UE e Rússia deixam diferenças e se unem pelo clima e comércio
A União Europeia (UE) e a Rússia deixaram nesta quarta-feira de lado as diferenças e uniram esforços para avançar em algumas das prioridades comuns, como à luta contra a mudança climática e os incentivos ao crescimento do comércio. Realizada em Estocolmo, a 24ª cúpula UE-Rússia foi marcada pelo pragmatismo das duas partes decididas a obter resultados tangíveis, apesar de vários assuntos, como a ameaça de uma nova crise do gás e a situação dos direitos humanos na Rússia, ainda continuarem abalando as relações.
O presidente russo, Dmitri Medvedev, classificou o diálogo de "construtivo" e afirmou que desta vez não se permitiu "nenhum tipo de emoção atrapalhar a cooperação". Para surpresa geral, a poucas semanas da cúpula sobre o clima de Copenhague, a Rússia respondeu em Estocolmo aos apelos de Bruxelas e se comprometeu a ser mais ambiciosa na luta contra a mudança climática.
Segundo explicou o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, Medvedev aceitou nesta quarta-feira cortar as emissões de dióxido de carbono do país em até 25% com relação aos níveis de 1990. Bruxelas chegava à cúpula com a intenção de dar um empurrão às negociações internacionais, por isso que Barroso considerou a mensagem de Moscou "muito promissora", com possibilidade de conseguir um acordo que permita a temperatura não aumentar acima de dois graus centígrados.
Além disso, Medvedev afirmou que, da mesma forma que a UE, a Rússia tem o "objetivo de convencer os colegas de outros países a serem mais sérios", em referência às ofertas de cortes de emissões de outras potências, que Bruxelas considera insuficientes. Para o primeiro-ministro sueco e presidente rotativo da UE, Fredrik Reinfeldt, a proposta russa é "importante para o acordo em Copenhague" e "importante por si só", pois se trata de um dos países que mais emitem dióxido de carbono à atmosfera.
A unidade com relação à mudança climática ocorreu também no âmbito comercial, no qual as duas partes apostaram por uma entrada rápida da Rússia na Organização Mundial do Comércio (OMC). A Europa respaldou mais uma vez o processo de adesão russo, enquanto Medvedev tratou de tranqüilizar os líderes comunitários sobre a união aduaneira da Rússia com Belarus e Cazaquistão, que entrará em vigor em janeiro.
O pacto preocupava a Europa pelos atrasos que poderia gerar na integração da Rússia à OMC, mas hoje o presidente russo deixou claro que sua prioridade é o ingresso e garantiu que não aumentará tarifas para os produtos europeus. Para europeus e russos, a cúpula de hoje representou também um passo adiante nas negociações para renovar o acordo pelo qual são regidas as relações, de 1997, e alinhavou as bases de um grande pacto para o desenvolvimento econômico.
Essa ampla iniciativa, proposta por Barroso após escutar os discursos modernizadores de Medvedev e aceito pelo presidente russo, incluiria desde a troca de tecnologias e intercâmbios estudantis até facilidades para as empresas, passando pela eliminação dos vistos para as viagens de curta duração. Rússia e a UE, que cooperam atualmente em missões internacionais como a que combate a pirataria no Índico, concordaram também com um marco formal para coordenar os projetos, destacou o chefe da diplomacia comunitária, Javier Solana.
Na maior parte do tempo, a cúpula passou praticamente pisando em ovos sobre as principais tensões entre as duas partes. Reinfeldt, entretanto, ressaltou em entrevista coletiva que a situação dos direitos humanos na Rússia é uma "fonte de preocupação crescente". O presidente russo respondeu simplesmente que Moscou e a UE mantêm "diferenças" neste campo e defendeu que é possível "acertar posturas".
O âmbito energético, outro ponto de conflito, passou praticamente despercebido, depois que na segunda-feira foi acordado a criação de um sistema de alarme para tentar prevenir uma nova crise do gás como a que deixou vários países europeus sem abastecimento em janeiro.