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Cientistas franceses criam anticorpo que combate a resistência do câncer de pâncreas à quimioterapia

O câncer de pâncreas é um dos mais letais, e a taxa de sobrevida é baixa: cerca de 13% dos pacientes estão vivos cinco anos após o diagnóstico, de acordo com dados da Sociedade Americana do Câncer. No entanto, novas terapias, como o anticorpo NP137, desenvolvido por pesquisadores franceses e associado a outros medicamentos, podem melhorar os prognósticos.

16 jun 2026 - 11h35
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Taíssa Stivanin, da RFI em Paris

O pesquisador Patrick Mehlen em seu laboratório em Lyon, na França.
O pesquisador Patrick Mehlen em seu laboratório em Lyon, na França.
Foto: © Franck Beloncle / RFI

O anticorpo NP 137 atua como um tratamento coadjuvante e é capaz de bloquear um dos mecanismos de resistência das células cancerígenas, explicou o pesquisador Patrick Mehlen, que liderou a equipe de cientistas do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), do Centro Léon Bérard e da Universidade Claude Bernard Lyon 1, que realizou a pesquisa. Os resultados foram publicados em abril na revista científica Nature

A terapia, ainda em fase de testes clínicos, poderá ser associada ao daraxonrasib, novo medicamento que promete revolucionar o tratamento contra a doença, apresentado durante o congresso da Associação Americana de Oncologia Clínica (ASCO), que ocorreu no fim de maio. A nova molécula atua nas mutações do gene KRAS, presentes em cerca de 90% dos pacientes que têm câncer de pâncreas.

A sigla KRAS (Kirsten Rat Sarcoma) é uma referência à pesquisa sobre vírus que causavam câncer em ratos, que resultou na descoberta do oncogene, nos anos 80. A expectativa é que o daraxonrasib esteja disponível já em 2027. 

"Nossa descoberta abre muitas perspectivas para o tratamento de pacientes com câncer de pâncreas. Nosso anticorpo não concorre com o daraxonrasib, eles estão em sinergia. A ideia no futuro é justamente associar essas duas moléculas para ampliar ainda mais a sobrevida dos pacientes." 

Avaliado pela equipe do cientista francês em um ensaio clínico de fase 1b, o anticorpo melhorou a resposta dos pacientes à quimioterapia e aumentou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas localmente avançado, com contraindicação para cirurgia.

"Nossa pesquisa está centrada em um processo celular importante durante o desenvolvimento embrionário e mais especificamente por um mecanismo que permite que as células se desloquem. Esse processo tem um nome um pouco técnico, chamado EMT, transição epitélio-mesenquimal. É um termo complicado, mas, basicamente, ele permite que a célula mude de forma e saia de um lugar para ir para outro. Ele é essencial durante o desenvolvimento." 

Ausência de toxicidade

Pesquisas anteriores mostraram que, graças a esse processo, as células tumorais se tornam mais móveis, invadem outros tecidos e formam metástases. No estudo, os pesquisadores franceses descreveram como uma proteína chamada netrina‑1 influencia esse mecanismo e ajuda as células cancerígenas a adquirir a capacidade de migrar e resistir aos tratamentos. A equipe então desenvolveu um anticorpo terapêutico capaz de inibir sua ação. Após a fase pré-clínica, o tratamento foi testado em 43 pacientes.

"O estudo não revelou sinais de toxicidade. O anticorpo foi administrado de maneira isolada, e os pacientes incluídos geralmente estavam em estágio avançado da doença, muitas vezes sem outras opções terapêuticas. A fase 1 reúne pacientes voluntários, que aceitam receber o tratamento principalmente com o objetivo de contribuir para a pesquisa."

A ausência de toxicidade era esperada e em alguns pacientes, os cânceres até mesmo diminuíram. Após as análises de biópsias tumorais antes e depois do tratamento, os cientistas também verificaram que o anticorpo bloqueava os processos celulares que levam ao câncer e melhorava a resposta à quimioterapia. 

"Combinamos a quimioterapia com o nosso anticorpo. O estudo foi conduzido com 43 pacientes com câncer de pâncreas chamado localmente avançado, ou seja, quando o tumor já se espalhou dentro do pâncreas, mas ainda não atingiu outros órgãos. Nós os tratamos com quimioterapia associada ao anticorpo que desenvolvemos." 

Os cientistas também observaram que, nos pacientes que apresentam o receptor da netrina‑1, a sobrevida aumentou e houve menos recaídas após a quimioterapia. Os dados mais recentes, apresentados no congresso da ASCO, em Chicago, mostram que o anticorpo permite que a quimioterapia funcione por mais tempo e com maior eficácia. A quimioterapia e as imunoterapias tendem a eliminar células que se multiplicam rapidamente, mas algumas células cancerígenas se tornam menos sensíveis aos medicamentos.

O número de pacientes que podem ser operados após o tratamento também cresceu. Em geral, apenas cerca de 6% das pessoas com câncer de pâncreas avançado se beneficiam da cirurgia após a quimioterapia. Esse número chega a 23% no total e pode atingir 40% entre aqueles que apresentam o receptor da netrina‑1.

A próxima etapa da pesquisa, que deve durar alguns anos, é comparar os resultados da quimioterapia isolada com os da quimioterapia combinada, incluindo o novo anticorpo. Além do câncer de pâncreas, o tratamento também poderá ser aplicado a outros tipos de tumor, como os de cabeça e pescoço, combinando o anticorpo com imunoterapia.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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