Análise: Embora prejudicada, carreira de Woody Allen segue no topo de qualquer avaliação séria
Cineasta cercado por prêmios e polêmicas ao longo das décadas anunciou sua aposentadoria
Em entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia, Woody Allen anunciou sua aposentadoria do cinema. O filme que está preparando na Europa, 50.º de sua carreira, e provavelmente o último, será rodado em Paris. Allen diz que deseja mais tempo para se dedicar à literatura. Está lançando na Espanha uma coletânea de escritos chamada Gravidade Zero. Diz que tem em mente um romance, ao qual irá se dedicar doravante. Allen tem 86 anos de idade.
Se for assim mesmo, o filme parisiense será o epílogo de uma longa e brilhante carreira - porém muito tumultuada. Trinta anos atrás, o mundo ficou sabendo que Allen mantinha um relacionamento com sua enteada Soon-Yi Ping, o que provocou a ruptura de sua união com a atriz Mia Farrow. Mia depois o acusou de ter molestado sexualmente a filha adotiva de ambos, Dylan, que na ocasião tinha sete anos. Mais tarde, Dylan, já com 28 anos, renovou as acusações. A carreira de Allen, sobretudo nos Estados Unidos, foi por água abaixo. A tal ponto que a editora da sua autobiografia, A Propósito de Nada, a poderosa Simon & Schuster, decidiu não publicá-la. O contrato que tinha com a Amazon para a produção de filmes também foi desfeito.
Allen continua sendo acusado, tanto por Mia e Dylan quanto por seu filho, o jornalista Ronan Farrow. É defendido por outro de seus filhos, Moses, que atribui tudo ao ressentimento da mãe diante do relacionamento entre Allen e Soon-Yi Ping - aliás, o casal continua junto até hoje. As acusações não foram provadas. Mas, hoje em dia, provas não são necessárias para acabar com uma reputação.
Os filmes de Woody Allen
De qualquer forma, a carreira cinematográfica, embora prejudicada, permanece no topo de qualquer avaliação crítica séria. De O Que Há, Tigresa (1966) a O Festival do Amor (2020), a obra de Allen destaca-se pela inteligência e crítica divertida da sociedade e dos relacionamentos humanos. Artista que começou na comédia stand-up clássica, deixou-se influenciar mais pelo cinema europeu que pelo do seu país.
É possível que Ingmar Bergman seja sua maior referência, embora ele retenha do sueco a melancolia e o pessimismo existencial, mas os tempere com a ironia de quem olha com o devido distanciamento para a comédia humana.
Nos primeiros filmes, prevalece a comédia satírica como em Um Assaltante bem Trapalhão (1969) e Bananas (1971). Ele estoura mesmo com Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), modelo de comédia romântica moderna, sem qualquer traço de água com açúcar próprio ao gênero.
Allen não deixou de se dedicar a filmes mais intimistas, vinculados à psicanálise, como Manhattan, de 1979 (belíssima ode à sua cidade), Interiores (1978) e A Outra (1988). Entre estes, talvez seu trabalho mais original, Zelig (1983), sobre o homem tão despersonalizado que acaba por parecer a todos os que dele se aproximam. Esse personagem "sem caráter" prefigura o ser humano unidimensional que estava surgindo.
Em A Rosa Púrpura do Cairo (1986), Allen se aprofunda na natureza do cinema, e seus efeitos no imaginário humano, com a história da mulher de vida opaca que se imagina personagem de uma aventura nas telas. Um dos seus mais belos filmes que, ironicamente, tem, como protagonista Mia Farrow, que em breve se tornaria sua mais devotada e persistente inimiga.
Já com Crimes e Pecados (1989), Allen dá forma à sua angústia existencial em sua dimensão mais densa, sob a forma de um feminicídio que não é punido. Há aí Bergman, claro, mas também um tom de Dostoievski impregna essa fábula sinistra e de grande potência.
Essa mesma temática encontra uma rima em Ponto Final: Match Point (2005), unindo o motivo do crime não punido à função do aleatório na vida humana. Põe em cena o acaso, esse deus maléfico e bem-humorado, que zomba dos planos humanos. Alguns críticos dizem que Match Point é sua última obra-prima. Mas parecem se esquecer do magnífico Blue Jasmine (2013), com uma Cate Blanchett tomada por sua personagem lunática.
São muitos os pontos altos nessa carreira brilhante. E mesmo os mais baixos são tão acima da média, tão divertidos e inteligentes, que corremos o risco de superestimá-los.