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Os modelos que se afundam em dívidas ao tentar carreira no mundo da moda

Agências costumam pagar antecipadamente pelos gastos de viagem e outras despesas iniciais, mas esperam receber o dinheiro de volta.

27 set 2020
13h23
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Centenas de modelos viajam para as principais semanas de moda na esperança de conseguir trabalho
Centenas de modelos viajam para as principais semanas de moda na esperança de conseguir trabalho
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Enquanto as semanas de moda acontecem em Nova York, Londres, Milão e Paris, centenas de modelos viajam para as quatro capitais na esperança de conseguir trabalho. Mas muitos voltam para casa com menos dinheiro do que quando chegaram.

Anna (nome fictício) trabalha como modelo desde os 17 anos, já desfilou para grifes como Prada, Mulberry, Comme des Garçons e muitas outras.

Mas depois de três anos, ela ainda não conseguiu pagar as 10 mil libras (cerca de R$ 70 mil) que deve às agências de modelo. "Minhas dívidas começaram logo que comecei a trabalhar", diz ela à BBC.

A primeira agência com a qual Anna assinou contrato, em seu país natal, na Europa Ocidental, adiantou 350 libras para um ensaio fotográfico, custo que foi adicionado a uma prestação de contas em seu nome.

Mais tarde, ela foi levada de avião para Londres para participar de um processo de seleção, e essa despesa também foi incluída na conta, assim como gastos com acomodação e alimentação. A quantia que ela devia aumentou.

Modelos têm que reembolsar suas agências pelos gastos com viagem e outras despesas iniciais
Modelos têm que reembolsar suas agências pelos gastos com viagem e outras despesas iniciais
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Eles me perguntavam se eu queria um motorista, sem deixar claro que isso custa muito caro e que eu teria que pagar", revela.

O problema para os modelos é que, embora as agências normalmente paguem antecipadamente por seus voos, hospedagem e despesas, é prática padrão do setor querer receber o dinheiro de volta.

Portanto, se um modelo viajar para a Semana de Moda de Londres e não conseguir trabalho, ficará com uma dívida com a agência no valor da viagem.

Anna se viu diante deste problema aos 18 anos, quando embarcou para os Estados Unidos para participar de seleções para desfiles da Semana de Moda de Nova York, mas acabou não participando de nenhuma porque ficou doente.

Por dois anos, ela disse que praticamente não recebeu pagamento, já que suas agências em Paris, Londres e Nova York direcionavam seus honorários para pagar todo o dinheiro que devia.

Assunto ainda é um tabu

A modelo russa Ekaterina Ozhiganova, que trabalha em Paris, diz acreditar que é hora de encarar o problema oculto das dívidas que modelos acumulam ao tentar fazer carreira em uma das profissões mais precárias do mundo.

Ekaterina Ozhiganova diz que modelos não gostam de falar sobre quanto ganham
Ekaterina Ozhiganova diz que modelos não gostam de falar sobre quanto ganham
Foto: Aurélien Nobécourt-Arras / BBC News Brasil

Ela é cofundadora da Model Law, a primeira associação francesa que trabalha para proteger os direitos dos modelos. "Antes, a violência sexual era tabu", afirma.

"Agora todo mundo está gritando aos quatro cantos sobre a exploração sexual, mas ninguém quer falar sobre dinheiro. Todo mundo se cala sobre isso."

Como o sucesso no mundo da moda é medido em parte pelo montante que você ganha, modelos profissionais raramente querem falar abertamente sobre o problema.

Mas, nos bastidores, Ozhiganova conta que a Model Law está ajudando diversos modelos a entender melhor suas finanças. "A falta de informação é o principal problema. Os modelos não sabem quanto deveriam receber."

Embora modelos dos quatro cantos do mundo estejam sujeitos a enfrentar dificuldades financeiras, aqueles provenientes de países mais pobres podem ser mais vulneráveis.

"É como qualquer trabalhador estrangeiro que vai para uma economia mais próspera", compara Ozhiganova.

"Há uma grande dificuldade em relação à língua, eles não conseguem ler a papelada, o contrato. É um salto no escuro."

Trabalho escasso e salários baixos

John Horner, diretor da associação que representa agências no Reino Unido, diz que, se o modelo deixa o mundo da moda, sua dívida é perdoada
John Horner, diretor da associação que representa agências no Reino Unido, diz que, se o modelo deixa o mundo da moda, sua dívida é perdoada
Foto: Aaron J. Hurley / BBC News Brasil

Para agravar a situação, a quantidade de aspirantes a modelos é tão grande que o trabalho é escasso, e os salários podem ser muito baixos.

Alguns trabalhos para revistas, por exemplo, não são remunerados. E os honorários podem variar de R$ 350 a R$ 7 mil ou mais para participar de um desfile durante uma semana de moda ou dezenas de milhares de reais para estrelar a campanha de uma marca.

No entanto, a dívida dos modelos não é uma dívida no sentido comum do termo, diz John Horner, diretor da British Fashion Models Association, que representa as agências britânicas.

Se um jovem modelo não é bem-sucedido e deixa a indústria da moda, ele não é perseguido para pagar o dinheiro que "deve", explica. Em vez disso, a agência arca com o investimento que fez. "Nós assumimos a dívida", diz.

Segundo Horner, a agência londrina Models 1, gerenciada por ele, tem 60 mil libras em dívidas de modelos penduradas em seus livros caixa, que podem não ser pagas nunca, se a carreira destes modelos não decolar.

Ele acrescenta que as agências são obrigadas a fornecer aos modelos extratos mensais detalhados, listando as cobranças em seu nome, mas ele receia que os mesmos nem sempre sejam conferidos.

Para Esther Kinnear-Derungs (à dir.), indústria da moda tem dever de educar melhor modelos sobre suas finanças
Para Esther Kinnear-Derungs (à dir.), indústria da moda tem dever de educar melhor modelos sobre suas finanças
Foto: jakub koziel / BBC News Brasil

Ainda de acordo com Horner, a maioria dos modelos de sucesso logo paga o investimento inicial e começa a ter lucro.

Jovens e vulneráveis

Esther Kinnear-Derungs é cofundadora da Linden Staub, uma pequena agência criada há três anos, em Londres, para encontrar formas pioneiras de tratar melhor os modelos.

Ela diz que avançar na carreira e recuperar gastos faz parte da "natureza do negócio". O problema é que os jovens são vistos como "descartáveis" por muitas agências, acrescenta ela.

E não é segredo que, nas semanas de moda, algumas grandes agências adotam a postura de que centenas de novatos podem ser "jogados contra a parede para ver se grudam".

Segundo ela, os jovens da Europa Oriental costumam ser os mais vulneráveis. Os pais ficam felizes em mandá-los para o exterior, acreditando que é a "grande chance" da vida deles, e não fazem perguntas suficientes.

Os próprios jovens não têm experiência para gerenciar suas próprias finanças ou carreira.

"Acreditamos que temos a responsabilidade de educar os modelos desde o primeiro dia, independentemente de terem sido descobertos na Sibéria, na África ou em Londres", afirma Kinnear-Derungs.

Candice (nome fictício) é uma modelo francesa de ascendência africana. Ela conta que, quando começou, não tinha ideia que seria cobrada por viagens e outras despesas.

"Quando você consegue seu primeiro trabalho, você percebe que não era de graça."

"Você pergunta sobre o pagamento, e eles dizem: 'Você não vai receber dinheiro porque está endividada'. Aí você entende", diz.

Segundo ela, mesmo que as agências estejam, em última análise, arcando com o risco financeiro, há uma pressão psicológica sobre os modelos.

"Sempre parece que você está fazendo uma aposta ao viajar para uma semana de moda, com o risco de voltar para casa devendo mais do que quando você chegou", explica.

"Talvez 40% de nós, talvez mais, voltam para casa sem nada. É por isso que é tão estressante."

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