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Por que mulheres ainda mudam de sobrenome ao casar?

Incorporar o nome da família do marido tem origem em uma história patriarcal. Por qual motivo, então, conforme a igualdade gênero avança, tantos casais ocidentais jovens ainda seguem a tradição?

28 set 2020
12h59
atualizado às 13h34
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Mesmo em países ocidentais conhecidos pela cada vez maior independência da mulher, percentual daquelas que incorporam sobrenome do marido é alto
Mesmo em países ocidentais conhecidos pela cada vez maior independência da mulher, percentual daquelas que incorporam sobrenome do marido é alto
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Planejar um casamento durante a pandemia de coronavírus é algo repleto de incertezas, mas para Lindsey Evans, de 30 anos, pelo menos uma coisa é certa.

"Quanto mais nos aproximamos do casamento, mais certeza tenho de que quero usar o sobrenome dele", diz a californiana, que dirige com o noivo uma empresa de mídia especializada em estilos de vida e deve casar em julho de 2021.

Nos EUA, a maioria das mulheres adota o sobrenome do marido ao casar — cerca de 70%, de acordo com uma das maiores pesquisas recentes sobre o assunto. Para as mulheres britânicas, o número é de quase 90%, de acordo com uma pesquisa de 2016, com cerca de 85% das pessoas entre 18 e 30 anos ainda seguindo a prática.

Embora esses números sejam mais baixos do que eram há uma geração, está evidente que continua sendo uma forte norma cultural em boa parte do mundo ocidental — apesar dos tempos mais individualistas e igualitários em questões de gênero.

Apesar de as definições de feminismo variarem, 68% das mulheres com menos de 30 anos se descrevem como feministas nos Estados Unidos e cerca de 60% no Reino Unido.

"É surpreendente [tantas mulheres adotarem o nome de homem], já que isso que vem da história patriarcal, da ideia de que uma mulher, com o casamento, passou a ser um bem do homem", diz Simon Duncan, professor da Universidade de Bradford, Reino Unido, que estuda vida familiar e tem pesquisado especificamente a adoção de sobrenomes dos homens.

'Quanto mais nos aproximamos do casamento, mais certeza tenho de que quero usar o sobrenome dele', diz Lindsey
'Quanto mais nos aproximamos do casamento, mais certeza tenho de que quero usar o sobrenome dele', diz Lindsey
Foto: Arquivo pessoal/Lindsey Evans / BBC News Brasil

Ele descreve a tradição como "arraigada" na maioria dos países de língua inglesa, embora o conceito de "possuir" esposas tenha sido abandonado há mais de um século na Grã-Bretanha. Atualmente, tampouco há uma exigência legal para a incorporação do nome de um homem.

Grande parte da Europa Ocidental também segue o mesmo padrão — exceções incluem a Espanha e Islândia, onde as mulheres tendem a manter seus nomes de nascimento quando se casam; e a Grécia, que tornou em 1983 uma exigência legal que as esposas mantenham seus nomes por toda a vida.

Mesmo na Noruega, recorrentemente classificada como um dos países com maior igualdade de gênero e que tem também uma tradição menos patriarcal, a maioria das mulheres casadas ainda usa o nome do marido. Lá, no entanto, cerca de metade daquelas que incorporam o nome do marido mantêm o nome de solteira no meio, que funciona como um sobrenome secundário.

"A questão permanece: esta é apenas uma tradição inofensiva ou há algum tipo de significado extravasando dos tempos passados para agora?" questiona Duncan, que recentemente se associou a acadêmicos da Universidade de Oslo e da Universidade do Oeste da Inglaterra para investigar o hábito.

Tradições patriarcais

Existem, é claro, vários motivos particulares pelos quais uma mulher pode querer deixar seu nome de solteira, desde não gostar de como ele soa até querer se dissociar de membros ausentes ou abusivos da família.

Mas, por meio de uma revisão dos estudos já feitos e de entrevistas detalhadas com casais recém-casados e noivos no Reino Unido e na Noruega, a equipe de Duncan identificou duas motivações principais que impulsionam a tradição.

A primeira foi a persistência do poder patriarcal, fosse isso óbvio para os casais ou não. A segunda, o ideal da "boa família" — como se ter o mesmo nome do parceiro simbolizasse compromisso e unisse o casal e filhos em potencial como uma coisa só.

Alguns casais simplesmente incorporaram a prática sem pensar muito sobre o assunto, simplesmente porque é convencional, enquanto outros abraçaram ativamente a ideia de transmitir os sobrenomes deles.

"Alguns homens ainda insistiam nisso — na reprodução desse tipo de tradição patriarcal do passado", diz Duncan. "Algumas mulheres concordam ou internalizam isso. Então, encontramos pessoas que dizem que estão realmente ansiosas para ser uma 'sra.' e mudar sua identidade para a de seu marido. "

A pesquisa da equipe sugere que a mudança de sobrenome das mulheres está, sem surpresa, ligada à sobrevivência de outras tradições patriarcais, como pais dando permissão a noivas e homens sendo mais propensos a pedir em casamento. Esses elementos, diz Duncan, passaram a fazer parte do "pacote de casamento" ideal para muitos casais.

"É parte do romance", concorda Corinna Hirsch, 32, uma comerciante alemã que mora em Estocolmo e adotou o sobrenome do marido quando se casaram no ano passado.

"Dormimos em quartos separados na noite anterior ao casamento. Eu tinha algo velho, azul, emprestado e novo (categorias de objeto que formam um conjunto que a noiva deve ter por perto, segundo tradição em alguns países). Meu pai e meu marido fizeram um discurso, mas eu não."

Ela acredita que essas tradições ajudaram o casal a desenvolver um vínculo mais profundo, mesmo depois de mais de oito anos juntos.

"Não esperávamos nos sentir mais próximos depois do casamento, mas acho que ter essa grande cerimônia e incorporar seu sobrenome fez isso."

A 'boa família'

Os pesquisadores descobriram que a ideia da 'boa família' foi um fator chave para as mulheres mudarem de nome
Os pesquisadores descobriram que a ideia da 'boa família' foi um fator chave para as mulheres mudarem de nome
Foto: Alamy / BBC News Brasil

A segunda tendência central observada pela equipe de Duncan é mais sobre as percepções sociais. Eles concluíram que assumir o nome de um parceiro continua sendo visto como uma forma de mostrar seu compromisso e união para os outros.

"Sinto que isso nos dá uma identidade como família e não apenas como indivíduos", concorda Lindsey Evans, da Califórnia. "Temos nosso próprio nome e nome do meio, o que nos torna particulares; mas ter um sobrenome em comum nos dá unidade."

A pesquisa de Duncan descobriu que essa narrativa da "boa família" era especialmente forte entre as mulheres que tiveram filhos. Até mesmo algumas das que inicialmente se recusaram a adotar o sobrenome do marido mudaram sua identidade após o parto.

"Quis fazer isso para ter uma melhor conexão com meu filho — não apenas em forma de um relacionamento amoroso, mas no papel", reflete Jamie Berg, 36, dançarina e ginasta nascida nos Estados Unidos e moradora de Oslo.

Depois de manter seu próprio nome por vários anos, em grande parte porque isto era importante para sua identidade profissional, ela acrescentou o nome do marido ao seu passaporte e outros documentos formais quando seu filho nasceu — "para que nós três tenhamos o mesmo sobrenome". Ela acreditava que isso pudesse evitar também problemas administrativos, por exemplo, ao viajar para o exterior com o pequeno.

O estudo de Duncan destacou outra impressão comum entre muitos pais: que os filhos pudessem acabar confusos ou infelizes por conta dos pais terem nomes diferentes.

Mas ele argumenta que, embora não seguir com normas sociais possa criar desconforto para os adultos, pesquisas sugerem um impacto mínimo sobre as crianças — com a maioria não se sentindo confusa sobre quem é da família, independentemente do sobrenome.

Desprezo ao feminismo?

Estudiosas e estudiosos estão divididos sobre o papel da mudança de nome em um cenário de esforços para alcançar a igualdade de gênero.

Duncan descreve o hábito como "muito perigoso" — quer os casais estejam abraçando ativamente a tradição ou simplesmente a incorporando por conveniência.

"Isso perpetua a ideia de que o marido tem autoridade, reproduzindo a tradição de que o homem é o chefe da família", diz ele.

Esse argumento é fortemente apoiado por mulheres como Nikki Hesford, uma empresária de 34 anos do norte da Inglaterra. Ela agora está divorciada, mas se recusou a usar o nome do ex-marido quando eles se casaram e diz que fica chocada com o fato de que poucas esposas fazem o mesmo.

"As mulheres reclamam que acabam sendo o cuidador principal, quem tem que faltar o trabalho quando um filho está doente, que precisa ir a consultar médicas, que sofre na carreira... Mas elas abriram esse precedente no início, dizendo: 'Você é mais importante do que eu, você vem primeiro e eu em segundo'", argumenta.

"Algumas pessoas dizem: 'Você está problematizando demais, é apenas uma boa tradição e não significa muito'. Eu discordo."

No entanto, Hilda Burke, uma conselheira de casais e psicoterapeuta atuando em Londres, acredita que as mulheres que rejeitam incorporar sobrenomes não devem julgar as outras. Ela observa que os conceitos de "romance à moda antiga", muito reforçados por filmes, pela literatura e pelas revistas, foram amplificados na era das redes sociais.

Isso quer dizer que as mulheres continuam a ser influenciadas por esses tipos de mensagens, apesar de perspectivas feministas também estarem ganhando seu espaço.

"Para muitas influenciadoras, é parte importante de sua mensagem ou perfil toda essa narrativa em torno de um namorado e depois o grande noivado, a lua de mel", argumenta Burke. "Mesmo que essas mulheres se identifiquem como feministas, esse tipo de estilo de vida que elas estão retratando é muito mais uma amostra do ideal romântico."

Hilda Burke sugere que a mudança de nome da mulher faz parte de um 'pacote' de narrativa tradicional do casamento
Hilda Burke sugere que a mudança de nome da mulher faz parte de um 'pacote' de narrativa tradicional do casamento
Foto: Alamy / BBC News Brasil

Ela diz que, para muitas, mudar para o sobrenome do marido também é uma decisão pragmática — por exemplo, para agradar parentes mais velhos ou evitar maiores explicações em encontros sociais. E isso não significa que essas mulheres não se importem com a igualdade de gênero.

"Este é um exemplo da dissonância de ter um ideal feminista versus a vida cotidiana", diz ela.

"Elas pensam: 'Quer saber? Eu continuo trabalhando. Continuo sendo promovida. Eu não desisti. Então, quer saber? No cenário geral, continuo sendo feminista'."

Outro argumento é que o feminismo trata basicamente de dar às mulheres liberdade de escolha. Isso significa que, desde que eles possam decidir por si mesmas, sem pressões externas, o nome que querem, não deve importar se isso está de acordo ou vai contra as normas patriarcais.

"Ele nunca me disse: 'Quero que você incorpore meu sobrenome'. Em vez disso, eu que trouxe a proposta para a mesa", diz Evans, da Califórnia. "Como feminista, sou capaz de tomar a decisão do que é melhor para mim, sem me preocupar com os papéis de gênero."

Mais mulheres mudarão de nome no futuro?

O quão prevalente esta tradição será no futuro é um debate acalorado entre os pesquisadores. Há pouca pesquisa acadêmica prevendo isso, embora haja sinais de que — apesar do lento progresso até agora — tanto mulheres quanto homens estão se tornando cada vez mais abertos a alternativas.

No Reino Unido, uma pesquisa YouGov de 2016 com mais de 1.500 pessoas mostrou que 59% das mulheres ainda gostariam de usar o sobrenome do cônjuge no casamento — e 61% dos homens ainda querem que elas façam isso. Embora esses números sejam altos, eles são cerca de 30% menores do que a proporção de britânicos que atualmente fizeram a mudança.

Uma outra pesquisa mostrou que 11% dos jovens de 18 a 34 anos no Reino Unido agora estão dobrando seus sobrenomes quando se casam. Essa prática era tradicionalmente reservada às famílias britânicas de classe alta, mas a igualdade de gênero está emergindo como um motivador em casais com origens mais diversas.

"Nós conversamos sobre isso antes e decidimos que, como compartilhamos tudo em nossas vidas, fazia sentido compartilhar sobrenomes também", explica Nick Nilsson-Bean, um gerente de comunicação britânico de 36 anos que mora na Suécia e tem o mesmo sobrenome de sua esposa. "Parecia um pouco antiquado apenas colocar meu nome."

Nos Estados Unidos, um número crescente de mulheres também está optando por sobrenomes duplos sem hifenização devido à necessidade de serem encontradas na internet por motivos profissionais.

Enquanto isso, alguns casais misturam seus nomes ou inventam outros para compartilhar, e há ainda homens que adotam o nome de suas esposas, embora ambos os fenômenos permaneçam pouco comuns.

"Eu não sou preso a toda a masculinidade e ao patriarcado, e sabia o quão importante a identidade de minha esposa era para ela", diz Ciaran McQuaid, um engenheiro britânico de 39 anos que é um dos raros homens a incorporar o nome de sua esposa. "Eu trabalho na indústria da construção e tenho que lidar com atitudes machistas, mas não sou o tipo de pessoa que se incomoda com isso."

Com as mulheres tendendo a se casar mais tarde — a idade média agora é de 35 anos ou mais em países europeus, incluindo Reino Unido, Itália e Espanha, e cerca de 28 anos nos Estados Unidos — isso também pode ter um impacto nas futuras escolhas de nomes.

Pesquisas na Noruega e nos Estados Unidos indica que mulheres mais velhas, mais educadas e economicamente independentes têm mais probabilidade de manter seus nomes de nascimento, enquanto a prática é menos popular entre as mulheres mais jovens, com salários mais baixos e dentro da comunidade afro-americana.

'(Mudar) Só torna as coisas um pouco mais complicadas e não é muito necessário, na minha opinião', diz America Nazar
'(Mudar) Só torna as coisas um pouco mais complicadas e não é muito necessário, na minha opinião', diz America Nazar
Foto: Arquivo pessoal/America Nazar / BBC News Brasil

"Eu já possuía minha casa. Eu tinha um diploma, meu carro, todo tipo de coisa. Então, se eu tivesse que mudar meu nome, posteriormente eu teria que mudar meu nome em todos aqueles títulos e licenças", explica America Nazar, 50, uma dentista que mora ao norte de Oslo, que não mudou seu nome quando se casou no ano passado.

"(Mudar) só torna as coisas um pouco mais complicadas e não é muito necessário, na minha opinião."

Outros pesquisadores apontam para a influência da comunidade LGBTQIA, onde já tende a haver mais flexibilidade na troca de nomes. Heath Schechinger, psicólogo e terapeuta com atendimento na Universidade da Califórnia, Berkley, prevê que os casais heterossexuais podem ser encorajados a manter seus próprios nomes à medida que "o conceito de 'família' se expande" para incluir mais pessoas LGBTQIA e até relacionamentos com mais de duas pessoas. Essa perspectiva tornaria mais comum a quebra de normas tradicionais.

"Embora seja improvável que os parceiros tenham autonomia completa sobre suas escolhas de nome sem medo de reações sociais ou familiares, um número crescente de pessoas está e continuará fazendo a escolha de se desviar da norma", argumenta.

"É hora de isso se tornar uma discussão aberta dentro de parcerias, e não algo presumido ou pré-determinado", concorda a gerente de marketing Verity Sessions, 35, de Brighton, Inglaterra, que manteve seu próprio nome quando se casou com a esposa Alice Maplesden.

"Alguns dos meus amigos homens decidiram usar o nome de família de suas esposas e eu os amo por isso", diz ela. No entanto, Verity diz que entende que outros casais "simplesmente amem uma tradição", ou optem por convenções de nomenclatura simplesmente para "tornar a árvore genealógica um pouco mais fácil de resolver".

Em Londres, a psicoterapeuta Burke também acredita que convenções de nomenclatura mais diversas começarão a surgir na sociedade. Mas, à medida que as mulheres precisarão continuar lutando por igualdade salarial e para enfrentar problemas decorrentes da pandemia de coronavírus, como dificuldades no emprego e no cuidado de crianças, pode ser que as pessoas sintam "que há outras batalhas mais importantes agora"

"Será algo que virá com o tempo, conforme as coisas se tornarem mais igualitárias", opina a terapeuta.

Fãs da tradição dos sobrenomes dos maridos, como Corinna Hirsch, no entanto, esperam que isso não desapareça.

"Seria bom continuar, mas apenas se não for algo forçado", diz. "Você gosta de tradições porque elas fazem você se sentir confortável e feliz? Vá em frente."

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