Cozinheiro robô: chefs mecanizados invadem a cozinha
Em um corredor vazio, iluminado por luz fluorescente, no segundo piso do Smith Hall, um dos edifícios da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, o professor Paul Rybski e uma dupla de alunos de pós-graduação demonstraram a mais avançada de suas criações. Resultado de dois anos de pesquisa e do conhecimento coletivo de 17 membros do corpo docente, alunos de graduação e de doutorado do Grupo de Interação Robô-Humano, o trabalho tem a forma de um robô equipado com um sistema de navegação por laser que custa US$ 20 mil, sensores de som e uma câmera estereoscópica Point Grey Bumblebee 2, que faz a função de olhos, os quais parecem encarar os espectadores de um rosto de plástico cor de argila, sem sexo definido.
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Com Rybski contemplando como um pai orgulhoso, um estudante barbado de pós-graduação digitou alguma coisa em um laptop instalado sobre um carrinho de serviço, e o robô começou a rodar a fim de cumprir sua missão primária: a entrega de uma barra de cereais Nature Valley embrulhada em plástico transparente.
"Olá, sou o Snackbot", declarou o aparelho, em voz não muito diferente da usada pelo computador HAL 9000, no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, enquanto sua "boca" retangular formada por LEDs pulsava ao formar palavras. "Vim entregar comida a Ian. Ian está por aqui?"Respondi afirmativamente. "Oh, olá, Ian", disse o robô. "Eis o seu pedido. Creio que seja uma barra de granola, certo?" Confirmei o pedido. "Está bem, pode apanhar o seu pedido. Tenho certeza de que é gostoso, mas eu mesmo preferiria um prato de eletricidade".
Projetado para recolher informações sobre como os robôs interagem com pessoas (e para descobrir como melhorar o relacionamento entre os dois grupos), o Snackbot foi cuidadosamente considerado em termos de máxima aproximação, em todos os detalhes, do seu tamanho à sua cor. E o fato de que ele distribui comida, para surpresa de ninguém, ocupa posição central nessa facilidade de aproximação.
"Percebemos que não existia maneira melhor de as pessoas interagirem com um robô do que uma máquina que lhes traz comida", disse Rybski.
O Snackbot é apenas um dos soldados em um verdadeiro exército de novos robôs projetados para servir e cozinhar alimentos, e no processo funcionar como embaixadores de boa vontade, e divulgadores, de um futuro mais automatizado.
Em 2006, depois de quatro anos de pesquisa e de investimentos de mais de US$ 250 mil, a Fanxing Science and Technology, uma empresa de Shenzhen, China, revelou aquilo que designou como "o primeiro robô culinário do mundo" -o AIC-AI Cooking Robot-, capaz de, ao apertar de um botão, fritar, assar, ferver e cozinhar milhares de pratos chineses, de pelo menos três regiões culinárias distintas no país.
O AIC-AI precisa de um forno especial para cozinhar, mas muitos dos magos culinários mecanizados desenvolvidos depois dele podem trabalhar em qualquer espécie de fogão, desde que o robô aprenda com antecedência como um dado fogão funciona, ou que as características do fogão estejam programadas no software do aparelho.
Em 2008, cientistas do Laboratório de Algoritmos e Sistemas de Aprendizagem, em Lausanne, Suíça, desenvolveram um desses cozinheiros robotizados capazes de aprender, o Chief Cook Robot, capaz de fazer omeletes (presunto e queijo foi sua primeira tentativa de recheio). No mesmo ano, o Museu das Indústrias Criativas de Osaka, no Japão, viu a demonstração de um robô programável capaz de fazer takoyaki (bolinhas de polvo) começando do zero, e usando uma bandana de chefe de cozinha posicionada elegantemente sobre seu módulo superior.
Em junho de 2009, a Exposição Internacional de Maquinaria e Tecnologia Alimentícia de Tóquio viu a apresentação do Motoman DAS-10, um robô de ombros largos e dotados de braços em forma de espátulas; o aparelho fez okonomiyaki (panquecas apimentadas) para os presentes; outro robô montava sushi com uma mão de aparência assustadoramente realista; e ainda outro, o Dynamizer, fatiava pepinos em velocidade absurdamente rápida, e se queixava ocasionalmente de que estava cansado e queria ir para casa.
Depois, um mês mais tarde, em Nagoya, Japão, foi inaugurado o restante Famen, com dois gigantes robôs amarelos capazes de preparar até 800 porções de ramen ao dia. Nos horários de movimento mais lento, os executam uma rotina cômica roteirizada, e duelam com facas.
"O conceito desses restaurante é que o robô número um é o gerente, e cuida de ferver o macarrão, e o robô número dois é seu assistente, o prepara para sopa e acrescenta os demais ingredientes", disse Kenji Nagaya, o proprietário do Famen. "Os funcionários humanos na verdade trabalham sob o comando dos dois robôs".
Em meio a uma desaceleração econômica e a uma disparada nos níveis de desemprego, a ideia mesma de um robô chefe de cozinha pareceria, na melhor das hipóteses, insensível, e na pior um completo insulto. Mas não é muito provável que esses robôs estejam operando as grelhas e fogões de restaurantes comerciais, em curto prazo. Ao preço de US$ 100 mil o par, disse Nagaya, o custo dos robôs "é alto demais para fazer ramen".
Em pelo menos um caso, na Europa, um robô de fato se instalou diante do fogão. Entre 1999 e 2002, um robô metálico de olhos escarlate chamado Cynthia serviu drinques no Cynthia's Bridge Bar & Lounge in London. Mas, de acordo com o engenheiro de robótica Magnus Wurzer, "manter o robô era caro demais depois que a empresa que o fabricou vendeu o bar".
Um resenhista, em artigo para o site virtual-london.com, que oferece informações turísticas sobre a cidade, conta que os problemas de Cynthia eram mais sérios: "Ela trabalha rápido, e serve os drinques com perfeição; ela os mistura, conta piadas horríveis e ri sozinha, enquanto os clientes, apavorados, ficam felizes por ela não poder sair de trás do balcão".
Por mais difícil que seja reproduzi-lo, comportamento próximo ao humano era também o objetivo dos criadores do Snackbot. "Como conseguir que um robô de serviço interaja com os seres humanos?", diz Rybski. "Eis um problema sério. É diferente trabalhar com seres humanos e com canos em uma linha de montagem".
Para estudar o problema, uma das alunas de pós-graduação de Rybski, uma discreta e esbelta mulher sul-coreana chamada Min Kyung Lee, passou dois dias observando um vendedor de cachorro quente no campus da universidade, para ver como ele interagia com os consumidores. Ela empregou aquilo que aprendeu a fim de programar o diálogo do robô.
Além do evidente desafio de instilar personalidade a uma máquina, existe outro, um axioma há muito aceito pelo mundo da robótica: aquilo que costuma parecer natural a um ser humano pode ser impossível de ensinar a uma máquina.
Wurzer diz que um cientista da Roboexotica construiu um robô cuja única função seria preparar mojitos - "com todos os gestos de um bartender ao fazê-lo". No entanto, a tarefa mais desafiadora para todos os robôs, disse ele, era provavelmente a única coisa que nenhum bartender humano jamais encontrou dificuldade para realizar: lidar com o gelo.
O Chief Robot Cook ainda depende de assistência humana para quebrar ovos - as cascas são delicadas demais para suas mãos metálicos. O robô que faz okonomiyaki ainda precisa que os legumes lhe sejam entregues pré-preparados - exatamente a tarefa, se poderia argumentar, que deveria caber a um robô.
E embora seja claro que robôs poderiam ser desenvolvidos e treinados para tarefas como essa, algumas artes culinárias são tão delicadas e antigas - tão veneradas e respeitadas - que nem mesmo os criadores dessas máquinas gostariam de confiá-las a mãos mecânicas.
"Você gostaria de sushi feito por uma mão robotizada?", disse Toshimi Shimizu, que programou a mão que apanhava sushi. "Quem realmente desejaria isso? Para fazer um bom sushi, um robô jamais poderia derrotar um sushiman humano. Um robô jamais poderá ir além da capacitação humana ou da inteligência humana".
Mas o verdadeiro obstáculo a um mundo repleto de assistentes de cozinha mecanizado e chefes robotizados dados a acessos simulados de raiva pode ser algo mais difícil de simular: nenhum desses robôs distingue sabores.
Keizo Shimamoto, que mantém um blog sobre o macarrão ramen, e já comeu no Famen, o restaurante robotizado japonês, contou que o estabelecimento estava "meio morto" quando ele o visitou no ano passado. Ainda que o proprietário tenha dito que seres humanos testam o sabor da sopa, "foi um pouco decepcionante", disse Shimamoto. "Uma coisa é conseguir que as pessoas vão lá para ver os robôs. Mas para conseguir que elas retornem repetidamente", disse ele, "é necessária uma sopa melhor".
Tradução: Paulo Migliacci ME