, mas esclarece que os personagens não o representam literalmente pelo simples fato de que ao escrever e filmar está ficcionalizando, mesmo o que se pode considerar sua vida.
O filme começa em 2004, com Elsa (Barbara Lennie) acometida de um dor de cabeça tão forte que o parceiro, Bonifacio, ou Beau (Patrick Criado), a leva para a emergência de um hospital. A cena não poderia ser mais almodovariana. Rapidamente sabemos que Elsa é uma artista, já filmou nesse lugar, e por isso faz uma escolha precisa do quarto em que quer ficar. Sabemos mais - ela explica que fez filmes que fracassaram - na bilheteria? -, mas viraram cults, e esclarece para a médica que 'culto' não é evangélico. Por último, mas não menos importante, Beau é um profissional de strip-tease, o que anima a doutora, que já o chamou de guapo. Logo em seguida Almodóvar o mostra animando uma festa de despedida de solteira, levando à loucura a noiva e suas amigas com sua barriga de tanque e os gestos voluptuosos que simulam o sexo.
Um corte para a atualidade e agora sabemos que o flash-back é uma cena que está sendo escrita por Raul (Leonardo Sbaraglia), um diretor em pane de inspiração e que trabalha no roteiro do que espera será seu próximo filme. (Autiofiction não deixa de ser o Oito e Meio de Almodóvar.) A partir daí, o filme desenrola-se entre realidade e ficção, e Almodóvar tem o cuidado de não confundir o público, recorrendo ao som das batidas do computador transformadas em letreiros que correm na tela para mostrar o que ele digita.
A narrativa, como sempre em se tratando do cineasta, é o que os franceses chamam de tordu. Torta, trançada. Almodóvar ama as tramas complicadas, cheias de camadas. Assim, Raul possui o seu Beau, que se chama Santi e é interpretado por Quinn Gutiérrez, que fazia o operário cuja nudez perturbava o menino de Dor e Glória e o levava a descobrir, precocemente, sua homossexualidade. Assim como Elsa tem uma amiga (Vicoria Luengo), Raul também tem uma colaboradora, Monica (Aitana Sánchez-Gijon), com quem já teve uma ligação mais íntima e agora ela está metida num imbróglio com uma amiga cujo filho morreu. É com Monica que Raul discute detalhes do que escreve. Monica lhe aponta os defeitos do roteiro. Tem tiradas ótimas. Diz que Raul (como Almodóvar?), já fez suas melhores obras e pode ficar fazendo filmes pequenos que seu público fiel desfrutará - como o púlico de Federico Fellini e Ingmar Bergman curtia as obras menores daqueles mestres.
Almodóvar usa o diálogo para acertar contas com o mundo do cinema. Um festival no Catar oferece uma fortuna para contar com a presença de Raul, ele diz que nem tudo tem preço, e recusa. Monica diz que, se o filme em fase de escrita não der certo, sempre haverá a possibilidade de trabalhar para a Netflix, que há tempos corre atrás dele, fazendo ofertas milionárias. Raul descarta enojado, no sentido hispânico da palavra, a possibilidade de fazer 'telefilmes'.
Como criador, Almodóvar não teme repetir-se. A importância que ele dá à música, com Aimara Romero que canta os temas de Chavela Vargas, incluindo o que dá ao filme seu título original - da mesma forma como Caetano Veloso cantava em Fale com Ela e Rosalia em Dor e Glória. Só que dessa vez ele vai ainda mais longe. Insiste nos números musicais, mostra música inteiras - como a do strip-tease -, tudo isso sem ultrapassar o tempo standard de 1h52. Como disse o próprio cineasta à revista Cahiers du Cinéma - "Tenho consciência de que me revisito, ou me cito, e ao fazê-lo constato como o tempo mudou e eu não sou mais o mesmo."
O tempo como personagem de Natal Amargo, os mais de 20 anos que se passam entre as duas primeiras cenas. Almodóvar inverte o discurso de Tancredi no clássico O Leopardo, de Luchino Visconti - "As coisas precisam mudar para que tudo continue o memo." Para ele, filmar o mesmo só serve para mostrar a mudança - interior, dele mesmo. Será por isso que bate na tela por alguns segundos - tempo suficiente para que a gente se pergunte o que ele está querendo dizer - a palavra Senso. Será uma referência a outro clássico viscontiano, Sedução da Carne? A personagem de Alida Valli, a Condessa Serpieri, tem tudo a ver com as mulheres de Almodóvar, principalmente as desprezadas por seus amantes.
Almodóvar é um personagem conhecido internacionalmente. Reina em Cannes, com ou sem Palma de Ouro. E ele tem usado o espaço, em sucessivas entrevistas, em publicações que aqui circulam, e a mais contundente talvez tenha sido à revista The Envelope. Almodóvar faz duras críticas ao presidente Donald Trump e a suas guerras em Gaza e contra o Irã. Ele não culpa ninguém, mas acha escandaloso que, na recente cerimônia do Oscar, somente um europeu, e um espanhol, seu amigo Javier Bardem, tenha usado aquela vitrine para gritar 'Free Palestine'. Ele não hesita em definir o presidente Donald Trump como um narcisista autoritário que não tem nenhum respeito pelos direitos humanos e passará à história como 'uma catástrofe'.
Almodóvar sempre foi um cineasta transgressor, mas, aos 76 anos, perdeu as últimas papas que ainda poderia ter na língua. É, segundo ele, a grande diferença entre os filmes que compõem seu díptico. "O tom de Natal Amargo difere muito do de Dor e Glória. É o que faz não apenas a diferença, mas confere ao novo filme sua originalidade. Tenho o sentimento de estar mais livre do que nunca. Os gêneros e as tonalidades misturaram-se desde a escrita. Embora esteja falando de coisas dramáticas, como morte, o humor se faz presente em muitos momentos".
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