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Por que carros, livros e eletrônicos têm 'cheiro de novo'? A química invisível dos materiais industriais

Em carros recém-saídos da concessionária, em eletrônicos tirados da caixa ou em livros recém-impressos, muitas pessoas percebem um aroma particular, frequentemente chamado de "cheiro de novo".

15 abr 2026 - 09h32
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Em carros recém-saídos da concessionária, em eletrônicos tirados da caixa ou em livros recém-impressos, muitas pessoas percebem um aroma particular, frequentemente chamado de "cheiro de novo". Esse odor costuma remeter a produtos recém-fabricados e bem conservados. No entanto, por trás dele existe um fenômeno químico que a indústria chama de desgaseificação, ou off-gassing. Nesse processo, materiais usados na produção liberam substâncias gasosas que antes permaneciam presas em sua estrutura.

Ao contrário da impressão de que se trata apenas de um perfume industrial, o "cheiro de novo" resulta, em grande parte, da evaporação de Compostos Orgânicos Voláteis, os chamados COVs. Esses compostos escapam lentamente de plásticos, espumas, colas, tintas, vernizes e tecidos sintéticos. A combinação de diferentes COVs forma uma espécie de "assinatura química" para cada produto. Isso explica por que o aroma de um carro novo difere do de um livro recém-comprado ou de um aparelho eletrônico lacrado. Além disso, pesquisadores em qualidade do ar interno já identificaram dezenas de moléculas distintas em um único interior de veículo, o que reforça a complexidade dessa mistura.

O que é a desgaseificação que gera o cheiro de novo?

desgaseificação é o processo em que substâncias químicas presentes em materiais sólidos ou líquidos passam para o estado gasoso e se misturam ao ar ambiente. Em produtos industriais, isso ocorre porque muitos itens utilizam misturas complexas: plásticos com aditivos, espumas com agentes expansores, tintas com solventes e adesivos com resinas. Depois que o produto fica pronto, nem todos esses componentes reagem totalmente ou se fixam de forma definitiva na estrutura do material. Assim, uma parte deles continua "livre" e pode evaporar ao longo do tempo.

Assim que alguém fecha um carro zero quilômetro, ou quando uma fábrica embala um equipamento eletrônico em uma caixa quase hermética, esses COVs começam a se acumular no interior. Ao abrir a porta do veículo ou rasgar o plástico da embalagem, o ar concentrado em compostos voláteis entra em contato com o ambiente e com o olfato humano. A mesma lógica vale para livros novos: tintas gráficas, colas de encadernação e o próprio papel liberam pequenas quantidades de gases, que formam o aroma característico das páginas recém-impressas. Em casas e escritórios modernos, cheios de superfícies sintéticas, esse processo também ocorre de forma contínua, embora muitas vezes passe despercebido.

leitura – depositphotos.com / imagepointfr
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Foto: Giro 10

Cheiro de novo é perigoso? Os COVs e a saúde

Entre os COVs associados ao "cheiro de novo" aparecem substâncias como benzenoformaldeído, tolueno e xileno, identificadas em diferentes estudos de qualidade do ar interno. Esses compostos podem vir de plásticos, espumas de bancos automotivos, revestimentos internos, colas de painéis e acabamentos de superfícies. Em ambientes fechados, a concentração desses gases tende a ser maior logo após a fabricação ou a compra do produto, pois o ritmo de liberação é mais intenso nas primeiras semanas.

Do ponto de vista de saúde pública, o ponto central não é apenas a presença dos COVs, mas a concentração e o tempo de exposição. Por isso, agências reguladoras e normas técnicas, como diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e padrões de qualidade do ar interno usados em vários países, definem limites considerados seguros para substâncias como benzeno e formaldeído. Em resposta a essas exigências, a indústria automotiva, de móveis, construção civil e eletrônicos sente pressão crescente para reduzir emissões e, por isso, vem adotando materiais de baixa emissão e testes de laboratório específicos para medir o off-gassing. Em alguns países, certificações ambientais já restringem fortemente o uso de certos solventes e resinas em ambientes internos, o que estimula soluções mais sustentáveis.

De forma geral, em ambientes ventilados, o cheiro de novo tende a diminuir nas primeiras semanas, justamente porque grande parte dos COVs se dispersa. Em concentrações baixas e por períodos curtos, esses odores aparecem, na maior parte dos estudos, como subprodutos industriais com efeito limitado, embora possam provocar incômodo em pessoas sensíveis, como irritação leve nos olhos ou dor de cabeça.

Por que o cheiro de novo é tão marcante para o olfato?

Alguns fatores ajudam a intensificar essa percepção:

  • Ambiente fechado: interiores de carros e caixas de papelão funcionam como câmaras que concentram os vapores, aumentando a carga de odores em pouco espaço.
  • Temperatura: o calor acelera o off-gassing e aumenta a liberação de COVs em menos tempo, o que torna o cheiro mais forte em dias quentes ou sob sol direto.
  • Materiais porosos: espumas e tecidos absorvem e liberam gases de forma gradual, mantendo o odor por mais tempo e criando uma sensação de "cheiro que não sai".
  • Associações psicológicas: a lembrança de um bem recém-comprado reforça a atenção ao cheiro, tornando-o mais marcante. Além disso, memórias afetivas, como o primeiro carro ou o primeiro livro favorito, podem intensificar essa resposta emocional.

No caso dos livros novos, o aroma envolve componentes da celulose do papel, resinas usadas no branqueamento, solventes de tinta e colas da lombada. Em eletrônicos, entram em cena plásticos da carcaça, revestimentos de cabos, placas de circuito e até espumas internas de proteção da embalagem. Cada categoria de produto forma um "mix" diferente de compostos, mas todos compartilham a mesma lógica de desgaseificação.

Como reduzir a exposição ao cheiro de novo no dia a dia?

Em linha com recomendações de órgãos de saúde ambiental e normas de qualidade do ar interno, algumas medidas simples aparecem como eficazes para lidar com o off-gassing sem complicação. Entre as práticas mais relatadas estão:

  1. Ventilar com frequência: deixar janelas de carros novos abertas em locais seguros e arejar ambientes onde móveis ou eletrônicos recém-instalados foram colocados. Além disso, o uso de exaustores ou ventiladores pode acelerar a troca de ar.
  2. Evitar calor excessivo: sempre que possível, não expor por longos períodos carros e produtos novos a altas temperaturas, que aceleram a liberação de COVs. Portanto, vale procurar sombra ou garagens cobertas nos primeiros dias.
  3. Desembalar gradualmente: retirar plásticos protetores e deixar os itens em locais ventilados por alguns dias ajuda a dispersar o odor inicial. Em alguns casos, também é útil combinar essa estratégia com janelas abertas ou circulação cruzada de ar.
  4. Observar certificações: produtos com selos de baixa emissão de COVs, comuns em pisos, tintas e móveis, tendem a liberar menos compostos ao longo do tempo. Dessa forma, o consumidor consegue reduzir a carga química somada em casa, principalmente em ambientes pequenos.

Em resumo, o "cheiro de novo" em carros, livros e eletrônicos sinaliza a química invisível dos materiais industriais, resultado direto da desgaseificação de Compostos Orgânicos Voláteis presentes em plásticos, colas, tintas e tecidos. Assim, ao escolher produtos de menor emissão e favorecer a ventilação, o consumidor participa ativamente dessa equação, equilibrando bem-estar, durabilidade e saúde.

leitura – depositphotos.com / imagepointfr
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Foto: Giro 10
Giro 10
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