'Trabalhadores' e 'exploradores': estudo mostra como a divisão do trabalho se estabelece em um grupo
Como os membros de um grupo assumem diferentes papéis sociais e por que alguns tendem a explorar e se beneficiar do esforço alheio? Essas questões foram levantadas pelo cientista francês Philippe Faure em seu último estudo, publicado recentemente na revista científica Nature. Faure é diretor do Laboratório de Plasticidade do Cérebro do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), localizado no 5º distrito da capital francesa.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
A experiência foi realizada com camundongos geneticamente idênticos do biotério da Escola Superior de Física e Química Industriais de Paris (ESPCI). Os resultados mostraram que quando os animais precisam se organizar espontaneamente para obter comida, alguns indivíduos assumem o papel de "produtores", "exploradores" ou "acumuladores".
"A ideia da pesquisa é tentar entender como esses papéis sociais são definidos entre os animais. Temos a tendência de acreditar, por exemplo, que o camundongo que lidera o grupo será o mais forte ou o de maior porte físico. O que demonstramos é que, mesmo entre indivíduos geneticamente idênticos, que vivem nas mesmas condições, alguns trabalham, enquanto outros se aproveitam. Tentamos entender por que isso acontece e por que esse comportamento se mantém com o tempo."
Para obter a ração disponível na gaiola, os camundongos deviam pressionar uma alavanca, que liberava a comida dentro de um recipiente. Enquanto alguns animais realizavam a tarefa para obter a ração, outros apenas esperavam o alimento cair na tigela. Os animais foram colocados na gaiola em grupos de três. À medida que a comunidade se estruturava, diferentes equilíbrios de cooperação se estabeleciam: alguns camundongos chegaram a criar, por exemplo, um estoque disponível para o consumo coletivo.
"Quando fazemos essa experiência com camundongos geneticamente idênticos, percebemos que as fêmeas tendem a estabelecer uma organização social baseada no acúmulo e na recuperação progressiva da comida", diz o cientista.
O interessante, destaca o neurocientista, é que esses papéis não estavam pré‑determinados e foram se construindo ao longo das interações. A atividade neuronal dos animais, que compartilharam as experiências na mesma gaiola, foi registrada de forma contínua por câmeras ao longo de várias semanas. Ela mostrou que nos camundongos trabalhadores, o circuito dopaminérgico é ativado quando eles apertam a alavanca. A dopamina é o neurotransmissor associado à recompensa, à motivação e à tomada de decisões.
Já nos animais que apenas consomem o alimento sem esforço, o pico ocorre quando eles comem, mas principalmente quando observam outro membro do grupo pressionar a alavanca — ou seja, trabalhar por eles.
"Eles consolidaram um esquema mental baseado na obtenção da recompensa quando outro animal pressiona a alavanca. Temos claramente uma definição dos papéis em função das diferenças indicadas pelos sistemas dopaminérgicos durante a atividade", explica o pesquisador.
Machos competitivos, fêmeas cooperativas
Outra conclusão da pesquisa é que grupos formados apenas por machos tendem a se organizar em papéis complementares e mais competitivos, enquanto as fêmeas adotam comportamentos mais homogêneos e cooperativos. "Alguns machos apertam a alavanca e buscam a comida, e outros permanecem ao lado de onde o alimento cai e não 'trabalham'", exemplifica Phippe.
As trajetórias comportamentais se ajustam e se estabilizam, mas esse equilíbrio pode ser rompido, diz, se três animais "exploradores", por exemplo, forem colocados juntos na mesma gaiola. "Isso vai gerar instabilidade, porque obviamente alguém precisa trabalhar para obter comida."
Diferentes configurações foram testadas. "Assim, podemos ver que a divisão dos papéis depende da história, do ambiente e de com quem estamos no grupo. Não é algo pré‑determinado ou pré‑definido."
Os pesquisadores também realizaram experimentos neurofisiológicos. Eles aumentaram a atividade dopaminérgica no cérebro dos machos antes de introduzi‑los na gaiola e observaram que eles se tornavam mais cooperativos e menos exploradores na obtenção de alimento, comportamento similar ao das fêmeas.
Essas conclusões podem ser aplicadas ao mundo humano? "Não podemos transpor diretamente esses resultados para os seres humanos, porque há aspectos muito mais complexos em jogo. Mas existem algumas regras fundamentais semelhantes", observa o cientista.
"Um grupo não pode ter vários líderes. Se há quatro líderes potenciais, apenas um acabará ocupando essa posição — não necessariamente o mais competente. Pode ser por acaso ou em função das circunstâncias. Esses elementos são semelhantes entre humanos e camundongos: são dinâmicos."
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.