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Sonho do home office deu lugar a novo impasse entre empresas e equipes

Empresas não estão mais tão amigáveis ao trabalho em casa, deixando funcionários insatisfeitos; para especialistas, debate é cultural

1 dez 2022 - 05h00
(atualizado às 09h06)
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Home office veio como solução de problema com a pandemia, mas caiu nas graças de muitos trabalhadores
Home office veio como solução de problema com a pandemia, mas caiu nas graças de muitos trabalhadores
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil / Estadão

Um dos maiores impactos causados pela onda mundial de covid-19 há dois anos foi o crescimento do home office, o trabalho remoto por meio de internet e plataformas online. Na época, muito se falou que a tendência seria definitiva. Mas com o arrefecimento da pandemia, muitas empresas ordenaram a volta das equipes aos escritórios. Seria o fim do sonho de trabalhar em casa de vez?

A alternativa que tem vingado é o regime híbrido, que reveza home office com idas sazonais ao escritório. Mas ele também divide opiniões: alguns gostam dele para variar a rotina, enquanto outros se adequaram bem ao trabalho remoto e não sentem a necessidade de trabalhar presencialmente. Para especialistas, o impasse é menos técnico e mais cultural.

Um estudo da National Bureau of Economic Research (NBER) mostrou que o trabalhador brasileiro gostaria de trabalhar de casa 2,3 dias por semana em média. O número mostra que, após quase dois anos de uma tendência de mais isolamento social, as adequações para o home office se tornaram naturais e os benefícios de se trabalhar no conforto do lar se destacaram. 

Muitos internautas até têm declarado o seu amor pelo trabalho presencial nas redes.

O problema é que os empregadores querem mais dias no escritório do que os trabalhadores: o mesmo estudo mostra que as companhias pretendem adotar somente 0,8 dias de home office por semana.

Em média, os brasileiros estão trabalhando 1,7 dias por semana em casa, contra uma média global de 1,5. Mas, no levantamento da NBER, o Brasil e o Egito são os países em que a distância entre a quantidade de dias de home office sugerida por trabalhadores e a desejada por empregadores é a maior. 

Os empregadores, no geral, consideram que o máximo adequado para o trabalhador realizar sua função de casa é de um dia. Segundo o estudo, somente empresas da Índia e Singapura apresentaram médias superiores, de 1,8 e 1,1 dias, respectivamente.

Reuniões emergenciais podem ser mais eficientes no trabalho presencial
Reuniões emergenciais podem ser mais eficientes no trabalho presencial
Foto: Forbes

Quais os impactos na produtividade?

O home office traz o benefício da flexibilidade, mas é preciso disciplina para equilibrar funções domésticas com as do trabalho. Para cargos que exigem alta concentração, ele pode ser positivo; no escritório, a atenção se divide entre outras demandas. Por outro lado, na hora de resolver uma crise, a facilidade de comunicação do presencial pode ajudar, pois no home office é mais difícil organizar diferentes agendas.

“Não vejo o trabalho híbrido como uma resistência das empresas ao 100% remoto, mas como uma necessidade de equilibrar os benefícios do home office com os do escritório, como engajamento, trabalho em equipe e reuniões mais produtivas e focadas”, diz Fábio Nogueira, diretor executivo da consultoria Wyser Brasil.

Rosana Pilon Muknicka, gestora da área trabalhista da Peck Advogados, acredita que parte da resistência ao home office vem de uma visão ultrapassada de que os empregados não trabalham de forma adequada – o que não é verdade.

“Trata-se muito mais de uma cultura antiga do que da realidade em si, uma vez que há diversos mecanismos eficientes de controle à distância, tanto do horário quanto do rendimento do empregado”, diz.

“O próprio gestor terá que alterar a sua forma de gestão e organização do pessoal. Deve criar métricas de performance e delegar maior responsabilidade aos seus subordinados, que estarão mais sujeitos ao resultado do trabalho do que ao comparecimento no estabelecimento”, afirma a especialista.

Oportunidades estão em grandes centros: mas a que custo?

Um dos principais argumentos para trabalhar em casa é o tempo e energia gastos no transporte público.  Um estudo conduzido pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e o Sebrae mostrou que, em média, o brasileiro morador de capitais gasta duas horas do seu dia no trânsito, o que equivale a 21 dias inteiros durante o ano. 

Tentando fugir desse desconforto, os brasileiros estão literalmente aceitando ganhar menos para trabalhar de casa. Segundo o NBER: enquanto trabalhadores do mundo todo cederiam, em média, 5% de sua remuneração pela possibilidade de ter dois ou três dias de home office, os brasileiros aceitariam perder até 7,4%.

Funcionários gastam horas no transporte por dia
Funcionários gastam horas no transporte por dia
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Área de TI se destaca

As empresas também têm uma vantagem com o home office: amplia a busca por talentos de diferentes localidades. Um levantamento da plataforma de vagas de emprego Catho mostrou que as oportunidades de trabalho remoto cresceram 496% no primeiro semestre de 2022, em comparação ao mesmo período do ano passado. 

O setor de tecnologia da informação, que cresce em ritmo acelerado e carece de profissionais capacitados, foi o que teve o maior salto. Só o índice de anúncios de programador no home office teve um aumento de 5.856% no mesmo semestre.

“Para profissionais de tecnologia, isso já era um movimento, e quando as empresas não disponibilizam o modelo full home based ou híbrido, há uma maior dificuldade para contratar”, diz Nogueira, da Wyser Brasil.

Uma explicação para o fenômeno é que a área de TI já contava com uma estrutura de trabalho remoto antes da pandemia, principalmente em multinacionais que recrutavam talentos de diferentes localidades. “Nas empresas globais com processos bem definidos, o trabalho remoto é bem aceito”, pontua o consultor.

Fonte: Redação Byte
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