O que aprendi morrendo
Quando entrei no carro, pensei: cuidado, você pode se encontrar com você mesmo.
Ele chegou logo, de trás, e baixou o rosto para a janela. Era eu, com outro rosto. Tinha um revólver na mão direita, e não precisou dizer nada. Eu sabia que era hora de morrer.
Decidi morrer direito. Saí devagar, colocando a carteira no bolso traseiro direito e os óculos escuros no rosto. Dei uns poucos passos para trás do carro, o outro me seguindo na ruazinha tranquila. Parei, olhei para o longe, respirei fundo, exalei e ouvi o disparo.
A bala me pegou nas costas e atirou o que eu era para frente, levíssimo, me misturando com o ar.
Hoje acordei assim. Morrendo.
Na parte anterior do sonho eu estava bem bonito, em forma, elegante, em uma festa vespertina em um salão antigo. Me encaminhava para a varanda quando vi o amigo e mentor Mauro Martinez dos Prazeres, com grande prazer e surpresa - pois ele nos deixou já faz tempo, quanto tempo faz?
Dez anos, 2012. Ele tinha 55. Hoje eu tenho 56.
E Shakespeare? Viveu só 52 anos.
“As flies to wanton boys are we to th’ gods. They kill us for their sport.” Palavra do bardo.
A existência é mais verdadeira após encontros com a morte, reais ou oníricos. O que ensinam? O que deles duramente extraímos, o que distilamos, o que nos permitimos.
Entre 2018 e 2019 enterrei meu pai, minha mãe e três amigos queridos. Estranhamente, não só continuo por aqui, como a vida seguiu surpreendendo de lá para cá, repleta de novas alegrias e distrações e desafios e contradições.
Nesta temporada, dois jornalistas da nossa geração, Humberto Finatti e Claudio Tognolli, foram abatidos por AVC e infarto. Vivem, em difícil recuperação. Esta semana Ricardo Kotscho, decano da nossa cobertura política e pessoa excelente, anunciou vitória sobre um sofrido câncer. Choremos, celebremos, torçamos.
Tem morte em todo lugar do noticiário. Explode lá. Esmerdeia ainda mais aqui.
O banqueiro moderninho faz discurso verde, enquanto financia petróleo e desmatamento. A grande barreira de recifes na Austrália passa por sua sexta extinção de massa. Inteligentes e burros militam incansavelmente contra a liberdade de debate e expressão. Os poderosos poderosam. Os políticos politicam.
Piores cegos, não queremos ver tanta morte. Desviamos o olhar, descansamos a vista com paisagens mais serenas.
Lembramos outra do “Rei Lear”, também da boca do injustiçado Gloucester: “‘Tis the time’s plague quem madmen lead the blind.”
Os anos passam e meu corpo dá sinais de desgaste, aqui e acolá. Doencinhas demoram mais para passar. O sono é mais leve e precioso. A tendinite castiga a escrita. Os confortáveis quilos a mais exigem redução por bons motivos. Calo nos pés e pés de galinha na cara.
Meu tio cardiologista explicita: “é o processo natural de envelhecimento”.
Levanta-te e anda, André.