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Por que animais 'sem carisma' correm mais risco de extinção

Visão negativa do público sobre alguns animais mina interesse no financiamento em pesquisas para conservação das espécies.

31 mar 2026 - 10h56
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Uma cobra nadando na água
Uma cobra nadando na água
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ao abrir uma caixa de madeira com um filhote de cascavel, quando tinha entre 10 e 12 anos, Breno Almeida não imaginava que ali também se abria seu próprio destino.

Ele era uma criança em Goiás com uma curiosa fascinação por serpentes. E cresceu escutando que esses animais eram perigosos e que deveria ter medo — o que só aumentava sua vontade de saber mais sobre eles.

Ao ir para o zoológico fazer a entrega da cascavel resgatada pelo pai, Breno se lembra de ter pensado: "Eu quero ter vários bichos desses para cuidar, e o povo não matar, fazer uma espécie de zoológico de cobras".

Hoje, ele é biólogo e diretor do Centro Amazônico de Herpetologia, no Pará, que tem como uma de suas propostas mudar a visão negativa que as pessoas têm sobre determinados animais, como as serpentes — algo que tende a prejudicar sua conservação.

O centro funciona como zoológico e recebe diferentes animais machucados que não podem retornar para seu habitat, inclusive mamíferos e aves, mas o foco são as serpentes e anfíbios. O espaço é também um criadouro comercial para venda de veneno das serpentes.

Milena Almeida, bióloga responsável técnica pelo centro e esposa de Breno, conta que muitos visitantes chegam ao local com a visão de que todas as cobras são peçonhentas, o que traz sensação de repulsa pelos animais. Por isso, o local oferece visitas guiadas e interação sensorial com esses animais para quebrar estigmas em relação a eles.

Almeida explica que as serpentes fazem parte da chamada fauna não carismática, apelido dado aos animais que não costumam ter muita simpatia da população — e atraem pouco financiamento para pesquisas.

Espécies carismáticas não têm sua conservação garantida e sua perpetuação pode enfrentar diversos desafios, mas estudos mostram que animais que não detêm o apreço público tendem a receber menos recursos, além de serem menos pesquisados e um alvo mais comum da população.

Um estudo publicado em 2025 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas) mostra que a distribuição de financiamento da conservação de espécies não costuma se basear na ameaça de extinção, e sim em seu carisma e tamanho.

Os mais beneficiados são os mamíferos de grande porte.

De US$ 1,9 bilhão voltado para medidas de conservação, US$ 1,6 bilhão vai para os animais vertebrados. Isso corresponde a 84% do total. Aos invertebrados, grupo que inclui, por exemplo, insetos, aracnídeos, moluscos, restam 6,6%.

Entre os vertebrados, de 70% a 85% dos recursos ficam restritos a pássaros e mamíferos. Os répteis, grupo ao qual pertencem as cobras, receberam 5,8% do total para os vertebrados.

Breno e Milena Almeida durante extração e processamento do veneno de jararaca, da espécie Bothrops atrox
Breno e Milena Almeida durante extração e processamento do veneno de jararaca, da espécie Bothrops atrox
Foto: Juana Carvalho / BBC News Brasil

A distribuição de pesquisas científicas entre grupos de animais também apresenta viés, mostra um artigo publicado na revista Nature em 2017. Conhecer as espécies é parte fundamental para construção de medidas de conservação.

O estudo dividiu 626 milhões de ocorrências no Sistema Global de Informação sobre Biodiversidade (GBIF), portal de dados abertos sobre biodiversidade, em 24 grupos diferentes de animais.

O trabalho concluiu que mais da metade das ocorrências eram sobre aves, embora elas representem apenas 1% das espécies catalogadas no portal. Os aracnídeos têm três vezes mais espécies, mas representaram apenas 2,17 milhões de ocorrências, uma das menores dentro do GBIF.

Os répteis, por sua vez, apareceram em 5 milhões de ocorrências, enquanto os anfíbios, em 3,9 milhões. Os antozoários, que agrupam corais e anêmonas, foi o grupo que menos apareceu, com 1 milhão de ocorrências.

Animais não carismáticos também têm maiores chances de sofrerem atropelamentos.

Um estudo brasileiro publicado em 2014 fez um experimento com aranhas, serpentes, pintos e, no grupo de controle, folhas. Foram utilizados modelos de plásticos realistas dos animais, que foram colocados em áreas com menor tráfego de três rodovias diferentes.

As taxas de atropelamento das aranhas e das serpentes foram maiores até do que das folhas. Isso indica, segundo o estudo, que há certa intencionalidade no atropelamento dos dois animais. Os pintos foram os únicos resgatados por humanos.

Anfíbios à beira de extinção

Quando se fala em anfíbios, a visão negativa sobre eles resulta em maus-tratos e uso desses animais em rituais e superstições, conforme estudo realizado pelo professor Luis Felipe de Toledo Ramos Pereira, coordenador do Laboratório de História Natural de Anfíbios Brasileiros da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

"Que nem o caldeirão da bruxa, o que você vai pôr no caldeirão da bruxa? Não é asa de morcego, pata de barata, perna de sapo?", pondera.

A sensação de parte da sociedade em relação aos anfíbios é de nojo e medo.

O estudo de Toledo, publicado em 2024, encontrou sapos-cururu mutilados e com a boca colada ou costurada. As práticas não estavam ligadas a nenhuma religião em particular.

De acordo com trabalho do Pnas, os anfíbios receberam 2,5% do financiamento recente de conservação entre os vertebrados. Isso representa uma queda de 4% em comparação com a década de 90.

Mas 40% de suas espécies estão em risco de extinção, como mostra um levantamento publicado na revista Nature de 2023 — o que os coloca como a classe de vertebrados mais ameaçada.

Perda de habitat, doenças e mudanças climáticas estão entre as principais causas para o desaparecimento dos anfíbios.

Cerca de 40% das espécies de anfíbios estão em risco de extinção; apesar disso, há pouquíssimo financiamento para pesquisas sobre esse animais
Cerca de 40% das espécies de anfíbios estão em risco de extinção; apesar disso, há pouquíssimo financiamento para pesquisas sobre esse animais
Foto: Dan Kitwood/Getty Images / BBC News Brasil

Toledo conta que alguns fatores os tornam mais vulneráveis a pressões antrópicas (decorrente das interferências causadas pela ação humana sobre o meio ambiente). Por exemplo, anfíbios passam a vida na água e na terra.

"Com qualquer impacto no ambiente terrestre ou no aquático, você está afetando a mesma espécie", diz.

A permeabilidade da pele também os deixa mais expostos à poluição.

Com o intuito de aumentar a valorização e a visibilidade desses animais, Toledo articulou a tramitação de dois Projeto de Lei (PL) na Câmara dos Deputados sob autoria do deputado Nilto Tatto (PT-SP).

O PL 2585/2024 institui o dia 7 de maio como o Dia Nacional dos Anfíbios e, desde maio de 2025, está na Comissão da Cultura. Já o PL 5977/2023 põe o sapo-cururu como o Anfíbio Nacional do Brasil e aguarda designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) desde de julho de 2024.

O professor avalia que os PLs estão parados porque, apesar da simplicidade das matérias, questões ambientais no Brasil não são prioridade no Congresso Nacional.

Para Toledo, um dos pontos que atrasa a conservação dos animais não carismáticos é o menor financiamento privado. Ele pondera que, para investimento público, o que importa é o rigor técnico do projeto, mas na iniciativa privada o carisma da fauna têm maior peso.

Apesar da conservação dos animais carismáticos também ser importante, os recursos destinados são desproporcionais.

"Está para nascer um corajoso para financiar um projeto de anfíbios com bastante dinheiro que nem eles fazem com onça", acrescenta.

Desigualdade entre os mamíferos

Entre mamíferos, os de grande porte representam um terço das espécies da classe em algum nível de ameaça de extinção, mas recebem 86% do financiamento.

Os morcegos, junto com roedores e ouriços, são o lado oposto dessa disparidade.

A pesquisadora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) Elizabete Lourenço, coordenadora adjunta do projeto Morcegos na Praça, diz que o desconhecimento sobre os morcegos, somado aos hábitos noturnos do animal, geram um desconforto nas pessoas.

Também há a associação de morcegos a doenças, o que já acontecia em razão da raiva — da qual o morcego pode ser o transmissor —, mas cresceu com a covid-19.

A visão negativa sobre esses animais propicia que eles sejam mortos ao causar um simples incômodo, como barulho nos telhados das casas.

Para reduzir o estigma, o projeto Morcegos na Praça vai até diferentes praças e salas de aula do país para explicar que os morcegos ajudam na dispersão de sementes, no controle de pragas e que podem, sim, ser "fofinhos".

As pessoas também têm a chance de tocar em morcegos empalhados levados pelos pesquisadores.

O projeto, que começou em 2013, já foi para Ceará, São Paulo e Goiás, e criou até mesmo um mascote, chamado Arturitus — baseado na espécie real Artibeus lituratus, comum em parte do Rio de Janeiro — para gerar simpatia pelo animal.

Lourenço conta que a mudança do pensamento das pessoas sobre os animais com o projeto é perceptível. Nem todos passam a ver os morcegos como bonitos, mas ao menos passam a entender a importância do animal.

"Realmente, as pessoas têm medo, e o medo não é algo racional, não é um medo baseado em fatos. É um medo associado a essa percepção ambiental cultural de animais que são desconhecidos", analisa.

Usar ou não outras espécies carismáticas para proteger as demais?

Breno e Milena Almeida com ovos de Jacaré açu, espécie Melanosuchus niger
Breno e Milena Almeida com ovos de Jacaré açu, espécie Melanosuchus niger
Foto: Arquivo Pessoal / BBC News Brasil

Uma das estratégias usadas para reduzir o estigma de certas espécies é se valer da popularidade e da atração do público da fauna carismática para preservar o habitat do restante dos animais.

Luis Felipe de Toledo Ramos Pereira, entretanto, rejeita a estratégia. O professor argumenta que as causas que ameaçam as espécies tendem a não ser as mesmas e precisam de diferentes remédios.

"Se você não fizer nada contra o aquecimento global, você não está ajudando os anfíbios", exemplifica.

Milena Almeida, do Centro Amazônico de Herpetologia, concorda que focar em animais carismáticos para proteger os demais tem limitações. Mas pondera que há uma diferença entre o ideal e o possível.

Muitas pessoas vão ao centro, cuja parte significativa da receita vem de ingressos, com a intenção de conhecer os mamíferos e as aves, mas se deparam com os répteis.

A reação inicial dos visitantes com esses animais tende a ser de medo e rejeição, mas ela conta que após as explicações e a interação sensorial, que permite aos visitantes tocarem no animal, as pessoas acabam mudando de visão.

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