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Chay Suede confunde e diverte plateia com monólogo biográfico, mas também ficcional

'A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay', de Felipe Hirsch e Caetano W. Galindo, estreia no Teatro Cultura Artística

7 mar 2026 - 06h11
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Em sua estreia no teatro, Chay Suede conta ter ficado travado em dois momentos, durante a temporada de A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay, no Rio de Janeiro. "Logo na primeira sessão, em janeiro, antes de entrar em cena, senti uma paralisia que me impedia de andar provocada por uma mistura de medo, ansiedade e adrenalina", conta o ator. "A segunda vez foi um frio na barriga poucos dias depois, quando Fernanda Montenegro estava na plateia, na primeira fila, de onde eu podia ver o brilho de seu olhar."

Aos 33 anos, com nove telenovelas no currículo, além de séries, filmes, shows e aproximadamente 11 milhões de seguidores em plataformas digitais, Suede pisa pela primeira vez em um palco com um monólogo que chega a São Paulo, no Teatro Cultura Artística, no sábado, 7. O título sugere um texto humorístico e filosófico que acompanha a formação do personagem apresentado como Cavalheiro Roobertchay, inspirado no próprio ator.

Biografia ou ficção? Uma mistura em que a linha fronteiriça não é perceptível. Em cena, Suede relembra, em doze quadros, situações familiares, principalmente envolvendo o avô e o pai, e a própria trajetória, do nascimento aos 17 anos, quando despontou para a fama. "A peça é uma espécie de pseudodocumentário, uma fantasia, em que alguns fatos da minha vida são narrados de forma verdadeira e outros de forma ficcional. A graça está em não deixar o espectador distinguir uma da outra", afirma.

'A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay' é uma peça inspirada na história de Chay Suede, com algumas liberdades ficcionais
'A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay' é uma peça inspirada na história de Chay Suede, com algumas liberdades ficcionais
Foto: Flavia Canavarro/Divulgação / Estadão

A proposta partiu do encenador Felipe Hirsch e do escritor, tradutor e linguista Caetano W. Galindo, criadores do espetáculo. Suede deseja estrear no teatro sob a direção de Hirsch, motivado pelos processos criativos efervescentes, especialmente baseados em textos literários, dos recentes trabalhos dele. Juntos, pesquisaram obras que poderiam ser adaptadas - Suede pensou em O Centauro no Jardim, de Moacyr Scliar, enquanto Hirsch cogitou O Quarto de Giovanni, de James Baldwin.

"Quando começamos a conversar, confesso que eu estava mal intencionado porque passei a colecionar as histórias dele", conta Hirsch. "Chay tem uma trajetória cinematográfica. Até que tive coragem de revelar minha intenção de realizar um falso documentário sobre sua vida. Iria contar de forma distorcida, acrescentar fatos não verdadeiros, dissimulações, simulacros, bem ao estilo do filósofo francês Jean Baudrillard."

Para a empreitada, ele convidou Caetano Galindo, parceiro criativo nos últimos espetáculos e cuja escrita apaixonada costura referências literárias e musicais. Os dois então recolheram extensos depoimentos do ator em três dias de conversas para elaborar a dramaturgia. O resultado espantou Suede. "Foi uma grande surpresa porque assuntos sobre os quais falei por horas não inspiraram nem uma linha, enquanto temas falados em apenas cinco segundos viraram uma cena", conta. "O que está na peça não são os acontecimentos da minha vida, mas o olhar dos dois sobre fatos da minha história. Há uma distância entre o que contei e o que foi escrito."

"Não nos interessava o ícone", explica Galindo, justificando o fato de a peça se encerrar quando Suede inicia a carreira profissional. Em cena, há histórias falsas mas hilariantes, como a da circuncisão do jovem Suede, ou verdadeiras, como a do mesmo garoto se vestindo de tubarão e de extraterrestre para ajudar o pai nos negócios.

As várias histórias de Chay Suede

A história da família é realmente muito interessante. O avô Salustiano, presbiteriano, vendia enciclopédias e mergulhava para resgatar bens naufragados. Graças aos dicionários, inventou uma língua, utilizada para mudar o próprio nome para Saylufet Ainobert Dimes Paylufet Roobertchay. Ao filho, deu o nome de Roobertchay Domingues da Rocha que, para sustentar a família, parou de estudar para exercer diversas tarefas, como vender bananas em um carrinho de construção. Foi também promotor de eventos com tubarões vivos e exposições sobre alienígenas, nas quais Suede, com máscara e colãs apertados, era bolinado por senhoras despudoradas.

O ator herdou o nome do pai acrescido do Filho no final e, como artista, adotou o apelido Chay e o sobrenome do personagem de Brad Pitt no filme Johnny Suede (1991). Enquanto ouvia as histórias, Hirsch recuperava discussões de trabalhos anteriores que versavam sobre a questão da autenticidade. "Eu queria falar sobre verdade, assunto que tratei em dois espetáculos recentes ('Fantasmagoria 4' e 'Autorretrato'), que versavam sobre a noção do que é autêntico a partir da figura de Narciso e seu espelho. Ninguém consegue mais captar o que é verdade ou mentira no mundo, especialmente em uma história específica. Ninguém se interessa exatamente pelo o que é a verdade em si ou o que é mentira."

Para criar o Cavalheiro Roobertchay, uma espécie de duplo do Chay Suede real, Galindo e Hirsch se inspiraram principalmente no romance inglês A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy, que Laurence Sterne publicou entre 1759 e 1767, obra-prima do humor e da sátira social que se tornou referência para Machado de Assis escrever Memórias Póstumas de Brás Cubas.

"Foi uma ótima solução estética para a narrativa ao utilizar a mesma estrutura para contar uma história, especialmente na forma como o personagem narra a própria trajetória", conta Suede que, em cena, exibe poucos movimentos de corpo, concentrando-se na emissão perfeita das palavras do caudaloso texto de 50 páginas. A linguagem é rebuscada, inspirada no português dos séculos 18 e 19, e com diversas referências literárias, colocando à prova o conhecimento do espectador.

'A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay' está em cartaz no teatro Cultura Artística
'A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay' está em cartaz no teatro Cultura Artística
Foto: Flavia Canavarro/Divulgação / Estadão

"Sentada na primeira fila, Fernanda Montenegro captou todas as camadas da peça como citações literárias, teatrais, musicais. Riu de piadas que ninguém antes havia entendido. Foi a pessoa que mais fez conexões com tudo o que eu dizia", conta Suede, cuja família, também encantada com o texto, chegou a acreditar no que era falso. "Minha mãe perguntou se eram verdadeiros momentos ficcionais nos quais ela havia participado e, portanto, sabia que não eram."

Outra dúvida levantada ao longo da temporada carioca obrigou a produção a fazer uma modificação na paulistana. "A montagem foi incompreendida por ter 'Peça Infantil' no título", conta Hirsch. "Inúmeras pessoas acreditavam que se tratava realmente de um espetáculo para crianças, interpretando o título como informação e não como uma abstração ou uma metáfora."

A solução foi colocar o carimbo "Peça adulta" no material de divulgação e eliminar "Peça Infantil" do título. "É preciso que a pessoa entenda que o carimbo indica que, em algum momento, o título não foi compreendido e foi preciso colocar uma informação em cima dele."

A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay

  • Teatro Cultura Artística. Rua Nestor Pestana, 196
  • Sábados, 19h e 21h30. Domingos, 17h e 19h. R$ 160 / R$ 220
  • Até 3 de maio (estreia em 7 de março)
Estadão
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