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Mineração urbana: edifícios antigos viram nova matéria-prima

14 jun 2026 - 06h16
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De portas a ladrilhos, materiais recuperados de demolições ganham nova vida, impulsionando a economia circular e desafiando o setor da construção a reduzir impacto ambiental e desperdício.Vasculhando uma caixa de ladrilhos de piso recuperados, Micheal Ghyoot retira um modelo com um padrão art nouveau em azul, cinza e branco.

Empresa na Bélgica classifica, limpa e revende materiais de edifícios antigos
Empresa na Bélgica classifica, limpa e revende materiais de edifícios antigos
Foto: DW / Deutsche Welle

"É fácil gostar destes, porque têm esse padrão floral", diz Ghyoot, pesquisador especializado em reutilização arquitetônica, enquanto segura o ladrilho quadrado de cimento que era comum em muitas casas construídas na Bélgica no início do século 20. "Nas décadas de 1930 e 1940, começaram a produzir padrões mais modernos. Também são superinteressantes".

A caixa é apenas uma de dezenas que contêm ladrilhos de estilos, tamanhos e cores variados, todos à espera de serem limpos e classificados para revenda na Rotor DC, uma cooperativa sediada em Bruxelas especializada em materiais de construção recuperados.

Em um armazém próximo, portas altas de madeira maciça, com puxadores originais, estão alinhadas ao longo da parede, ao lado de várias grandes janelas com tonalidade dourada resgatadas de um prédio de escritórios de meados do século 20. No gramado externo, um fotógrafo organiza pias de banheiro sobre a grama molhada para registrá-las para a loja online.

Desde a abertura da loja em um antigo edifício de escritórios no final de 2016, a Rotor DC vem promovendo o conceito de mineração urbana em Bruxelas. Caçadores de materiais procuram edifícios destinados à demolição, e especialistas resgatam cuidadosamente tudo o que pode ser reutilizado em outro lugar — de luminárias de vidro Murano a pisos de carvalho maciço e alvenaria decorativa feita à mão.

Não é a única organização desse tipo na Bélgica, e lojas semelhantes existem em toda a Europa, América do Norte e outras regiões. Mas o estúdio de design Rotor também oferece orientação para projetos que buscam usar componentes reaproveitados e publica pesquisas sobre sustentabilidade, circularidade e economia de materiais.

Impacto ambiental

A reutilização de materiais de construção não é um conceito novo. Construtores medievais, por exemplo, usavam partes de estruturas da antiga Roma para economizar tempo e dinheiro, e alguns desses edifícios ainda existem hoje — especialmente na capital italiana. No entanto, a industrialização e os métodos modernos de fabricação, sobretudo no século 20, deslocaram o foco para longe da reutilização.

"Todo o sistema de construção — aquisição, responsabilidade, regulamentação, cronograma, seguros, normas — foi estruturado em torno de materiais novos", conta Areti Markopoulou, diretora acadêmica do Instituto de Arquitetura Avançada da Catalunha. "A reutilização direta de componentes em sua forma original — janelas, portas, vigas, elementos de fachada, instalações sanitárias, pisos — ainda é menos comum do que a reciclagem de menor qualidade [o produto resultante tem qualidade inferior ao material original] ou o reaproveitamento degradado [quando um material é reutilizado, mas com perda de qualidade, valor ou funcionalidade em relação ao original.]."

Reutilizar componentes de construção pode parecer simples, mas, segundo Markopoulou, envolve diversos desafios: desmontagem cuidadosa, armazenamento, certificação e a adequação entre oferta e novos projetos.

"Sabemos demolir edifícios de forma muito eficiente, mas ainda estamos aprendendo a desmontá-los de maneira inteligente", explica.

Como resultado, a maior parte desses resíduos acaba sendo utilizada como preenchimento em novos projetos ou como cobertura de solo — isso quando são reutilizados. Hoje, os resíduos de construção e demolição representam mais de um terço de todo o lixo da União Europeia (UE).

Esse foco em materiais novos tem um custo ambiental significativo: apenas na UE, o setor da construção consome cerca de 50% de todos os materiais extraídos, e as emissões de gases de efeito estufa associadas são estimadas entre 5% e 12% das emissões totais do bloco.

"A reutilização é importante não apenas porque reduz os resíduos, mas porque pode evitar totalmente as emissões associadas à produção de novos materiais", afirmou Markopoulou.

Um relatório de 2019 da organização britânica Ellen MacArthur Foundation apontou que a reutilização de materiais como aço, alumínio, concreto e plástico reduziria a demanda por novos produtos. Essa mudança para uma economia circular poderia ajudar o setor global da construção a reduzir as emissões em até 40% até 2050.

Reutilização avança, mas ainda é de nicho

Ghyoot afirma que convencer empreiteiros e arquitetos a usar materiais de construção de segunda mão não é fácil. Qualquer mudança leva tempo e pode aumentar os custos, e nem sempre há fornecimento constante de produtos idênticos. Além disso, materiais provenientes de edifícios antigos podem estar degradados, conter elementos tóxicos ou ser difíceis de desmontar.

"É preciso repensar como se projeta, como se organiza o fluxo de trabalho e como se trabalha com os construtores", diz Ghyoot. "Fazemos o possível para facilitar isso. Mas ainda continua sendo uma prática um pouco de nicho na indústria da construção".

Nos primeiros anos, a Rotor DC fazia todo o trabalho de recuperação e preparação dos materiais. Isso mudou quando a cooperativa criou um sistema de recompra de elementos de construção recuperados — de particulares e, principalmente, de empreiteiros gerais e equipes de demolição.

"O que descobrimos é que não se tratava de falta de habilidade da parte deles — geralmente sabem fazer isso corretamente", garante Ghyoot. "Mas, quando se introduz algum retorno financeiro, eles passam a estar dispostos a investir o esforço, porque há um benefício para eles".

IA e ferramentas digitais podem ajudar

Markopoulou e sua equipe também estudam como ferramentas digitais e inteligência artificial (IA) podem ajudar a aumentar a recuperação de componentes valiosos reutilizáveis, como madeira maciça, pedra, aço e tijolos, a partir de projetos de demolição.

"As cidades são enormes reservatórios de materiais", explica. "A ideia é usar o Google Street View, imagens aéreas, escaneamentos, dados cadastrais e licenças para estimar quais materiais e componentes estão presentes nos edifícios, quando poderão ficar disponíveis e em que quantidades."

A pesquisa já foi testada em cidades como Barcelona, Nova Délhi e Helsinque. Houve experimentos também em Singapura.

"Ainda não conseguimos prever cada janela ou viga reutilizável, mas já conseguimos estimar estoques urbanos de materiais com precisão suficiente para planejar a reutilização em escala urbana", ressalta. "A IA não pode dizer tudo sobre o interior de um edifício, mas pode melhorar radicalmente nossa capacidade de prever esses recursos antes mesmo de a demolição ou renovação começar."

Para Markopoulou, esses incentivos e ferramentas digitais precisarão ser acompanhados por mudanças políticas. Certificados energéticos obrigatórios, por exemplo, ajudam a direcionar o setor para práticas mais sustentáveis. Passaportes de materiais e edifícios — que listam informações detalhadas sobre todos os componentes de uma estrutura — podem facilitar o planejamento da reutilização futura.

"É uma mudança de mentalidade, porque os edifícios sempre foram vistos como permanentes", afirma. "Precisamos projetá-los levando em consideração para onde os materiais irão após o fim da sua vida útil", conclui.

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