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Livro traz histórias inéditas sobre censura no Brasil

Autores de ‘Mordaça’ contam como a repressão sempre existiu e continua na música brasileira.

8 jan 2022 05h00
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João Pimentel e Zé McGill
João Pimentel e Zé McGill
Foto: Luiz Dantas

Sobre a ditadura militar (1964-85), já tivemos muitos documentos históricos narrando casos de censura de toda a sorte. Um livro lançado agora – “Mordaça – Histórias de Música e Censura em Tempos Autoritários”, de João Pimentel e Zé McGill – aborda a censura na música de maneira mais ampla, indo desde os primórdios e chegando até casos recentes, como de BNegão e Arnaldo Antunes.

Obviamente, a maior quantidade de histórias é relacionada ao período de governo militar autoritário no país. Trata-se de período em que até músicas instrumentais foram vetadas pelo governo. 

Os autores falaram ao Homework sobre a obra.

Quando as referências são “censura” e “música”, a ideia imediata é tão somente da ditadura militar. Mas o histórico é anterior e posterior no Brasil. Pode falar sobre isso? Ainda existe censura de algum modo na música e arte brasileiros?
Zé McGill:
A gente diz na introdução do livro que nunca houve um período na história do Brasil em que não tenham ocorrido casos de censura. Ela sempre esteve presente, de forma oficial ou não. É claro que durante a ditadura militar aconteceu o auge da censura, então, é natural que o livro tenha um foco maior sobre esse período. Mas contamos casos de censura à música durante a República Velha, o Estado Novo e também nos tenebrosos anos Bolsonaro. E a maioria dos nossos entrevistados acabou naturalmente falando sobre estes tristes tempos atuais e sobre os diversos casos de censura que têm surgido. Aliás, temos um posfácio dedicado exclusivamente aos casos de censura ocorridos no governo Bolsonaro, como, por exemplo, o caso do BNegão (Planet Hemp), que teve um show da sua carreira solo interrompido pela Polícia Militar de Bonito (MS), em cima do palco, porque fez um discurso contra o presidente, contra Sérgio Moro etc. Falamos também sobre a censura sofrida pelo clipe do Arnaldo Antunes, da música “O real resiste”, na estatal TV Brasil, porque o vídeo mostrava imagens da Marielle Franco. Ou seja, sim, a censura continua muito viva e precisamos ficar atentos. Um dos propósitos do livro é esse: chamar atenção para o que vem acontecendo no país. Por isso dizemos que o ‘Mordaça’ é um livro de e sobre resistência. 

Igualmente, quando falamos sobre censura e música recorremos aos exilados, Caetano, Gil, mas não aos marginalizados também pela “inteligência”, como o (então) 4P (preto, pobre, periférico e punk) Clemente, como vocês colocam no livro. Existe também uma certa censura dentro da censura?
ZM:
Pois é. A maioria das histórias de Chico, Caetano e Gil com a censura é bastante conhecida. Mas nem todas. No livro contamos alguns casos inéditos ou muito pouco conhecidos relacionados a eles. Mas, de fato, muitos outros artistas foram pouco ouvidos sobre o assunto. O Clemente (da banda Inocentes) é um deles. Odair José, Geraldo Azevedo, Joyce e Philippe Seabra (da Plebe Rude) são outros. Aliás, entrevistando alguns deles, senti que eles tinham o assunto censura meio entalado na garganta. Que queriam falar sobre isso e estavam esperando que alguém perguntasse... Essa foi a minha impressão. Todos foram muito receptivos e talvez o fato de estarmos vivendo sob um governo autoritário tenha estimulado os entrevistados. Mas, no caso do Clemente, não sei se o fato de ele ser preto, pobre, punk e da periferia teve influência sobre os casos de proibição sofridos pela banda. A censura sempre foi, sim, altamente racista e homofóbica, mas os censores não costumavam fazer distinção entre os gêneros musicais. Eles censuravam de tudo, e muitas vezes sem saber o que estavam censurando. Através dos depoimentos exclusivos coletados para o livro, ficamos sabendo de casos bizarros como o do Edu Lobo, que teve duas músicas vetadas durante a ditadura e que eram... Instrumentais. Chamavam-se “Casa forte” e “Zanzibar”. Não tinham letra e os censores devem ter achado que aqueles títulos se referissem a quilombos revolucionários ou alguma coisa do tipo. 

Qual é ou quais são suas histórias favoritas sobre censura no Brasil? Pode contar resumidamente sem dar spoiler.
João Pimentel:
Bem, não tenho histórias favoritas. Acho que, numa visão geral, as histórias relacionadas à censura são pesadas, tristes, remetem a tempos de angústia, de perseguição, de medo. Com o distanciamento, algumas se tornaram curiosas, até engraçadas. Como bem diz o Caetano, no livro, a censura era, e ainda é, uma atividade ridícula. Mas também covarde, moralista e oportunista. Calar a voz discordante, excluir é atitude de governos autoritários, obscurantistas, negacionistas. Para este tipo de gente, o pensamento, a arte, a ciência, as lutas por direitos são inimigos mortais. Para citar duas histórias, gosto do capítulo do Jards Macalé sobre o “Banquete dos Mendigos”, show que se misturou ao 25º aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, e que se tornou um marco contra os golpistas de 1964, e o do Paulo Cesar Pinheiro, em que ele fala da música “Pesadelo”, dele e de Maurício Tapajós. Nossos artistas foram corajosos e representantes de um tempo em que as coisas eram faladas. Hoje há um embate interessante e até tardio no meio artístico sobre o poder falar. Este momento tem sido importante para isso, para se questionar o “cala a boca” das grandes corporações. O artista tem sim o papel transformador do questionamento, da ruptura, e não o de ser, como bem disse Aracy de Almeida sobre sua atuação como jurada, apenas um palhaço de auditório.

Diria que Mordaça tem um valor histórico, como peça de retrato para que nunca mais passemos por isso covardemente. Como você descreveria o Mordaça?
JP:
Eu sinto, pessoalmente, que o nosso ‘Mordaça’ é exatamente isso: um documento importante sobre como a Censura tentou mutilar a criação da geração mais genial da música brasileira. A cada depoimento, a cada história contada eu pensava: ‘Porra, como é que puderam fazer este tipo de coisa com um Chico Buarque, um Gilberto Gil, um Ney Matogrosso. É a fina flor da raça humana, gente íntegra, sensível, artistas que mereciam todas as reverências possíveis’. Então, penso que nosso livro é um documento importante para qualquer momento em que os “guardas de fronteira”, como disse o Gil, os milicianos do reacionarismo resolvam fazer o trabalho sujo de agora. Não cabe mais no Mundo, apesar da insistência atual, para este tipo de atraso.

Faça um pitch descrevendo o livro para alguém que não é exatamente ligado a música
JP:
A Censura no Brasil não se deu somente no campo da música. Este foi o recorte que escolhemos. A censura sempre existiu, em alguns tempos moralista, em outros, política. ‘Mordaça’ é um apanhado de histórias sobre como o exercício da repressão às artes, à imprensa, é instrumento fundamental para regimes de exceção. O que eu acho mais importante é falarmos sobre o tema, mostrarmos para quem não viveu, ou finge que não aconteceu, os tempos absurdos que vivemos há mais de 50 anos. O que acontece hoje como farsa é a tentativa das viúvas do Médici, daqueles tempos caricatos, de se voltar a um passado sombrio, criando assim um período igualmente assombroso. Mas acredito que, citando novamente o orixá Gilberto Gil, que “a seta do mundo aponta para frente”.       

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