Avignon abre 80ª edição com espetáculo de 5 horas sobre o mal baseado em Bolaño e Lautréamont
O Festival de Avignon abre sua 80ª edição neste sábado (4) com "Maldoror", ambiciosa criação de Julien Gosselin inspirada em Roberto Bolaño e Lautréamont. Durante três semanas, a cidade medieval do sul da França receberá alguns dos principais nomes das artes cênicas mundiais, entre eles Wagner Moura, Christiane Jatahy, Carolina Bianchi e a Nobel sul-coreana Han Kang. Criado em 1947, o festival chega aos 80 anos debatendo o futuro do teatro em um mundo marcado por crises e polarização.
Márcia Bechara, da RFI em Paris
Quando a noite cair sobre o Pátio de Honra do Palácio dos Papas, neste sábado (4), não será apenas mais uma abertura do Festival de Avignon. A mais importante vitrine internacional das artes cênicas chega à 80ª edição transformando um questionamento em tema central da programação e confiando sua estreia a um dos encenadores mais influentes do teatro europeu contemporâneo.
A abertura do evento ficará a cargo de "Maldoror", nova criação de Julien Gosselin, diretor do Odéon-Théâtre de l'Europe e um dos nomes mais associados às grandes adaptações literárias levadas aos palcos franceses nas últimas duas décadas.
Com cerca de cinco horas de duração, o espetáculo promove um diálogo entre a obra do escritor chileno Roberto Bolaño e "Os Cantos de Maldoror", de Lautréamont, poeta francófono do século 19 nascido no atual Uruguai. No centro da montagem uma questão que acompanha literatura, filosofia e artes desde sempre: qual é a origem do mal?
Gosselin volta a Bolaño dez anos depois da célebre adaptação de "2666", apresentada no mesmo festival. Desta vez, mistura teatro, cinema, música e performance para investigar as formas contemporâneas da violência, a memória das ditaduras latino-americanas e aquilo que Bolaño chamava de "o segredo do mal".
Nobel de literatura, Wagner Moura e Carolina Bianchi entre os destaques
Se Gosselin inaugura o festival, a programação das próximas semanas reúne alguns dos nomes mais comentados da cena internacional. A Coreia do Sul é a convidada de honra desta edição. A presença mais simbólica será a da escritora Han Kang, vencedora do Nobel de Literatura de 2024, cuja obra inspira vários espetáculos do programa oficial. O romance "Impossíveis Adeuses", centrado na memória do massacre de Jeju, serve de base para montagens dirigidas por Julie Deliquet e Daria Deflorian.
Entre os artistas brasileiros, a expectativa se concentra na estreia de Wagner Moura no festival. Depois de 16 anos longe dos palcos, o ator retorna ao teatro em "Um Julgamento - Depois de O Inimigo do Povo", criação assinada ao lado da premiada diretora Christiane Jatahy e do dramaturgo Lucas Paraizo.
A participação brasileira inclui ainda Carolina Bianchi, que apresenta "Uma Luz Cordial", encerrando a trilogia "Cadela Força", e Lia Rodrigues, responsável por um dos principais programas internacionais de formação artística do festival.
Outro destaque será a leitura-performática "Oiseau", que reunirá Isabelle Huppert e a atriz sul-coreana Hyeyoung Lee em uma das produções mais aguardadas da edição.
A dança contemporânea também ocupa espaço crescente na programação, com artistas da Coreia do Sul, da França e de diferentes países europeus, confirmando uma transformação observada há anos em Avignon: o festival já não é apenas um território do teatro, mas das artes vivas em sentido mais amplo.
O futuro como tema dos 80 anos
Desde que assumiu a direção do festival, em 2023, o dramaturgo português Tiago Rodrigues tem procurado ampliar a presença internacional da programação e reforçar o diálogo entre diferentes culturas.
A edição que começa neste sábado representa o ponto mais visível dessa estratégia. Em vez de organizar uma celebração retrospectiva dos 80 anos, Rodrigues optou por fazer da dúvida o tema central do evento.
O enorme ponto de interrogação que domina o cartaz oficial resume esse projeto. Em tempos marcados por polarização política, conflitos e respostas simplificadoras, Avignon propõe que a arte continue sendo um espaço privilegiado para formular perguntas.
A resposta inicial virá já na noite de abertura, quando milhares de espectadores ocuparem o Palácio dos Papas para acompanhar as cinco horas de "Maldoror". Para um festival fundado logo após a Segunda Guerra Mundial e agora às portas de sua nona década de existência, parece uma escolha apropriada: começar perguntando de onde vem o mal e o que as artes ainda podem fazer diante dele.
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