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Clássico do Dia: 'O Pagador de Promessas ' reflete a intolerância religiosa

Todos os dias um filme clássico é analisado pelo crítico do 'Estadão'; como esse dirigido por Anselmo Duarte e primeiro brasileiro a receber a Palma de Ouro no Festival de Cannes

29 jun 2020
08h14
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Anselmo Duarte fez história como primeiro - e único, em 2020 - brasileiro a receber a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Foi em 1962, há quasse 60 anos. Na verdade, essa história havia começado há extamente 60 anos. Anselmo, na fase prévia à massificação da TV, foi o maior galã da história desse País por seus filmes na Atlântida e na Vera Cruz. Mas era ambicioso, queria dirigir. Foi o que fez com Absolutamente Certo!, de 1959. O filme fez sucesso de público, foi estimado pela crítica. Em 1960, Anselmo estava na Europa. Fez um filme em Portugal, outro na Espanha. Cursou o IDHEC, em Paris, mas era uma escola de cinema acadêmica e só lhe serviu para aprender francês. Muito importante, era um homem sedutor, e um fenômeno de potência.

Numa célebre entrevista ao Pasquim, contou que era, na cama, um amante insaciável. Tudo isso alimentava a lenda. Tornou-se amante de Christiane de Rocherfort, que integrava a equipe de Cannes. Naquele ano, foi ao festival. Formou um trio com Christiane - futura autora do best seller O Repouso do Guerreiro, que Roger Vadium filmou, com Brigitte Bardot - e o jornalista português Novaes Teixeira, que era correspondente do Estadão na Europa. Anselmo tinha um sonho. No livro com sua biografia, na Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial - O Homem da Palma de Ouro -, conta que cartazes espalhados pela Croisette anunciavam a estreia próxima de um épico hollywoodiano contando a história de Cristo. Era Rei dos Reis, de Nicholas Ray, "com um ator de olho muito azul", segundo Anselmo - Jeffrey Hunter.

A Novaes Teixeira, ele disse que queria contar a história de um Cristo terceiro-mundista. Não a maior história de todos os tempos, mas algo muito mais simples e humano. Cristo como um carteiro (mensageiro de Deus?), filho do carpinteiro e da lavadeira. E, num rompante, para espanto de Novaes, chegou a dizer que voltaria a Cannes com seu Cristo e levaria a Palma. Por mais que Anselmo possa ter aumentado e até inventado a história, prevaleceu o conceito fordiano em O Homem Que Matou o Facínora - 'Print the legend'. Ele, realmente, voltou a Cannes em 1962 e ganhou a Palma de Ouro com O Pagador de Promessas. Não era bem a história de Cristo, mas era a história da crucificação de um brasileiro comum pela intolerância, e não apenas religiosa. Palma de Ouro! Mas não foi fácil assim.

De volta ao Brasil, Anselmo começou a escrever seu roteiro. Trabalhou durante seis meses e aí começou a desanimar. A coisa não andava. Seu Cristo estava emperrado. E então um jovem diretor de teatro, de muito prestígio na época, Flávio Rangel, convidou-o para ver sua nova montagem. Era de uma peça de Dias Gomes. Anselmo foi, e no palco, em Zé Burro, encontrou o seu Cristo. Indescritível a sua emoção. Juntando o que não tinha, comprou os direitos, embora não tenha sido fácil convencer o autor. Dias Gomes era um homem engajado, de esquerda. Desconfiava daquele galã. Ao comprar os direitos, Anselmo armou-se de uma cláusula, que lhe assegurava o direito de fazer mudanças no original. Dias Gomes assegurou-se de outra cláusula. Flávio Rangel teria de ser diretor assistente.

No limite, Anselmo fez as mudanças que julgava necessárias para tornar a história mais cinematográfica e eliminou a função do assistente. Dias Gomes leu o roteiro e achou uma m... Segundo Anselmo, acusou-o de estar estragando sua criação. A essa altura, Anselmo ligara-se ao produtor Anibal Massaini, que não estava colocando dinheiro, mas tinha know-how suficiente para fazer o projeto andar. Massaini teria lhe dito que tivesse calma, que Dias iria se amansar. O próprio Anselmo talvez tivesse se arrependido, se houvesse cedido a outra exortação do produtor. Pensando comercialmernte, Massaini achava que o ator do teatro, Leonardo Villar, não teria apelo para grandes plateias. Tentou convencer Anselmo a contratar Mazzaropi para o papel, mas ele bateu pé. Seria Villar, e ninguém mais.

Na história, o nordestino Zé faz uma promessa para salvar seu burro, que está morrendo. Promete carregar uma cruz até a igreja, em Salvador. Mas ele fez sua promessa num terreiro de candomblé, e ao chegar o padre o impede de entrar na igreja. Cria-se um caso. A imprensa explora o episódio. A mulher de Zé, Rosa, é atraída pelo gigolô Bonitão e isso provoca a ira da prostituta Marly, que acusa a 'santinha' de estar querendo roubar seu homem. Engalfinham-se numa briga de arranhões e puxões de cabelo. Cria-se um 'carnival' semelhante ao que Billy Wilder armou em A Montanha dos Sete Abutres, mais de dez anos antes. Zé do Burro, amarrado à própria cruz, só entra morto na igreja, nos braços do povo.

Problemas, problemas. Assim como Leonardo Villar era o seu Zé do Burro, Anselmo tinha o ator perfeito para ser o Bonitão, um jovem baiano que, segundo ele, tinha um efeito magnético sobre as mulheres - Geraldo del Rey. Anselmo queria Maria Helena Dias para fazer Rosa, Glória Menezes seria Marly. Maria Helena ficou doente, ele atrasou a filmagem para ver se ela se recuperava. Aos 45 do segundo tempo, houve a reviravolta e Glória foi reescalada para fazer a Rosa e Norma Bengell entrou para ser Marly. Como dizia o próprio Anselmo, por mais planejados que possam ser os filmes, imprevistos acontecem. No caso dele, tinha certeza de que os imprevistos ajudaram. Ainda houve um problema adicional. O filme tinha participação de Portugal na produção. Ele tinha de colocar o galã português Américo Coimbra no elenco. Só tinha o papel do Bonitão, mas Américo não tinha ginga para fazer o gigolô. Além do mais, Anselmo queria Geraldo. E agora?

O que pouca gente sabe é que ele rodou O Pagador de Promessas em duas versões, e numa delas, Américo era o Bonitão. A versão com Geraldo, a que foi a Cannes, não foi lançada nos cinemas portugueses, um pouco para evitar uma comparação que poderia ser constrangedora para Américo, mas também porque, em troca do seu investimento - 50 latas de filme virgem -, ele ganhou os direitos de distribuição da sua versão em Portugal. Chegou o grande dia em Cannes. A seleção daquele ano era pródiga em grandes nomes. Michelangelo Antonioni (O Eclipse), Luís Buñuel (O Anjo Exterminador), Robert Bresson (O Processo de Joana D'Arc), Pietro Germi (Divórcio à Italiana), Sidney Lumet (Longa Jornada Noite Adentro), Otto Preminger (Tempestade sobre Washington), Agnès Varda (Cléo das 5 às 7), etc. Um filme da Grécia, Electra, a Vingadora, de Michael Cacoyannis, foi aplaudido sem parar, durante dez minutos, algo nunca visto na história do festival. Mas veio O Pagador, e algo se passou.

Depois, muita história rolou na imprensa brasileira. O Cinema Novo estava nascendo e não ficava bem um galã ligado ao velho cinema levar o maior prêmio do cinema internacional. Criou-se um conflito de narrativas. Anselmo não teria vencido por suas qualidades, mas porque o júri não conseguira chegar a um consenso, tendo de escolher entre tantos grandes filmes concorrentes. Pode até ser que exista um fundo de verdade. Thierry Frémaux, que se tornou responsável pela seleção oficial de Cannes, diz que não existe isso do 'melhor filme'. Existe o melhor para um júri. Outro júri poderia, quem sabe, fazer outra escolha, e isso vale para todos os anos. Seja como for, após a projeção, Anselmo jurava que François Truffaut, que integrava o júri de 1962 com o escritor Romain Gary e os também diretores Jerzy Kawalerowicz e Mario Soldati, lhe fez de longe o gesto afirmativo com o polegar, e estava muito emocionado.

Toda a arquitetura dramática converge para a cena em que Zé, morto na cruz, adentra a igreja. Anselmo conta que quis fazer um plano artístico, para vencer festival. Colocou a câmera no chão, pedindo a seu fotógrafo, Chick Fowle, que percoresse o trajeto da cruz, 180 graus, sem corte. (No fundo, estava repetindo o russo Grigotri Tchoukrai na cena do tanque, na abertura de A Balada do Soldado, mas talvez nem soubesse.) A cena, 100% de cinema, foi um dos momentos em que o público não conteve os aplausos, durante a projeção oficial, em Cannes. Zé do Burro entra na igreja carregado pelos negros, oficiantes do candomblé, que o prenderam àquela cruz. Entra para subverter a ordem, para virar a igreja de cabeça para baixo - foi a interpretação de um entusiasmado crítico francês. Entendeu tudo. No confronto entre a fé simples do povo e a institucionalizada da Igreja, vence a primeira. Venceu o filme.

O diretor admitia que nunca agradeceu suficientemente a seu grande fotógrafo. O inglês Chick Fowle veio para o Brasiul trazido por Alberto Cavalcanti quando formulou o projeto da Vera Cruz, em São Paulo. Fowle era um fotógrafo de formação técnica clássica, mas aberto à improvisação. Fotografara O Cangaceiro, de Lima Barreto, que ganhou o primeiro prêmio do Brasil em Cannes, em 1953 - melhor filme de aventuras. Fowle enriqueceu com matizes o preto e branco que Anselmo considerava imprescindível. Mais que tudo, mais que os elaborados movimentos de câmera, captou o conceito que Anselmo queria para o seu filme. A fusão entre os rostos anônimos e os dos atores principais.

O Pagador de Promessas fez história, antes mesmo de triunfar na Croisette. No set, em Salvador, havia um jovem que se identificou como jornalista que ficava por ali, o tempo todo, vendo tudo - e Anselmo garante que ele chegava a anotar suas instruções para atores e técnicos. Esse jovem era Glauber Rocha, que, coincidência ou não, buscou no elenco de Anselmo, duas figuras fundamentais para o seu O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de 1963 - Geraldo Del Rey e Othon Bastos (o repórter). Anselmo não dava mole. Contava que a gota d'água de suas brigas com Dias Gomes foi o palco que escolheu para filmar. Quando menino, Dias ficou marcado pelo pagador de promessas com sua cruz que viu numa igreja do Pelourinho. Queria que Anselmo filmasse ali, mas, ao buscar locações em Salvador, o diretor descobriu a igreja da Rua do Passo, com as paredes laterais e a escadaria imponente. Era um hui-clos perfeito para criar a tragédia - sem saída. E a escadaria ainda evocava a de Sergei M. Eisenstein - Odessa -, em O Encouraçado Potemkin. Tudo isso, hoje, é história. O Pagador de Promessas é um clássico.

Filme pode ser visto em DVD.

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Estadão
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