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Medo de doença: psiquiatra francesa explica como identificar a hipocondria

Sentir apreensão em relação à própria saúde é um sentimento comum, mas, quando ele é muito desproporcional ao risco, pode ser sinal de hipocondria — um transtorno de ansiedade caracterizado pelo medo de ficar doente e até mesmo de morrer.

26 mai 2026 - 13h06
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Embora o termo seja constantemente banalizado, a hipocondria interfere na qualidade de vida e gera sofrimento psíquico. Os hipocondríacos tendem a interpretar sensações comuns do corpo como sinais de doenças graves. Um leve desconforto pode se transformar, em sua percepção, em um indício de problema sério de saúde.

Essa atenção constante leva a uma vigilância excessiva do próprio corpo e à busca incessante por consultas médicas e exames. E, mesmo se os resultados estiverem todos em ordem, isso não é suficiente para acalmar o paciente.

No dia a dia, a preocupação com a saúde também pode comprometer atividades profissionais e sociais. A internet contribui para a "neura" e se torna o espaço ideal para o hipocondríaco buscar informações médicas, fazer associações que não têm necessariamente relação de causa e efeito e inventar diagnósticos.

O transtorno pode estar associado a outros quadros de ansiedade, a situações de estresse ou a experiências pessoais, como o convívio com doenças graves na família.

A hipocondria tem tratamento, e a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das abordagens mais utilizadas. O método busca ajudar o paciente a identificar padrões de pensamento distorcidos, compreender suas origens e desenvolver novas formas de interpretar as sensações corporais.

O paciente pode demorar para buscar ajuda porque nem sempre tem consciência do problema, explica a psiquiatra Sarah Smadja, que atua no Hospital Sainte-Anne (GHU Paris Psiquiatria e Neurociências) e também é perita judicial.

"Na verdade, não é tão simples admitir que está na hora de consultar um psiquiatra. Os pacientes têm consciência de que existe um medo exagerado e um excesso de consultas médicas e de exames, que, num primeiro momento, tranquilizam, mas não impedem novas consultas, já que o medo excessivo sempre volta."

Essa dúvida permanente do hipocondríaco sobre seu estado de saúde envolve fatores biológicos e psicológicos, diz a psiquiatra. O nível de ansiedade depende também de elementos ambientais.

"Ocorre o que chamamos de gatilhos: acontecimentos que se somam ao estresse, ao desânimo e vão gerar esses picos de angústia, que contribuem para a manifestação da doença. Esse processo pode induzir a um comportamento quase delirante, que acaba ultrapassando a hipocondria e se transformando em outra patologia."

Como identificar a hipocondria?
Como identificar a hipocondria?
Foto: RFI

Na prática, o que caracteriza a hipocondria?

"É uma angústia, um medo, mas um medo avassalador, excessivo, em que o paciente estará atento ao seu corpo e interpretará os sinais de maneira exagerada. Esse é o mecanismo." Essa angústia pode levar a sintomas corporais, como suores ou palpitações, por exemplo, que vão corroborar a hipótese da existência de uma doença grave.

Ela lembra que o transtorno pode, basicamente, se manifestar de duas maneiras: o paciente consulta demais ou então nunca vai ao médico, temendo o diagnóstico. Existe um elo entre o corpo e a mente, capaz de provocar reações orgânicas. É exatamente esse o círculo vicioso vivenciado por um hipocondríaco, diz a psiquiatra.

A apresentadora francesa Agathe Lecaron sofre de hipocondria e escreveu o livro "Paciente Zero", em tradução livre. Os primeiros sintomas apareceram na infância. Ela se lembra de que, aos oito anos, costumava consultar o dicionário para buscar a definição de algumas "sensações", como a taquicardia.

A francesa cita algumas de suas supostas doenças, que integram uma longa lista de diagnósticos improváveis. "Tive muito medo de estar com câncer neuroendócrino, câncer do maxilar, tive uma hepatite C — mas, nesse caso, foi um erro do laboratório; o resultado indicava hepatite C positiva. Grávida, acreditei que estava com todas as doenças possíveis desse período. Meu filho teve todas as doenças possíveis, e também tive muito medo de estar com esclerose múltipla", conta.

Patologias que, na verdade, nunca existiram. Mas a ansiedade e o estresse afetavam seu sono, e ela sentia sintomas reais, que podiam, de fato, estar presentes em várias doenças. No auge da ansiedade, ela chegou ao ponto de fazer um exame PET para câncer e perguntar aos pacientes na sala de espera se o tratamento deles tinha dado certo. Hoje, diz sentir vergonha desse episódio.

"O que é complicado na hipocondria é o mito do doente imaginário, como na peça de Molière. Como o próprio nome diz, o doente imaginário imagina, então não tem nada grave, já que a pessoa de fato nunca está doente. Mas a hipocondria, por si só, é uma doença", conclui.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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