Mark Twain: uma imagem pública bem cuidada
Em 1907, Mark Twain, então o mais reverenciado escritor norte-americano vivo, visitou a Inglaterra; foi um momento glorioso. Entre os demais luminares da literatura que ele conheceu na ocasião estavam Rudyard Kipling, que descreveu as máquinas fotográficas que cercavam todos os movimentos do norte-americano como "matraqueando à maneira de armas", e George Bernard Shaw. "A posição dele é comparável à minha", disse Shaw sobre Twain. "Precisa expressar suas ideias de maneira a convencer as pessoas que de outra forma o enforcariam de que ele está brincando".
Àquela altura, com 71 anos, Mark Twain havia transformado seu humor característico em forma de arte. Na mesma viagem à Inglaterra, ele terminou atraindo mais atenção que o rei Eduardo 7° e a rainha Alexandra durante uma visita ao palácio de Windsor para um chá ao ar livre; o escritor fez uma oferta pela compra do palácio. Twain expressou seu desdém pelo trabalho de Marie Corelli, uma das mais prolixas entre os romancistas populares ingleses, dizendo que "em qualquer outra companhia que não a da Marie Corelli, meu espírito é o mais terno que jamais desceu a este planeta vindo de meus ancestrais, os anjos". E aceitou triunfalmente um doutorado honorário conferido pela Universidade de Oxford, e dali por diante sempre fez questão de se identificar como "doutor Twain, por favor".
Como Michael Shelden demonstra em Mark Twain: Man in White - The Grand Adventure of His Final Years, uma animada, respeitosa e surpreendente biografia de Twain como septuagenário, esse tipo de comportamento era cuidadosamente calculado. Twain tomou decisões cruciais sobre a imagem que desejava projetar e a forma pela qual desejava viver seus últimos anos, e Shelden usa uma dessas escolhas - a preferência por ternos brancos - como parte do título de seu livro.
No início de seu livro, Shelden explica as origens do guarda-roupa inteiramente branco do escritor. O aspecto imaculado dos trajes talvez tivesse por objetivo demonstrar o lado angelical de sua personalidade, mas era também parte de uma campanha para influenciar o Congresso. Twain usou o terno branco pela primeira vez ao falar na Biblioteca do Congresso, em 1906, em defesa de um projeto de lei que protegeria de forma permanente os direitos autorais dos escritores.
O acontecimento mal merece menção na maioria das demais biografias de Twain, que compreensivelmente concentraram suas atenções na vida movimentada e na obra abundante do escritor. Assim, a decisão de Shelden de se concentrar estreitamente na velhice do autor é bastante incomum. E também vem em momento estranho, porque a persona de velhote astuto que o escritor desenvolveu já foi deslindada ao longo de um século de contemplação retrospectiva. Twain morreu em 21 de abril de 1910, e haverá outros livros para celebrar o centenário de sua morte.
Ao entrar em sua fase dos ternos brancos, Twain decidiu desfrutar dos privilégios de sua fama. Também decidiu que aproveitaria a vida, que se dedicaria menos à escrita, e que tentaria conviver de maneira mais pacífica com as pessoas ao postergar a publicação de algumas de suas opiniões mais belicosas. Ele disse que, se os Estados Unidos eram um país cristão, o inferno também o era ¿mas desejava que certas declarações sobre, por exemplo, a fé religiosa e o adultério, ficassem reservadas à posteridade. No entanto, sempre se deslocava acompanhado por um biógrafo e uma estenógrafa. Seu plano era deixar após pósteros o que Shelden descreve como "a espécie de celebração que um imperador moribundo poderia ter planejado em sua própria honra, em outra época e lugar".
Twain não teria como dar forma ao seu legado ou manter seus hábitos de vida dispendiosos sem ajuda. Por isso, Man in White trata com mais atenção algumas das pessoas que permitiram que ele se mantivesse solvente e protegido. Sua estreita amizade com Henry Huttleston Rogers, vice-presidente da Standard Oil, conhecido pelo apelido 'Hell Hound', ajudou a salvar o escritor da ruína financeira, um risco que ele já havia corrido anteriormente.
"Uma maneira de identificar se um investimento é inseguro é determinar se Mark Twain foi convidado a participar desde o começo", afirmou o Washington Post certa vez sobre a incompetência do escritor nos negócios.
Twain, àquela altura viúvo, conseguiu, assim, construir uma mansão em estilo italiano em Redding, Connecticut, onde desempenhava o papel de patriarca familiar em benefício de suas duas filhas ainda vivas. (Ele continuava de luto pela morte da filha favorita, Susy, de meningite espinhal, em 1896. Seu único filho homem, Langdon, havia morrido aos 18 meses.)
E é ao descrever o drama doméstico da vida de Twain e suas meninas que Shelden se revela um biógrafo perigosamente parcial quanto ao seu tema, e desperta dúvidas sobre as aventuras tardias do escritor.
As vidas complicadas das duas filhas sobreviventes de Twain, Clara e Jean, deixaram a impressão de que os anos finais da vida do grande escritor foram melancólicos. Mas a versão de Shelden para a história da família é muito mais complicada que isso. Outro membro importante da casa era Isabel Lyon, a secretária particularmente dedicada de Twain, que chamava o chefe de 'rei' e cujos diários, citados extensamente no livro, parecem bastante forçados.
Muito apegada ao chefe e muito ciumenta, especialmente de Clara e Jean, Lyon ainda assim escreveu que "o ar mesmo deve sentir prazer em acariciá-la enquanto caminha", sobre Clara. Já quanto a Jean, que vivia sob tratamento médico por epilepsia, Lyon talvez tenha sido responsável por alguns erros decisivos de julgamento no que tange a cuidados médicos.
Lyon viria a conspirar com Ralph Ashcroft, que gerenciava os negócios de Twain, para tentar ludibriar o escritor e convencê-lo a ceder o controle de suas finanças a uma Mark Twain Company, que controlaria até mesmo a marca Mark Twain (já que o escritor nasceu com o nome Samuel Langhorne Clemens).
E Twain se deixou iludir pela manobra até que, certo dia, percebeu a verdade. Shelden desperta a curiosidade do leitor ao escrever sobre uma diatribe inédita de Twain sobre essa traição, em texto no qual ele define Lyon como "aquela virgenzinha com data de vencimento expirada" e Ashcroft como "o bastardo de Liverpool". E Man in White termina por mais despertar dúvidas do que encontrar respostas sobre todo o incidente.
E há também a questão do Aquarium Club, de Twain, um grupo que ele formou nas Bermudas, e das 'peixinhas', as jovens que ele escolheu como sócias. Man in White não vê nada de curioso nisso, nem mesmo ao descrever uma atriz de 26 anos que se vestiu de menina de 12 anos para persuadir Twain a pintar o peixe que era o emblema do clube em seu busto.
"O que ele desejava", escreve Selden credulamente sobre Twain e suas jovens admiradoras, "era a espécie de atenção de que havia desfrutado como pai de três meninas afetuosas, e o companheirismo que esperava encontrar junto às filhas em sua velhice". O terno branco brilhava a ponto de dificultar a visão dos que o contemplavam. Aparentemente, continua a fazê-lo.
Reportagem de Janet Maslin, do New York Times