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O mistério do monstro de lago no Canadá

Por gerações, há rumores de que um monstro se esconde nas profundezas do Lago Okanagan - mas tudo indica que a lenda nasceu de uma falha na comunicação entre povos indígenas e colonizadores.

1 dez 2020
07h49
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Pouco depois de me mudar para Kelowna, uma cidade canadense no sul da região de British Columbia, conhecida por suas vinícolas, esportes aquáticos e trilhas para caminhadas, vi uma notícia sobre a aparição de um monstro.

Foto: BBC News Brasil

Dois irmãos avistaram uma ondulação na água no meio do Lago Okanagan, de 135 quilômetros de extensão, que corta o vale de mesmo nome, passando por Kelowna na forma de uma serpente.

Eles viram a crista da onda que logo se dissipou, mas não havia nenhum barco à vista.

Estavam convencidos de que era Ogopogo.

É impossível viver por muito tempo em Kelowna sem ouvir falar sobre a misteriosa criatura do lago. Ogopogo é para Kelowna o que Nessie é para o Lago Ness, na Escócia: um ser mítico ainda não identificado que supostamente reside nas profundezas do lago e aparece na superfície com frequência suficiente para manter a lenda viva.

É descrito como um monstro em forma de serpente com várias "corcovas", com escama verde ou preta, e cabeça de cavalo, cobra ou ovelha. Os desenhos retratam um dragão marinho como o que você pode ver no mapa de um antigo marinheiro, em que diz: "Aqui há monstros."

Ao redor da cidade, Ogopogo assume a forma caricatural de uma simpática escultura de 4,5 metros de comprimento à beira do lago; de mascote sorridente do time de hóquei local WHL; e de bichinho de pelúcia nas lojas de souvenirs.

Assim como seu nome (que é um palíndromo), sua aparência física - e própria existência - é algo que ninguém é capaz de decifrar.

A febre do Ogopogo atingiu seu ápice na década de 1980, quando a associação de turismo da região ofereceu uma recompensa de US$ 1 milhão para quem provasse a existência da criatura.

O Greenpeace se manifestou e classificou a espécie como ameaçada de extinção, exigindo que Ogopogo fosse capturado apenas na ficção, e não na vida real.

Os programas de TV americanos da época, incluindo In Search Of e Unsolved Mysteries, chegaram a noticiar sobre o misterioso habitante do Vale de Okanagan.

Guardião do lago

No entanto, só quando participei da Conferência Internacional de Turismo Indígena em Kelowna no outono passado que percebi que o Ogopogo da cultura popular canadense - uma criatura na qual 16% dos moradores de British Columbia acreditam - só surgiu por causa de um mal entendido entre os primeiros colonizadores europeus do Canadá e os habitantes nativos do Vale de Okanagan, o povo indígena syilx/Okanagan.

"Na verdade, não é um monstro, é um espírito do lago e protege este vale de uma ponta a outra", diz Pat Raphael, da Primeira Nação do Westbank, nação indígena que faz parte da Aliança Okanagan/syilx.

Ela foi minha guia pelas terras ancestrais dos syilx, que margeiam o Lago Okanagan.

Enquanto nosso ônibus seguia para o sul pela orla, Raphael explicou que, embora muitos canadenses conheçam a criatura como Ogopogo, para os syilx trata-se de n ̓x̌ax̌aitkʷ (n-ha-ha-it-koo), que significa "o espírito sagrado do lago" .

Raphael apontou para um monte marrom na Ilha Rattlesnake do outro lado do lago, onde dizem que o espírito habita. Ela também nos ensinou a dizer n ̓x̌ax̌aitkʷ na língua syilx.

"Não é Ogopogo! O que você é, um colonizador?", ela brincou enquanto algumas pessoas desistiam da pronúncia complicada e voltavam a dizer Ogopogo.

Antes de os comerciantes de pele europeus chegarem ao vale em 1809, os syilx já moravam na região há pelo menos 12 mil anos. Eles tinham suas próprias leis, sistema de justiça e crenças. A principal delas era em relação à importância da água, representada por n ̓x̌ax̌aitkʷ.

N ̓x̌ax̌aitkʷ existia em duas formas: espiritual e física, que era tangível e personificada pelo próprio lago. Às vezes, porém, o espírito se revelava de dentro de suas águas.

"Em nossas histórias, [n ̓x̌ax̌aitkʷ] é, na verdade, bem escuro, tem a cabeça de um cavalo e os chifres de um cervo", explica Coralee Miller, gerente assistente do museu Sncəwips Heritage, em West Kelowna.

"Os missionários viram nosso espírito da água e costumavam demonizar nossas crenças espirituais."

Os syilx alimentavam n ̓x̌ax̌aitkʷ simbolicamente, com tabaco e sálvia - e, em algumas ocasiões, faziam uma oferenda de salmão Kokanee para agradecer ao lago por fornecer comida e água.

"É daí que eu acho que veio o mal-entendido - os colonizadores nos viram jogar um pouco de carne na água", diz Miller.

E logo estavam contando histórias sobre uma serpente no Lago Okanagan que precisava do sacrifício de um animal vivo para ser apaziguada e garantir uma passagem segura pela água.

Uma vez que a ideia da existência de uma serpente sanguinária no lago se consolidou, a situação saiu de controle - os colonizadores começaram a patrulhar o lago armados, com receio de que a fera pudesse atacar.

Mas na década de 1920 (provavelmente na ausência de qualquer atividade predatória de humanos real), a razão falou mais alto. Autoridades de turismo batizaram a criatura de Ogopogo em homenagem a uma canção folclórica inglesa, cuja letra diz:

"Sua mãe era uma lacraia; seu pai, uma baleia; um pouco de cabeça; e quase nenhum rabo; e Ogopogo era seu nome."

De um espírito reverenciado, N ̓x̌ax̌aitkʷ havia se transformado em uma criatura com traços de desenho animado que atrairia turistas.

Lenda lucrativa

É difícil saber quantas pessoas viajaram para Kelowna no último século na esperança de ver o lendário monstro do lago, mas o fato é que com o passar do tempo, Ogopogo fez de Kelowna um destino conhecido no Canadá.

Durante anos, a criatura apareceu em carros alegóricos de Kelowna, tanto na cidade quanto em desfiles maiores no noroeste do Pacífico e em Alberta.

As lojas de souvenirs vendiam potes com os "ovos" do Ogopogo e até mesmo com suas "fezes", que voavam das prateleiras.

Embora o escritório de turismo não promova mais ativamente o Ogopogo atualmente, a lenda continua tão popular como antes.

No entanto, a apropriação indevida e a mercantilização de n ̓x̌ax̌aitkʷ é uma questão delicada.

Para Miller, membro da Primeira Nação do Westbank, n ̓x̌ax̌aitkʷ e Ogopogo são duas entidades distintas e não devem ser confundidas. Uma das missões do museu é contar a história dos povos indígenas da região e falar sobre a importância de n ̓x̌ax̌aitkʷ na proteção do lago.

Faz parte do que ela chama de "desprogramação"; questionar ou desconstruir a perspectiva colonial sobre a história e cultura local. E é também um passo importante para a reconciliação, um processo contínuo em todo o país para estabelecer e manter relações de respeito entre canadenses indígenas e não indígenas.

Na primavera passada, a empresa de turismo indígena Moccasin Trails lançou passeios de barco a remo no Lago Okanagan, onde os guias apresentam n ̓x̌ax̌aitkʷ como um talismã espiritual - e não como um monstro - e explicam como se deu a apropriação.

O passeio de canoa começa com uma cerimônia para alimentar a água. Enquanto a embarcação desliza pela superfície cristalina do lago, um líder cultural syilx espalha sálvia e tabaco na água, evocando o mundo espiritual e pedindo a seus ancestrais para manter todos em segurança.

Greg Hopf, coproprietário da Moccasin Trails, diz que a cerimônia é poderosa - e destinada a ilustrar a conexão que os indígenas têm com a terra, que é bastante pessoal.

"Queremos que as pessoas saiam do passeio com um entendimento melhor da cultura indígena."

No centro de Kelowna, o Okanagan Heritage Museum trabalha em parceria com representantes da Primeira Nação de Westbank para contar uma história mais completa da região.

O museu refez toda a sua galeria em 2019 e representa os syilx como uma cultura viva, em vez de focar apenas no modo de vida do povo da região antes da colonização.

De acordo com a diretora executiva do museu, Linda Digby, o conhecimento e a perspectiva dos sylix estão agora integrados em todas as épocas retratadas - e uma exibição sobre Ogopogo explica como n ̓x̌ax̌aitkʷ foi mal interpretado pelos colonizadores e provocou um boom no turismo.

"Para os colonizadores, [Ogopogo] era algo real", diz Digby.

"Eles definitivamente interpretaram mal o que ouviram da comunidade indígena e não tiveram escrúpulos em inventar suas próprias histórias e se apropriar dela, nem sequer teria ocorrido a eles que estavam fazendo isso."

Com o passar do tempo, a coleção de histórias dos colonizadores cresceu - ou o vizinho tinha visto a criatura, ou a própria pessoa tinha visto algo estranho no lago.

"Você mora aqui tempo suficiente, todo mundo já viu alguma coisa", acrescenta Digby.

Durante minha jornada para entender n ̓x̌ax̌aitkʷ, encontrei algumas pessoas que acreditam realmente na lenda com base no que viram no Lago Okanagan.

E elas não estão sozinhas: os arquivos do museu estão repletos de recortes de jornais de supostas aparições de Ogopogo ao longo das décadas, junto com histórias sobre como a figura de um monstro do lago é benéfica para os cofres da cidade.

"Ogopogo é maravilhoso para o turismo. Ele agrega cor, ousadia e atmosfera", diz Robert Young, professor de ciências da terra da Universidade de British Columbia Okanagan, que costuma ser chamado como a voz da razão quando ocorre uma nova "aparição" do Ogopogo .

Para Young, Ogopogo não é uma questão de biologia, e sim uma questão relacionada aos processos das ciências da terra - a maneira como a água se move sobre a superfície.

A estratificação térmica em um lago pode fazer com que uma onda apareça do nada quando uma camada mais densa de água desliza sob uma camada mais superficial, como costuma acontecer na primavera ou no outono, explica.

Ele chama o fenômeno de "onda Ogopogo".

Essa teoria oferece uma explicação plausível para o que as pessoas podem estar vendo na água.

Mas, embora Young seja totalmente a favor do pensamento crítico em relação ao Ogopogo, ele também detesta contestar sua existência.

Segundo ele, a lenda deve ser preservada, uma vez que é um ícone cultural canadense, e n ̓x̌ax̌aitkʷ é uma parte importante da crença dos syilx.

Não receio que uma criatura nas profundezas do lago pode morder meu pé quando vou dar um mergulho, mas o poder da natureza me faz refletir.

Comecei a dar uma caminhada matinal que me leva por uma trilha cercada por montanhas com vista para o Lago Okanagan.

Fico maravilhada por viver em um lugar tão deslumbrante. Quando o vento faz a água do lago ondular e balança os pinheiros que crescem na encosta, sinto uma conexão com a beleza natural da minha terra.

Talvez esse espírito seja minha interpretação de n ̓x̌ax̌aitkʷ.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.

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