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Ciência

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Seca na Europa: da navegação à água potável, os impactos da crise

7 ago 2026 - 16h26
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Da indústria ao abastecimento doméstico, o nível historicamente baixo de rios como o Reno e o Danúbio revela como a crise climática já afeta o cotidiano de milhões de europeus.Após a forte onda de calor em junho, que deixou milhares de mortos, e os graves incêndios florestais no sul da França, o verão europeu de 2026 continua marcado por crises climáticas. Em toda a Europa, há escassez de água nos rios. O Reno, o Danúbio e o Pó registram níveis historicamente baixos. Uma situação dramática, já que eles são fundamentais para o transporte de mercadorias, a agricultura e o abastecimento de água.

Ao longo do Danúbio, navios de carga e de cruzeiro não conseguem mais trafegar em alguns trechos. Na Hungria, na Romênia e na Croácia, navios e carros que haviam afundado reapareceram no leito seco do rio.

De acordo com o Sistema de Informações sobre Água Baixa (Niwis), apenas 2,4% dos pontos de medição do Danúbio não registram águas baixas.

O nível do Reno em Kaub, no oeste da Alemanha, um gargalo fundamental para o tráfego de navios, chegou a um nível mínimo recorde de 24 centímetros - nos próximos dias, pode cair para 17 centímetros. Em muitos pontos do leito do Reno, como em Colônia e Düsseldorf, é possível observar pessoas caminhando onde normalmente há forte correnteza.

O aquecimento global, por meio da queima de carvão, petróleo e gás, agrava ainda mais a crise hídrica, que afeta também a natureza. E surge a pergunta: o que acontecerá daqui para frente?

As consequências para a natureza

Na Espanha, na França, na Itália, naAlemanha e na Europa Oriental, a seca prolongada custará aos agricultores milhões de hectares. Campos ressecados, safras perdidas e leitos de rios secos estão entre as consequências mais visíveis da estiagem.

E não é apenas a economia que sofre, mas ecossistemas inteiros. O motivo: a água que ainda resta nos rios se aquece, retém menos oxigênio e, desta forma, pode causar a morte de peixes, explica Jeanette Völker, pesquisadora do Instituto Federal do Meio Ambiente (UBA).

"Justamente no Reno, é possível observar como os bancos de cascalho estão ficando secos. Esses são habitats para moluscos e invertebrados, que, por sua vez, servem de alimento para os peixes. Esse processo representa um impacto enorme. Os moluscos não conseguem se deslocar tão rapidamente e acabam morrendo", afirma

A seca e a forte radiação solar, aliadas aos altos níveis de nutrientes provenientes de fertilizantes agrícolas, criam condições ideais para a proliferação em massa de algas, segundo Völker.

Isso já ficou evidente em 2022 no rio Oder, no leste da Alemanha. Com o calor, os baixos níveis de água e a influência da água salgada, uma alga tóxica e não nativa se proliferou na região, com consequências dramáticas: trechos inteiros do rio que marca a fronteira entre a Alemanha e a Polônia ficaram repletos de peixes mortos (cerca de 1.000 toneladas de peixes morreram).

No Reno, porém, ainda há oxigênio suficiente no momento, de modo que um desastre semelhante não está previsto por enquanto.

Aumento dos custos para tratar a água

O Reno e o Danúbio são alimentados por inúmeros afluentes. As extensas praias de areia vistas ao longo do Reno mostram o quanto o nível da água caiu em muitos desses afluentes, fundamentais para o abastecimento de água potável e cujas margens costumam estar cobertas por água e vegetação.

"Dependemos dessa água dos rios. Grande parte da nossa água potável é chamada de filtrado de margem", explica Hagen Koch, pesquisador especializado em resiliência e adaptação climática do Instituto de Potsdam para Pesquisa sobre os Efeitos Climáticos.

Filtrado de margem (bank filtration, em inglês) é um processo natural no qual os juncos e as camadas do solo filtram a água naturalmente antes de ela ser captada para abastecimento.

"Isso significa que, em locais a uma certa distância do rio ou dos lagos, existem poços de água potável. É lá que é bombeada a água que fluiu pelo solo até aquele local ao longo de muitos meses", explica Koch.

Ao mesmo tempo, segundo Völker, a estiagem faz com que as concentrações de poluentes aumentem, já que o despejo de esgoto, proveniente de estações de tratamento ou da indústria, não se altera.

"Quando o ecossistema é prejudicado, ou seja, quando se prejudica animais e plantas que contribuem para a purificação da água, isso acarreta custos adicionais consideráveis. Para o abastecimento de água de milhões de pessoas, há custos extras de tratamento", afirma Koch.

As mudanças climáticas e os ecossistemas danificados aumentam os custos do tratamento da água potável em até 30%, estimam organizações do setor.

Até 2035, podem ser necessários investimentos adicionais de 3 bilhões a 14 bilhões de euros nessa área, o que inclui, além de custos mais elevados para o tratamento da água, também tubulações mais profundas e reservatórios de água com melhor isolamento. Dessa forma, a água permanece a temperaturas baixas e constantes, o que reduz o crescimento de microrganismos.

Mas há exceções, a exemplo de setores como a mineração e a agricultura, que, em alguns estados, obtêm água sem pagar taxas.

Em muitas cidades alemãs, as autoridades restringiram fortemente a captação de água de riachos e rios para fins particulares. A cidade de Colônia já havia proibido, em junho, devido à seca extrema, a captação de água de todos os 24 afluentes do Reno no território municipal: as infrações podem ser punidas com multas de até 50 mil euros.

Navios com um quinto da carga

O baixo nível das águas nos rios alemães já está prejudicando consideravelmente a economia. Alguns navios navegam atualmente com apenas um quinto de sua carga habitual, o que atrasa a produção e aumenta os preços.

Na Alemanha, os setores mais afetados são a siderurgia, a indústria química e do petróleo. E o baixo nível das águas também representa um risco cada vez maior para o abastecimento de energia.

Na semana passada, o primeiro-ministro húngaro, Peter Magyar, pediu aos seus compatriotas e às empresas que economizassem energia. O país corre o risco de enfrentar uma crise energética sem precedentes devido a desligamentos na usina nuclear de Paks, em consequência do baixo nível do rio Danúbio, pois não há como refrigerar os reatores com segurança.

Abastecimento de energia em risco

Em meio à crise, políticos tentam reagir com medidas de curto prazo. Na Romênia, o Exército detonou uma rocha em um braço do Danúbio para garantir o abastecimento de água para o resfriamento da usina nuclear de Cernavoda, que corria o risco de ser desativada.

O ministro dos Transportes da Alemanha convidou representantes da indústria, dos portos e da navegação interna para uma conferência em Bonn sobre o baixo nível das águas, com foco na busca de soluções de curto e longo prazos. Também será discutido o aprofundamento do leito do rio Reno em pontos críticos - a navegação, porém, deve ser mantida, apesar do baixo nível das águas.

Ambientalistas, por outro lado, convocaram protestos contra uma nova dragagem do Reno, argumentando que "essas são medidas de curto prazo que trazem poucos benefícios a longo prazo".

Muitos questionam se isso não passa de "acionismo", ou seja, uma ação imediata sem grandes planejamentos, que, às vezes, traz poucos resultados ou, a longo prazo, pode até ter o efeito contrário. Além disso, estaria sendo dada pouca atenção à questão climática.

Críticos alertam que canais de navegação mais profundos aceleram o escoamento da água, reduzem o nível do lençol freático e fazem com que as várzeas sequem mais rapidamente. Devido a isso, eles defendem a adoção de embarcações otimizadas para as atuais condições, em níveis extremamente baixos, bem como a transferência de cargas para o transporte ferroviário.

Koch também defende embarcações com calado menor, mas ressalta os altos investimentos e os longos prazos de implementação.

Para Völker, não há como evitar, ao menos parcialmente, o ajustamento artificial dos rios, a fim de armazenar mais água. Além disso, as áreas marginais dos grandes rios deveriam receber maior atenção.

Especialmente ao redor dos inúmeros afluentes, é importante preservar zonas úmidas, umedecer novamente pântanos e renaturalizar rios para melhorar o equilíbrio hídrico. Isso também poderia beneficiar o nível da água do Reno em períodos de seca.

Diante da evolução atual, Koch recomenda ainda que, nos casos em que for ecologicamente viável, se avalie a construção de reservatórios de água e barragens. E, por fim, a proteção climática continua sendo fundamental: sem ela, muitos investimentos podem virar, literalmente, apenas uma gota no oceano.

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