Script = https://s1.trrsf.com/update-1768488324/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Em 'A Voz de Hind Rajab', filme indicado ao Oscar, o tema supera a forma

Candidato da Tunísia ao Oscar de Melhor Filme Internacional chega aos cinemas trazendo temática sobre o resgate dramático de uma jovem palestina

29 jan 2026 - 13h55
Compartilhar
Exibir comentários

O conflito entre Israel e Palestina ainda deve gerar muitos outros filmes nos próximos anos, tamanha a urgência e a brutalidade do que segue acontecendo na região. Entre as obras que já começam a chegar, uma das que mais chamam atenção é A Voz de Hind Rajab, candidato da Tunísia ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026, que escolhe um caminho radicalmente simples e devastador: transformar um pedido real de socorro em centro absoluto de sua narrativa.

Em 'A Voz de Hind Rajab', filme indicado ao Oscar, o tema supera a forma (Divulgação)
Em 'A Voz de Hind Rajab', filme indicado ao Oscar, o tema supera a forma (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

O título não é casual — ele é, de fato, o centro absoluto do filme. A proposta se ancora quase inteiramente na ligação real feita por Hind, uma criança de cinco anos presa em um carro sob ataque em Gaza, enquanto voluntários do Crescente Vermelho tentam coordenar um resgate. Mais do que imagens ou encenação, o grande feito do longa é ser capaz de escancarar os horrores do conflito, que faz novas vítimas a cada dia desde 2023, sem ser gráfico ou apelativo.

A diretora Kaouther Ben Hania (As 4 Filhas de Olfa) escolhe deliberadamente confiar mais no peso do tema do que na forma e na construção cinematográfica. A estratégia funciona até certo ponto, mas cobra seu preço conforme o tempo passa. A encenação e o dispositivo narrativo parecem se repetir, ganhando um aspecto rígido, como se o filme ficasse preso à própria ideia inicial. Diante disso, o resultado é um desequilíbrio claro: o assunto cresce, mas a forma não acompanha na mesma proporção.

Ainda assim, é impossível ignorar o que A Voz de Hind Rajab provoca e representa para o mundo atual. Cena após cena, áudio após áudio, ele arranca o espectador da zona de conforto e elimina a distância que normalmente nos protege quando consumimos notícias sobre Gaza. Não estamos diante de estatísticas ou imagens genéricas, mas de uma criança falando, respirando, e esperando por ajuda. Essa presença vocal desmonta qualquer tentativa de neutralidade e evidencia a falência moral de um mundo que assiste e normaliza mortes. A brutalidade não está apenas no que acontece, mas no fato de que seguimos testemunhando — e nada muda.

O recurso de acompanhar uma ligação telefônica remete inevitavelmente ao dinamarquês Culpa, pré-selecionado ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2018, mas aqui a comparação se desfaz rapidamente. Não há ficção, nem jogo de atuação: o que se ouve é uma voz real, registrada em meio a uma situação-limite. O desconforto que isso provoca não nasce de uma escolha questionável, mas da brutalidade do que está sendo exposto. A voz de Hind não é mero artifício dramático — é um documento sonoro que carrega urgência, medo e abandono. Se há algo que inquieta, não é o uso dessa voz, mas o fato de que ela exista, de que tenha sido necessária.

Talvez o aspecto mais perturbador de A Voz de Hind Rajab seja sua consciência da própria impotência. A arte aqui se espelha nos personagens: todos querem ajudar, mas ninguém consegue atravessar a barreira que separa empatia e ação. O filme nos coloca exatamente nesse lugar — sentados, atentos, solidários, mas incapazes de interferir, somos meras testemunhas dos horrores de um conflito que parece não ter fim.

Não é uma obra que busca comover pelo excesso de emoção e, talvez por isso, seu impacto seja mais seco do que devastador. Em suma, é uma obra necessária, incômoda e importante, que expõe a desumanização sistemática do povo palestino e nossa total impossibilidade de agir diante deste genocídio.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade