Don Toliver entrega produção impecável mas esquece de evoluir em 'OCTANE'
Quinto álbum em cinco anos mostra rapper confortável demais na zona de segurança — falta o salto criativo que a carreira pede
Don Toliver não precisava lançar OCTANE agora, especialmente após um projeto tão significativo, como foi Hardstone Psycho, de junho de 2024. Depois de três álbuns refinando o trap melódico coberto de auto-tune que o tornou famoso, Don finalmente arriscou. Trouxe rock psicodélico, guitarras distorcidas, estruturas que fugiram da sombra do padrinho Jacques Webster II. Faixas como "Tore Up" e "Attitude" mostraram um artista disposto a sair da zona de conforto e experimentar texturas que o trap tradicional não permitia. Não foi perfeito, mas foi corajoso.
E depois de um álbum assim, o próximo passo seria continuar empurrando limites, testar novos territórios, provar que a ousadia não foi acidente. Certo? Mas OCTANE, lançado na última sexta, 30, faz o oposto. Volta pra zona de segurança. Abandona o rock. Entrega exatamente o que você esperaria de Don Toliver em 2020, não em 2026.
A produção continua impecável — Cardo, Honorable C.N.O.T.E. e outros produtores entregam beats que derretem alto-falantes —; as performances continuam incríveis; e o clima acompanha tudo. Mas depois de Hardstone Psycho, Don Toliver podia ser mais. OCTANE podia ir além. Faltou aquele molho secreto especial. É tecnicamente irrepreensível, mas criativamente regressivo.
Em relação às faixas, "E85" abre com sintetizadores pegajosos e rimas ousadas, uma introdução digna de estádio. "Rendezvous", com Yeat, pega emprestado aspectos de R&B e adiciona atitude de 2026, brilhante em execução. "Tiramisu" é suave ao extremo, o tipo de faixa que funciona em qualquer contexto. E "Rosary", com Travis Scott, usa sample feminino que soa direto dos anos 2000 enquanto os dois fazem suas melhores impressões de R&B. O problema é que Don Toliver já fez isso antes.
Falando nos samples, é outro ponto forte. Além do presente na faixa com Scott, "Body" sampleia Justin Timberlake de forma inteligente e "Secondhand", com Rema, tem um sample melancólico e glitchy que poderia facilmente estar num álbum do The Weeknd. Duas músicas muito interessantes.
No meio de tudo, tem "Long Way To Calabasas", suave e com tudo para envelhecer como vinho — exatamente o tipo de música noturna que Don domina. "Call Back" soa como evolução natural de "Tore Up". Clássicos instantâneos. Individualmente, essas faixas funcionam. O problema é o conjunto.
Entretanto, OCTANE não soa como trabalho coeso. São 18 faixas escolhidas mais por qualidade individual do que por como conversam entre si. Não há fio condutor além de "Don Toliver fazendo coisas de Don Toliver". E é essa falta de progressão que mais incomoda.
Heaven Or Hell (2020) apresentou Don Toliver ao mundo. Life Of A Don (2021) consolidou o som. Love Sick (2023) aprofundou o lado melódico. Hardstone Psycho (2024) experimentou com psicodelia trap. E OCTANE? É uma mistura de todos os anteriores. Não evoluiu. Não arriscou. Não tentou nada que pudesse falhar — e por isso, não tentou nada que pudesse surpreender. Don Toliver entrega performances impecáveis em cada faixa, mas nada além.
Esse é álbum feito por alguém que sabe fazer álbuns bons mas — por pressa, talvez — esqueceu de se perguntar por que deveria fazer mais um em tão pouco tempo. Não é ruim, longe disso, mas também não é necessário.
Vai agradar fãs, claro. Faz sentido — se você gosta do cantor, vai gostar desse projeto, porque é literalmente mais do mesmo sem alterações na fórmula. No fim dos 50 minutos, você entende que Don Toliver é bom demais pra se contentar mais do mesmo. Que OCTANE não seja o teto — que seja apenas um suspiro antes de um salto ainda mais ousado.