'Carcereiros — o filme' reforça crítica de série ao sistema
Nova adaptação também baseia-se em livro de Drauzio Varella e aposta na ação para colocar luz sobre o trabalho do carcereiro
Quem assistir a Carcereiros - o filme, que estreia nesta quinta-feira, dia 28, perceberá que o longa oferece uma história inédita que é quase uma síntese da série Carcereiros, exibida na Globo entre 2017 e 2019 e disponível na plataforma Globoplay, mas com muito mais cenas de ação. O projeto funciona bem separadamente, mas agracia quem o acompanhou desde o começo com breves ligações com o conteúdo mostrado na televisão.
Ambientado no Presídio Filintos Prates, Rodrigo Lombardi volta como o protagonista Adriano. No período de um dia, enquanto o local é alvo de uma invasão por um grupo altamente armado, o carcereiro tem que coordenar a chegada de um terrorista internacional para um pernoite na penitenciária, ao mesmo tempo que tenta abafar os ânimos dos líderes de duas facções inimigas, que entram em conflito para assumir o comando da prisão.
Essas sequências potencializam a sensação de “quase solidão” do carcereiro, e alinham-se ao mote principal do projeto, originado a partir obra homônima de Drauzio Varella, e mantido tanto na série, como no filme. Carcereiros - o filme debate e expõe as falhas do sistema prisional brasileiro, a partir desse personagem. “Foi pertinente saber como esse tema é dado pouca importância, ele é muito delicado e importante para entender a segurança pública e pensar políticas diferentes”, avaliou o diretor José Eduardo Belmonte, em entrevista exclusiva ao Terra.
Com tanta ação, o que ficou de fora do longa foram os depoimentos reais de carcereiros, que, por vezes, misturaram-se aos ficcionais do elenco da série. E eles fizeram falta.
Os conflitos domésticos de Adriano também não deram muita audiência. Foi nos poucos brevemente contemplados que é feita a ligação com o espectador fiel, trazido da televisão. Mas quem acompanhou as duas temporadas pôde perceber também que algumas questões, deixadas em aberto na season finale, não foram respondidas. O filme, cujo roteiro foi pensado inicialmente como possibilidade para o primeiro episódio da segunda temporada, foi pensado para existir independentemente, e, com o cinema, quem sabe, chegar com mais facilidade às massas.
A estreia de Kaysar
Um dos grandes destaques da produção é para a atuação de Kaysar Dadour, que interpreta o terrorista internacional Abdel Mussa. Gravado antes de Órfãos da Terra, novela da Globo exibida em 2019, na faixa das 18h, o filme marca a estreia do ex-participante do reality show Big Brother Brasil como ator.
Elogiadíssimo pelo diretor e pelo elenco, Kaysar faz uma breve participação no filme, mas poderosa. “É dom. Ele (Kaysar) tem uma vida interior muito complexa, e ele acessa essa vida, o que é uma qualidade do bom ator”, comenta Belmonte. “Quando você é um não ator, e você entra num set, e se você relaxar e se você entender o que está acontecendo à sua volta, você pode chegar num lugar que nem o ator, em si, vai conseguir, porque você já está preso à técnicas. Mas se você é bem assessorado, você chega a lugares incríveis. E o Kaysar chegou”, garante Lombardi.
Para Dadour, participar do filme foi uma “honra” cujas experiências ficaram marcadas. “A cadeia, a cela, quando eu sentava lá, sozinho, deitava, só para sentir o cheiro de medo”, avaliou. “Quando eu filmei dentro de senzalas, é a mesma de dentro do presídio”, disse Jackson Antunes, que interpreta Comandante no longa.