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Dez livros para compreender diversidade, direitos e identidade

17 jun 2026 - 09h46
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Entre clássicos do tema e obras mais recentes, a DW faz uma lista com obras de cunho histórico e outras ficcionais que traçam um panorama da cena LGBTQ+ no país.Mais do que referência, os livros têm o papel de consolidar mudanças culturais, inclusive ao abordarem tendências e comportamentos muitas vezes marginalizados no cotidiano. Este é um dos pontos fundamentais que fazem com que a presença da temática LGBTQ+ em obras literárias seja imprescindível para ativistas e para a sociedade em geral.

"Lendo e estudando a história [das pessoas LGBTQ+], muda-se a forma de vê-las. E isso é importante", comenta o pedagogo e historiador, Toni Reis, fundador da Aliança Nacional LGBTI+.

Pesquisadora na Universidade de Nova York e professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) do Rio, a deputada estadual do Rio de Janeiro Dani Balbi ressalta que embora a literatura brasileira "seja reconhecida como uma das mais diversas e sofisticadas do mundo", ela ainda "é refratária" quando às "vivências e expressões culturais LGBTs". Neste contexto, ela destaca que obras emblemáticas que subvertem a lógica do apagamento são imprescindíveis.

O comunicólogo Lucas Tolotti, professor na ESPM de São Paulo, pontua que a importância da literatura LGBTQIA+ vai além da representatividade. "Ela ajuda a contar uma história do Brasil, história esta que durante muito tempo foi ou apagada, ou empurrada para as margens da cultura oficial."

Neste Mês do Orgulho LGBT, a DW preparou uma lista de dez livros brasileiros importantes sobre a temática, com obras que são um caminho de partida para conscientização sobre questões referentes aos direitos daqueles considerados membros de minorias sexuais.

"Se nem todos esses livros ocupam o mesmo lugar no cânone, o conjunto deles é relevante para a causa LGBTQIA+ porque ajuda a resgatar experiências marginalizadas", comenta o escritor Marcelo Henrique Silva, que ganhou o prêmio Jabuti em 2025 na categoria Escritor Estreante - Romance com seu Sangue Neon.

Devassos no Paraíso, de João Silvério Trevisan

Publicado pela primeira vez em 1986, Devassos no Paraíso é considerado por muitos como a obra mais completa sobre a história da homossexualidade no Brasil - um tratado sobre o que é ser gay, lésbica, travesti e transexual em um país historicamente marcado pela homofobia.

"É um livro que todo militante e todo ativista deveriam ler. Todas as pessoas, na verdade, deveriam ler. Para entender a luta como ela aconteceu", afirma Reis.

"É um livro importantíssimo para quem quer se iniciar, conhecer, ter uma visão geral sobre os homossexuais no Brasil", comenta o antropólogo Luiz Mott, professor na Universidade Federal da Bahia e fundador do Grupo Gay da Bahia.

João Silvério Trevisan é um dos nomes mais importantes da militância LGBT no Brasil. O cineasta e jornalista fundou o jornal Lampião da Esquina, que circulou no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, e o grupo Somos, de defesa dos direitos dos homossexuais.

História do Movimento LGBT no Brasil, editado por James N. Green, Marcio Caetano, Marisa Fernandes e Renan Quinalha

Lançado em 2018, História do Movimento LGBT no Brasil traz um conjunto de textos que ajudam a compreender as quatro primeiras décadas da luta organizada dos ativistas em prol dos direitos desses grupos no país. O trabalho, editado pelos pesquisadores James N. Green, Marcio Caetano, Marisa Fernandes e Renan Quinalha, situa a busca de visibilidade LGBT em um contexto de redemocratização do Brasil.

"Este livro reuniu mais de 30 autores, na maioria gays, para contar as origens do movimento LGBT no Brasil", contextualiza Mott — ele próprio assina um dos artigos da obra.

"[Com este livro] podemos entender a história e saber como tudo foi construído e por que o movimento aconteceu", comenta Reis.

E Se Eu Fosse Puta, de Amara Moira

Em 44 textos, entre crônicas e poemas, a escritora Amara Moira - travesti, prostituta e feminista - expõe sua visão de mundo a partir de um lugar de fala tradicionalmente marginalizado e, com isso, desconstrói as perspectivas consolidadas nos âmbitos linguístico, moral e social.

"Os textos desconstroem a visão negativa das travestis, um dos grupos mais estigmatizados do Brasil e do mundo", pontua Mott.

E Se Eu Fosse Puta foi lançado em 2016 e teve grande repercussão entre os mais atentos à causa LGBT. A obra faz uma reflexão sobre a prostituição a partir das experiências da autora.

Amora, de Natalia Borges Polesso

O livro de contos Amora, de 2016, é uma antologia de histórias que têm, em comum, o fato de serem sobre relacionamentos lésbicos. A obra rendeu à autora, a escritora Natalia Borges Polesso, o prêmio Jabuti em 2016 na categoria Contos e Crônicas e o prêmio Açorianos de Literatura no mesmo ano na categoria Melhor Livro de Contos.

Para Tolotti, este livro se tornou fundamental. "Porque deslocou experiências lésbicas para o centro da literatura contemporânea. São contos muito delicados sobre afeto, cotidiano, constrangimento, desejo, pequenas violências e intimidades", comenta. Silva acrescenta que a maior importância desse livro é justamente por "normalizar as experiências afetivas" de mulheres lésbicas e bissexuais.

O Beijo do Rio, de Stefano Volp

Questões sexuais e raciais vêm à tona em O Beijo do Rio, de Stefano Volp. Publicado em 2022, o romance conta a história de um jornalista que investiga a morte de seu melhor amigo, ao mesmo tempo em que, num thriller psicológico, enfrenta traumas do passado. Salta aos olhos o protagonismo bissexual e negro. "É um fenômeno: representa a geração mais recente e dialoga com temas raciais", afirma Silva.

"A obra interpreta a cidade como texto e como dispositivo de produção do desejo, evidenciando a constituição histórica das espacialidades homoafetivas", analisa Balbi. "Sua abordagem articula memória, urbanidade e performatividade para revelar a dimensão estética e política das práticas de ocupação do espaço."

Quinze Dias, de Vitor Martins

Leve e divertido, Quinze Dias é um livro adolescente sobre um menino gordo que vê o despertar da sua homossexualidade ao mesmo tempo em que lida com inseguranças e bullying dos colegas de escola. Escritor por Vitor Martins, foi publicado em 2017 e se tornou um best-seller. Recentemente, o livro virou um filme dirigido por Daniel Lieff, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (18/06).

"O Vitor Martins é um dos autores que ajudaram a consolidar a literatura jovem LGBTQIA+", ressalta Silva.

Segundo Tolotti, Martins, como outros autores de sua geração, caiu no gosto de um grande público jovem. "Muitos desses livros trabalham a ideia de amizade, romance e descoberta com menos peso do que gerações anteriores. Há nestas obras um outro olhar para o reconhecimento do desejo", diz.

Enquanto Eu Não Te Encontro, de Pedro Rhuas

Repleto de referências pop, Enquanto Eu Não Te Encontro, romance de estreia de Pedro Rhuas lançado em 2021, conta a história de um adolescente gay que se descobre apaixonado pela primeira vez. Balbi situa o livro de Rhuas como um exemplo de romance de formação contemporâneo, que constrói "a subjetividade queer como percurso de deslocamento e de busca".

"Sua poética privilegia a memória afetiva e a experiência íntima, transformando o desejo em princípio estruturador da narrativa e da constituição do eu", diz ela.

Poesia Gay Brasileira, organizado por Amanda Machado e Marina Moura

Com obras de 44 autores importantes do cânone literário nacional - entre eles, Mário de Andrade, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade e Caio Fernando Abreu - Poesia Gay Brasileira traz 130 poemas sobre a temática LGBT, escritos a partir do século 19.

Como lembra Mott, trata-se de uma reunião de poemas "de diferentes níveis de qualidade". "Mas é uma obra importante", ressalta. O conjunto foi organizado pelas editoras Marina Moura e Amanda Machado.

"A antologia evidencia o homoerotismo como tradição poética persistente, embora frequentemente codificada ou silenciada pelo cânone", ressalta Balbi.

Xica Manicongo, Primeira Transexual do Brasil, de Luiz Mott

Um dos mais importantes militantes históricos da causa no Brasil, o antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, descobriu a história da primeira transexual brasileira, Xica Manicongo, quando pesquisava os arquivos da inquisição na Torre do Tombo, o arquivo público nacional de Portugal. Oficialmente chamado de Francisco, a personagem foi um negro escravizado que viveu na Bahia no século 16 e foi denunciado ao visitador do Santo Ofício em 1591.

Mott transformou essa história em livro, Xica Manicongo, Primeira Transexual do Brasil, lançado recentemente. "Muitas pessoas pensam que ser gay, lésbica ou trans é algo da modernidade, algo pós-moderno. Este livro mostra que sempre houve pessoas LGBTQIA+", lembra Reis.

"Xica Manicongo constitui uma figura liminar na história cultural brasileira, cuja memória desafia as categorias coloniais de gênero. Sua recuperação historiográfica opera como gesto de reescrita do arquivo, evidenciando que identidade e performatividade são construções historicamente disputadas e politicamente produzidas", diz Balbi.

Conectadas, de Clara Alves

Conectadas é o maior sucesso editorial da jovem escritora Clara Alves, conhecida por suas histórias ficcionais protagonizadas por personagens LGBT. O livro conta a história de Raíssa e Ayla que se conhecem num jogo online, se aproximam e se envolvem virtualmente. No entanto, Raíssa adota uma identidade masculina no jogo, algo que Ayla não sabe e, por isso, acredita estar conversando com um menino.

"Eu me vejo como uma escritora militante e acho que isso é importante para a nossa literatura, que ainda é majoritariamente branca, hétero, cis, padrão", disse a autora à reportagem da DW em 2022.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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