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Em 'e.t.d.s.', IDK mostra que o corpo saiu da prisão, a mente não

Rapper acerta na produção com Conductor Williams e Madlib, mas liricamente o projeto não se sustenta

29 jan 2026 - 09h43
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Três anos numa cela podem parecer pouco quando a sentença eram 15. Mas três anos quando se tem 17, a pena soa bem maior. Significa aprender uma linguagem específica de sobrevivência que não desaparece quando os portões se abrem. Significa que cada conversa depois ainda soa como se estivesse sendo gravada, cada confissão ainda calculada como se pudesse ser usada como evidência. IDK cumpriu esses três anos em Maryland e passou a década seguinte construindo uma carreira no rap enquanto carregava um questionamento do que poderia ter sido. e.t.d.s. A Mixtape by .idk. (2026) é o projeto em que ele finalmente tenta fazer as pazes com isso. Quinze faixas em que ele te leva pela carteira do padrasto, pelo assalto na 7-Eleven, ou pelo gosto do K2 no aniversário dentro da cela.

Foto: Scott Dudelson/Getty Images para Coachella / Rolling Stone Brasil

O projeto abre com uma ligação a cobrar de uma instituição correcional de Maryland. A voz automatizada anuncia que a conversa está sendo monitorada antes mesmo do primeiro verso cair. Muito além de ambientar o ouvinte, a introdução curta serve para mostrar o que ele sentiu na pele. E apesar da pena reduzida, ****em "HALO", IDK faz a conta: "Se eu tivesse cumprido a pena inteira, eu teria saído em 2025". Sim, ano passado. Sua carreira praticamente não existiria. Essa linha fantasma atravessa o álbum inteiro. Cada verso é medido contra a versão dele que nunca saiu, cada conquista checada contra o calendário de uma sentença que não foi cumprida até o fim.

Mais pra frente, "SCARY MERRi" é onde a memória fica mais nítida. IDK puxa os detalhes dos assaltos na época de adolescente: chutar a porta, ignorar a porcelana da sala, ir direto pro quarto principal, achar o cofre, pegar o dinheiro e "deixar dinheiro suficiente pra que, se perguntassem quanto foi roubado, ele não soubesse dizer o valor exato". Tudo isso, com os brilhantes beats de Conductor Williams, No ID, Kaytranada e Madlib. O ponto mais alto do disco, sem dúvidas. E então a ironia final: toda essa sujeira acumulada, diversos assaltos, para ele ser preso no Natal por um assassinato que não cometeu.

Sobre as participações, Black Thought em "P.O" supera o anfitrião sem esforço, porque é Black Thought. MF DOOM aparece de surpresa para ****rimar sobre teologia em "FLAKKA". Pusha T chega em "LiFE 4 A LiFE" falando sobre não se expor em podcast, sobre assistir outros rappers entregarem o passado inteiro por views. E DMX aparece postumamente (na primeira participação aprovada), mas não brilha tanto quanto o esperado.

Apesar da produção incrível, beats criativos e rimas afiadas, depois de um tempo, o projeto começar a soar performático demais. Eu já tinha comprado a ideia das histórias na cadeia, mas ficar revendo elas na maior parte dos 35 minutos, cansa. Da para abaixar a guarda. Sem contar as linhas sobre mulheres extremamente problemáticas. Em "CLOVER", depressão feminina vira oportunidade sexual e "MiSOGYNISTICAL" entrega o que o título anuncia.

O que salva o projeto de ser apenas uma retrospectiva de erros é "SCRAMBLED EGGS - TBC :(". Aqui, finalmente, a pose cai. "Eu ainda sinto remorso das pessoas que roubei / Meu coração ainda dói pelas pessoas que machuquei"." A escrita vira em direção a algo que soa como arrependimento real. Por três minutos e meio, ele deixa a vulnerabilidade respirar sem imediatamente transformá-la em ameaça.

Mas uma faixa de arrependimento genuíno não equilibra um projeto inteiro de acertos de contas. O remorso sempre acha uma saída. A escrita é afiada o bastante pra saber o que está fazendo, mas ainda não aprendeu a ficar confortável com a vulnerabilidade por mais de uma música.

IDK tem o detalhe de alguém que passou anos repassando as mesmas memórias. Ele consegue te dar o número de degraus, número de cômodos da casa, a quantidade exata deixada na carteira. Sonoramente, o projeto é impecável, a produção é de primeiro nível, o clima é na medida e as batidas justificam os 35 minutos do começo ao fim. O problema é lírico. Ele ainda não consegue, por mais de uma música, admitir arrependimento sem ficar se gabando ou falar alguma besteira. A caneta está lá. A história está lá. O que falta é a coragem de ficar na ferida sem procurar uma saída.

O projeto termina com "To be continued" e ele ainda está no meio do caminho. Ainda calculando o que pode revelar e o que precisa guardar. Hoje, com 32 anos, a cabeça ainda está na cela. E talvez nunca saia. Porque a linguagem de lá não tem data de validade. Ela gruda. E e.t.d.s. é a prova: quinze faixas calculando cada palavra, medindo cada confissão, sempre consciente de que alguém, em algum lugar, ainda está gravando.

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