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Crise econômica que fez empreender é a mesma que sufoca

Nas quebradas do Rio de Janeiro, empreendedores contam como fazem para resistir com o negócio próprio após empreendedorismo 'virar moda'

7 abr 2022 05h00
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Da esquerda para direita: Yasmim Tavares, Cristiane Freitas e Thiago Abdullah
Da esquerda para direita: Yasmim Tavares, Cristiane Freitas e Thiago Abdullah
Foto: Carla Regina/ANF

Fala de empreendedorismo virou moda. Nessa mesma onda, empreendedor também virou um estilo de vida comum também nas quebradas. A crise econômica fez com que muitas pessoas resolvessem abrir seu próprio negócio após o desemprego. E algum tempo depois, o surgimento da pandemia fez com que triplicasse o número de desempregados trabalhando por conta própria a crise econômica que os fez empreender é a mesma que os sufoca, mesmo sendo na informalidade.

Empreender requer tempo e, principalmente, dinheiro. Com suas indenizações trabalhistas nas mãos, muitos não viram outra solução, a não ser investir em algo próprio, para continuar mantendo a si mesmo e a família.

As empresas estavam demitindo em massa e, segundo especialistas econômicos, não iriam contratar novamente tão cedo. Ou seja, voltar ao mercado de trabalho, assinar a carteira, e ter garantias já não era algo que se pudesse vislumbrar. O jeito seria meter as mãos na sua própria massa, fosse ela qual for.

Mas, se a crise econômica fez surgir uma grande quantidade de novos empreendedores, a mesma está os sufocando. Muitos já desistiram de seus negócios e os que ainda resistem, apertam cada vez mais os cintos para não fecharem as portas. Se reinventam, criando artifícios para pagar as contas, manter as despesas e funcionários.

Conversamos com Cristiane Freitas, que é dona de um salão de beleza localizado na entrada do Morro do Turano, entre os bairros da Tijuca e Rio Comprido, para saber como ela tem feito para equilibrar-se nessa crise econômica que ainda assombra os brasileiros.

"Aqui é uma equipe que um ajuda o outro. A gente faz as nossas promoções para poder chamar a nossa clientela, não botamos os preços acima. Se a gente botar um preço acima, nós vamos ter certeza que as pessoas não vão ter condições de pagar. Se as pessoas querem se cuidar, a gente também tem que ajudar. O que podemos fazer é colocar um preço mais inferior, para que elas possam pagar e nos ajudar a manter o nosso salão", disse a dona do salão de beleza Studio Cristiane Freitas.

No caminho que fazemos para chegar até o salão de Cristiane, podemos ver algumas lojas fechadas, com cartazes escrito que passa o ponto. Para aquela região, é um número bem significativo de comércio fechado, alugando ou até mesmo vendendo o estabelecimento. Porém, os que ainda resistem abertos vimos pouquíssimo movimento, ou praticamente nenhum, com vendedores parados nas portas das lojas, como se estivessem à espera da entrada de um cliente pelo menos. E em suas expressões faciais, é nítida a incerteza daquele dia e dos próximos.

Ao chegar no Studio Cristiane Freitas, encontramos Thiago Abdullah, que é cabeleireiro e funcionário. Conversamos um pouco enquanto aguardavamos pela responsável, que estava em sua hora de almoço. O profissional, que já tem 18 anos de experiência no ramo de tratamento de beleza, falou como está sendo passar por essa crise econômica, que ainda foi agravada pela pandemia de covid-19, e o seu setor, foi um dos mais atingidos.

"No período do início da pandemia, há dois anos, eu não senti uma diminuição em termo de clientela por conta dos protocolos de segurança. Sentia que as pessoas estavam preocupadas, mas queriam fazer o cabelo. Na segunda onda, que foi no mês de novembro, houve uma reduzida bem drástica, com muitas pessoas ficando desempregadas, e com isso os comércios locais vão reduzindo. Então, houve uma boa reduzida. Hoje é sábado, olha como o salão tá [vazio], e isso quatro meses atrás não acontecia, estaria um formigueiro aqui", afirma o cabeleireiro.

Thiago nos fala da autonomia que tem dentro do salão para tratar o valor do serviço com os clientes. O mesmo nos diz que sempre sugere algo, conversa um pouquinho, mostrando-lhes o que fica melhor para eles, e assim, evita por um preço muito inferior quando pedem o famoso desconto.

Ele ainda ressalta que a crise não é só financeira e por causa da pandemia. Além de ter muita gente ficando desempregada, há muitos também deixando a cidade e o estado do Rio de Janeiro por conta da violência.

O cabeleireiro nos fala que naquela semana atendeu mais uma de suas clientes que estaria indo embora por não suportar mais violência que assola o Rio. Como ele mesmo diz, "é uma série de fatores contribuindo com a crise financeira" e que isso tudo tem afetado o seu trabalho e de todos.

Quando perguntado como lida com a concorrência, o cabeleireiro nos diz que não tem concorrentes, mas, sim, aliados. Que dentro de sua especialidade ele é o melhor, pois faz o seu trabalho, sem olhar para os lados, pois para Thiago é ter foco no que está fazendo para não perder clientes e atrair outros.

Depois de ouvir o cabeleireiro, fomos conversar com Cristiane. Ela fala que o salão de beleza não é seu primeiro empreendimento, que antes o local funcionava uma loja de roupas. Ao contrário de muitos, Cristiane não começou a empreender levada pela crise e pela pandemia. Ela nos diz que teve sim, que mudar de ramo por conta das mesmas.

"Na época da pandemia, a gente não conseguia vender direito as roupas. As pessoas preferiram parar de comprar roupa para poder comer. Mas essa foi a realidade de todo mundo. Pensei: 'vamos ver se a gente consegue virar um salão'. Tentei, e estamos aí até hoje", diz a empreendedora.

Cristiane também nos conta que pensou em várias outras possibilidades de negócios, antes de decidir virar um salão. Ela diz que pensava no que seria melhor para atravessar a crise que se agravou ainda mais com a chegada da covid-19. Ela conta ainda que durante um tempo o estabelecimento funcionava como loja de roupas e salão de beleza, até as roupas irem acabando e se transformar de vez em um salão de beleza.

A empreendedora conta que começou com uma manicure, até receber a indicação de Thiago, e ir iniciando aos poucos no novo ramo de trabalho. Cristiana diz também que para se equilibrar com as contas, as despesas e funcionários, não foi preciso demitir ninguém, já que faz promoções e tenta ganhar na quantidade de atendimentos.

Cristiane Freitas diz que como seus funcionários ganham por comissão, e fazem seus preços, os ajuda na divulgação de seus trabalhos, postando fotos é vídeos nas redes sociais. Assim, acredita não ter precisado dispensar ninguém por isso, e os que pediram para sair, foi por conta do fraco movimento ou da distância.

Sobre empreender dentro de uma comunidade, ela diz que o público é bastante fiel, que a grande maioria de seus clientes são os mesmos, que sempre aparece um ou outro para visitar. Sobre a facilidade é dificuldade de empreender, a mesma nos diz que dentro da favela é menos burocrático e bem mais barato. Que se pudesse invistiria em um negócio na 'rua', mas, além da burocracia, a enorme quantidade de impostos é os valores a faz desistir.

Designer de sobrancelha Yasmim Tavares
Designer de sobrancelha Yasmim Tavares
Foto: Carla Regina/ANF

A última conversar conosco foi Yasmim Tavares, designer de sobrancelhas e depiladora, que também é funcionaria do salão de beleza. Ela diz que tem sentido sim o peso da crise econômica, e a contribuição da pandemia para o agravamento da mesma. Fala do receio das pessoas de irem ao são, após a suspensão da obrigatoriedade do uso das máscaras de proteção, dos aumento de preço dos produtos, o quanto tudo isso vem refletindo em seu trabalho.

"A clientela diminuiu muito por conta dessa segunda onda da pandemia. Hoje era para o salão estar super cheio. Muitas pessoas também estão com receio de vir, por causa dessa suspensão do uso de máscaras, já que tem lugar que muitas não estão usando. É ainda tem o aumento de preços, as coisas estão muito caras, como eles disseram, ou a pessoa põe comida na mesa, ou faz seus procedimentos estéticos. Hoje em dia as pessoas visam muito as coisas dentro de casa do que a estética", conta a designer.

Yasmim, que também é estudante de pedagogia, trabalha no salão para compor sua renda, já que tem um emprego de carteira assinada. A mesma diz ter feito o curso de designer de sobrancelhas e depiladora. Sobre a concorrência, a mesma segue o mesmo pensamento de sua patroa e seu colega de trabalho, acreditando que há espaço para todos.

"Cada um fazendo o seu, não tem porque ter concorrência, a verdade é essa. Eu fiz o meu para poder minha especialidade, outras pessoas também fizeram, é cada um fazendo o seu. Cada um tem os seus clientes, conquista da forma que quer, então não tem que ter concorrência", conta.

A crise econômica, que assola o Brasil, e que ainda foi agravada pela pandemia, fez com as pessoas passassem a se reinventar, independente do empreendimento e do local. Todos estão buscando seu espaço, tentando fugir da falência que uma das piores crises brasileiras dos últimos tempos tem causado aos antigos e novos empreendedores.

ANF
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