Executivo da Meta alertou que plano de encriptação do Messenger era "muito irresponsável", mostra documento
Os executivos da Meta seguiram com um plano para criptografar os serviços de mensagens conectados aos aplicativos Facebook e Instagram, apesar dos alertas internos de que isso prejudicaria a capacidade da gigante das mídias sociais de sinalizar casos de exploração infantil às autoridades policiais, de acordo com documentos internos da empresa apresentados em um processo judicial no estado do Novo México, nos Estados Unidos.
"Estamos prestes a fazer uma coisa ruim como empresa. Isso é muito irresponsável", escreveu Monika Bickert, chefe de política de conteúdo da Meta, em uma conversa interna datada de março de 2019, enquanto o presidente-executivo, Mark Zuckerberg, preparava o anúncio público do plano.
O processo, que foi divulgado na sexta-feira, contém emails, mensagens e documentos informativos obtidos em uma ação movida pelo procurador-geral do Novo México, Raul Torrez, que lançam uma nova luz sobre como a empresa avaliou o impacto do plano e como os executivos de alto escalão das áreas de política e segurança da empresa o viam na época.
Torrez alega que a Meta permitiu que predadores tivessem acesso irrestrito a usuários menores de idade e os conectassem com vítimas, muitas vezes levando a abusos no mundo real e tráfico de pessoas. O julgamento começou este mês e é o primeiro caso desse tipo contra a Meta a chegar a um júri.
A informação surge num momento em que a Meta enfrenta uma onda de processos e ameaças regulatórias no mundo relacionadas com o bem-estar de jovens usuários de suas plataformas.
Além do processo do Novo México — que se concentra na suposta falha da empresa em lidar com a predação infantil —, uma coalizão de mais de 40 procuradores-gerais está buscando indenizações alegando que os produtos da empresa prejudicam amplamente a saúde mental dos jovens.
Alguns distritos escolares também estão processando a empresa. Zuckerberg testemunhou na semana passada em mais um caso movido por advogados que representam um adolescente supostamente prejudicado por seus produtos no Tribunal Superior do Condado de Los Angeles.
A última ação no caso do Novo México acusa especificamente a Meta de deturpar a segurança de seu plano de implementar criptografia padrão de ponta a ponta no Messenger, que foi anunciado pela primeira vez em 2019 e posteriormente expandido para incluir mensagens diretas do Instagram.
RISCO AUMENTADO
A criptografia de ponta a ponta — na qual a mensagem do remetente é transmitida em um formato que apenas o dispositivo do destinatário pode decodificar — é um recurso padrão de privacidade de muitos aplicativos de mensagens, incluindo o iMessage, da Apple, o Google Messages e o WhatsApp, também da Meta.
Mas defensores da segurança infantil, incluindo o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas (NCMEC) dos EUA, argumentaram que a tecnologia representa um risco elevado quando incorporada a redes sociais públicas que conectam facilmente crianças a pessoas que elas não conhecem.
Os documentos apresentados no Novo México mostram que os executivos seniores de segurança da Meta expressam esse mesmo receio. Mesmo com Zuckerberg afirmando publicamente que a empresa abordava os riscos do plano, os principais executivos de segurança e política expressaram internamente a sua consternação, com Bickert, chefe da política de conteúdo, afirmando que a empresa fazia "declarações grosseiramente erradas sobre a nossa capacidade de conduzir operações de segurança", mostram os documentos.
"Devo dizer que não estou muito interessada em ajudá-lo a vender isso", escreveu Bickert sobre os esforços de Zuckerberg para promover a criptografia por motivos de privacidade. Com a encriptação de ponta a ponta, "não há como descobrir o planejamento de ataques terroristas ou a exploração infantil" e encaminhar proativamente esses casos às autoridades policiais, acrescentou ela.
Em um email de fevereiro de 2019, um documento informativo da Meta estimou que o total de denúncias reportadas pela empresa envolvendo imagens de nudez infantil e exploração sexual ao NCMEC no ano anterior teria caído de 18,4 milhões para 6,4 milhões se o Messenger tivesse sido criptografado, uma queda de 65%.
Uma atualização posterior do mesmo documento afirmou que a Meta teria sido "incapaz de fornecer dados proativamente às autoridades policiais em 600 casos de exploração infantil, 1.454 casos de sextorsão, 152 casos de terrorismo e 9 ameaças de tiroteios em escolas".
RECURSOS DE SEGURANÇA ADICIONAIS
O porta-voz da Meta, Andy Stone, disse em resposta a perguntas da Reuters que as preocupações levantadas por Bickert e Antigone Davis, diretora global de segurança da Meta, levaram a empresa a trabalhar em recursos de segurança adicionais antes que a empresa lançasse mensagens criptografadas no Facebook e no Instagram em 2023.
Embora as mensagens sejam criptografadas por padrão, os usuários ainda podem denunciar mensagens questionáveis à Meta para análise e possível encaminhamento às autoridades policiais.
"As preocupações levantadas em 2019 representam a razão pela qual desenvolvemos uma série de novos recursos de segurança para ajudar a detectar e prevenir abusos, todos projetados para funcionar em chats criptografados", disse Stone.
Entre os esforços da empresa estava a criação de contas especiais para usuários menores de idade, que impedem que usuários adultos iniciem contato com menores que não conhecem.
Os executivos de segurança levantaram especificamente o espectro de crianças sendo aliciadas nas plataformas de mídia social semipúblicas da empresa e, em seguida, exploradas em seus serviços de mensagens privadas.
"O FB [Facebook] permite que pedófilos encontrem uns aos outros e crianças por meio do gráfico social, com fácil transição para o Messenger", escreveu Davis em um email de 2019 avaliando os riscos do plano.
Em contrapartida, ela escreveu que o serviço de mensagens criptografadas existente da Meta, o WhatsApp, não estava diretamente conectado a uma plataforma de mídia social e, portanto, não apresentava os mesmos riscos.
"O WA (WhatsApp) não facilita as conexões sociais, o que significa que tornar o Messenger e2ee (criptografado de ponta a ponta) será muito, muito pior do que qualquer coisa que já vimos/tivemos um vislumbre no WA", disse ela.