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Por que deveríamos acreditar em fantasmas

De celebrações pagãs a rituais da igreja católica, a crença nos espíritos dos mortos foi abordada de diversas formas ao longo da história.

11 dez 2018
16h01
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Em diversos países, o Halloween (ou Dia das Bruxas) é uma época em que histórias de terror e decorações assustadoras estão por toda a parte, evocando o reino dos mortos. E mais do que isso: ensinando importantes lições sobre como levar uma vida baseada em princípios morais e éticos.

Foto: BBC News Brasil

As origens do Halloween moderno remontam ao festival de Samhain ("fim do verão"), celebração pagã celta que marca o início da metade escura do ano em que, reza a lenda, o reino dos vivos e o dos mortos se sobrepõem - e os fantasmas podem ser encontrados com frequência.

Em 601 d.C., o Papa Gregório 1° orientou os missionários a não acabar com as celebrações pagãs, mas a torná-las cristãs, como parte de sua estratégia de converter o norte da Europa ao cristianismo.

Assim, ao longo do tempo, as celebrações do Samhain se transformaram no Dia de Finados e no Dia de Todos os Santos, quando falar com os mortos era considerado religiosamente apropriado.

O Dia de Todos os Santos também era conhecido como All Hallows' Day e a noite anterior como All Hallows' Evening ou Hallowe'en.

Não só as crenças pagãs em torno dos espíritos dos mortos continuaram, como também se tornaram parte de muitos rituais da igreja católica.

Crença lucrativa

O próprio Papa Gregório 1° sugeriu que as pessoas que vissem espíritos deveriam encomendar uma missa para eles. Os mortos, sob esse ponto de vista, precisariam da ajuda dos vivos para fazer sua jornada em direção ao céu.

Durante a Idade Média, as crenças em almas presas no purgatório levaram a igreja a vender cada vez mais indulgências - documentos que concediam o perdão divino ou reduziam as penitências a quem pagasse. Ou seja, acreditar em fantasmas fez da venda de indulgências uma prática lucrativa para a igreja.

Foram essas crenças que contribuíram para a Reforma, movimento liderado pelo alemão Martinho Lutero que levou à divisão do mundo cristão ocidental entre católicos e protestantes.

De fato, as 95 teses de Lutero, pregadas na porta da Igreja de Todos os Santos de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, foram em grande parte um protesto contra a venda de indulgências.

Posteriormente, os espíritos foram apontados com "superstições católicas" nos países protestantes.

Mas os debates sobre a existência de fantasmas continuaram - e as pessoas se voltaram cada vez mais para a ciência a fim de lidar com a questão.

No século 19, o Espiritismo, movimento que afirmava que os mortos podiam conversar com os vivos, se tornou rapidamente popular, assim como suas abordagens: sessões espíritas, tábua de ouija (espécie de brincadeira do copo), fotografia de espíritos e afins.

Embora a importância cultural do Espiritismo tenha sido ofuscada após a Primeira Guerra Mundial, suas técnicas podem ser observadas hoje nos "caça-fantasmas", que tentam provar a existência de espíritos usando métodos científicos.

Essas crenças não fazem parte apenas do mundo cristão. A maioria das sociedades tem um conceito para "fantasma". Em Taiwan, por exemplo, cerca de 90% das pessoas relatam ter visto espíritos.

Assim como outros países asiáticos, como Japão, Coreia, China e Vietnã, Taiwan celebra o Mês dos Fantasmas, que inclui o Dia dos Fantasmas, quando se acredita que os espíritos vagam livremente pelo mundo dos vivos.

Esses festivais e crenças são frequentemente associados à sutra (escritura sagrada) budista de Urabon, em que Buda ensina a um jovem sacerdote como ajudar sua mãe, a quem ele vê sofrendo como um "fantasma faminto".

Como em outras culturas, os espíritos taiwaneses são vistos como "amigáveis" ou "hostis". Os amistosos costumam ser ancestrais ou familiares e são bem-vindos nas casas durante o festival. Já os hostis são aqueles que estão com raiva ou "fome" e assombram os vivos.

Lembrete moral

Como professor de mitologia na Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, que há anos estuda e ensina histórias de fantasmas, descobri que eles geralmente "assombram" por uma boa razão. De assassinatos não resolvidos à falta de funerais adequados, passando por suicídios forçados, tragédias que poderiam ser evitadas e outras questões éticas.

Os espíritos, sob essa perspectiva, estão frequentemente buscando justiça depois de mortos. Eles podem cobrar isso de indivíduos, ou da sociedade como um todo. Por exemplo, nos Estados Unidos, foram reportadas aparições de escravos afro-americanos e nativos assassinados.

A pesquisadora Elizabeth Tucker, da Universidade Estadual de Binghamton, em Nova York, descreve diversos relatos de aparições em campi universitários, muitas vezes ligados a aspectos sórdidos do passado da instituição de ensino.

Desta forma, os fantasmas revelam o lado sombrio da ética. Suas aparições são muitas vezes um lembrete de que a ética e a moral transcendem nossas vidas e que deslizes podem resultar em um pesado fardo espiritual.

No entanto, as histórias de fantasmas também trazem esperança. Ao sugerir a existência de uma vida após a morte, elas oferecem uma chance de estar em contato com aqueles que já morreram e, portanto, uma oportunidade de redenção - uma forma de reparar erros do passado.

No próximo Halloween, em meio aos doces e travessuras, você pode querer dedicar alguns minutos para refletir sobre o papel dos fantasmas em nosso passado mal-assombrado e em como eles nos conduzem a uma vida baseada na moral e na ética.

* Este artigo, escrito pelo professor Tok Thompson, foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Future.

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