Megafábrica ameaça biodiversidade e povo indígena no México
Projeto suíço quer criar polo de produção de fertilizantes, com financiamento de banco público alemão. Embaixada da Alemanha foi alvo de pichações, com excrementos e suástica.Na noite de 4 de junho, o muro branco que cerca a Embaixada da Alemanha na capital do México amanheceu coberto por pichações de protesto, excrementos e uma suástica. Uma imagem perturbadora, condenada pela própria embaixada em suas redes sociais, que classificou o ato como inadmissível.
A causa da indignação estava a quase 1,5 mil quilômetros de distância, em uma baía no norte do país que, até pouco tempo atrás, era conhecida principalmente pelo voo dos patos e pela tranquilidade com que os golfinhos ensinavam seus filhotes a caçar: a Baía Ohuira, no porto sinaloense de Topolobampo.
Ali, a empresa suíça Proman, por meio da subsidiária mexicana Gas y Petroquímica de Occidente (GPO), constrói uma das maiores fábricas de amônia do mundo, com capacidade para produzir 2,2 mil toneladas métricas por dia, essencialmente destinadas à fabricação de fertilizantes químicos.
O projeto conta com o apoio financeiro do banco público alemão KfW IPEX-Bank, parte de um consórcio que já aportou cerca de 860 milhões de dólares (R$ 4,3 trilhões).
O que parecia ser um projeto agroindustrial, cujos principais beneficiários seriam agricultores mexicanos, se transformou nas últimas semanas em uma das maiores crises socioambientais do governo da presidente Claudia Sheinbaum.
Milhares de pessoas foram às ruas, há um bloqueio permanente nas instalações da empresa, mais de 135 mil assinaturas contrárias ao projeto foram reunidas e nove relatorias especiais da Organização das Nações Unidas(ONU) enviaram cartas de alerta aos governos do México, da Alemanha e da Suíça.
Na noite em que o muro foi pichado com a suástica, cerca de cem pessoas — comunidades mayo-yoreme, coletivos ambientais e jovens — se reuniram em frente à embaixada alemã, gritando "Topo não está à venda, o mar se defende!" e "Aqui não!".
A manifestação foi convocada deliberadamente durante a visita ao México do chanceler alemão, Johann Wadephul, para aumentar a pressão diplomática.
Território sagrado para indígenas
Felipe Montaño Valenzuela é o governador tradicional de Ohuira, máxima autoridade da comunidade mayo-yoreme na região. Segundo seus cálculos, cerca de 6 mil indígenas de comunidades próximas seriam afetados pela megaplanta, instalada em um sítio Ramsar e em território indígena sagrado.
Um sítio Ramsar é uma área úmida cuja importância ecológica é reconhecida internacionalmente e protegida por acordos — neste caso, assinado pelo México. Segundo Montaño Valenzuela, a construção de uma planta industrial de tamanho porte nesta área representa a primeira de uma série de ilegalidades que remontam ao início do projeto, em 2014.
A segunda irregularidade apontada está no processo de consulta às populações indígenas. "Primeiro não houve consulta prévia. Depois, quando a Suprema Corte obrigou, fizeram uma consulta fraudulenta em 2024", relata.
"Consultaram não só quem vive perto, mas comunidades a até 45 quilômetros de distância. Distribuíram comida, dinheiro, compraram consciências e se aproveitaram de pessoas desinformadas que nem sequer vivem na baía." O resultado, segundo ele, foi previsível: as quatro comunidades mais afetadas votaram contra, enquanto oito mais distantes votaram a favor.
O direito à consulta prévia, livre e informada é consagrado na lei internacional para projetos que impactam povos indígenas, conforme previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo México. Montaño vai além: "Já não podemos mais nos aproximar da margem, que era nosso local tradicional de pesca de camarão e caranguejo".
Ele descreve como escavadeiras transformaram irreversivelmente a paisagem: "Já foram aterrados 28 hectares de áreas úmidas; manguezais foram derrubados. As aves que ali se alimentavam e nidificavam agora aparecem nas comunidades ou foram embora."
No dia 7 de junho, milhares de pessoas marcharam 24 quilômetros de Los Mochis até Topolobampo para tentar fechar as instalações. Para o líder, não há retorno: "Os povos originários decidiram que não vamos dar um passo atrás. Mesmo que alguém perca a vida, vamos continuar lutando pelo território e pelos nossos mares sagrados."
Destruição do "berçário" dos golfinhos
Diana Escobedo estuda a Baía Ohuira há 30 anos. Pesquisadora do Instituto Politécnico Nacional, conhece profundamente o ecossistema. Há uma década ela foi contratada pela própria GPO para elaborar um estudo ambiental. Suas conclusões a tornaram uma das vozes mais críticas do projeto.
"É ilegal porque está dentro de um sítio Ramsar e da zona marítimo-terrestre federal", afirma. "Pelas leis mexicanas, deveria haver uma autorização especial. Não há."
O principal problema técnico, explica, é a água. "Serão sugados 2 mil metros cúbicos de água salgada por hora, sem sistemas de exclusão, em uma área com alta concentração de larvas de peixes, camarões, caranguejos e ostras." Para milhares de famílias que dependem da pesca, o impacto seria devastador. Ela diz que, ao divulgar esses dados, recebeu ameaças, assim como outros indígenas e ativistas.
A lagoa é rasa — cerca de dois metros de profundidade —, e a água permanece por até 30 dias. "Qualquer contaminante permanece por muito tempo", explica. Após o uso industrial, a água será devolvida ao mar mais quente e mais salina: "O aumento de temperatura e salinidade é algo ao qual os organismos não conseguem se adaptar."
Há ainda os golfinhos, cuja população vive há mais de 20 anos na baía. "Eles perderão o habitat devido às mudanças no ecossistema e ao aumento do ruído e do tráfego de embarcações."
Segundo Escobedo, o risco mais grave é para a população humana. Um estudo de risco da própria empresa aponta oito cenários de alto perigo, incluindo vazamentos por corrosão, acidentes ou sabotagem, todos com potencial de gerar explosões e nuvens tóxicas letais.
A topografia local agrava o risco: duas colinas próximas poderiam concentrar gases tóxicos em áreas habitadas. E até hoje não há plano de emergência apresentado pelas autoridades. "Como é possível que a KfW tenha financiado um projeto com esse nível de risco?", questiona.
GPO nega irregularidades
A GPO afirma que a obra está 88% concluída e sustenta que o projeto possui "todas as autorizações socioambientais nacionais e internacionais", além de 40 anos de experiência global.
Quanto às torres industriais que viralizaram nas redes sociais, diz que são equipamentos para captura de CO₂, dentro de padrões ambientais internacionais.
O banco KfW declarou à DW, por e-mail, que todos os processos judiciais foram decididos a favor da empresa. Para Montaño, isso não significa justiça: "A legalidade não está do lado dos povos indígenas; é uma legalidade colonial."
As críticas ao processo de consulta não vêm apenas das comunidades. Em setembro de 2025, nove relatorias da ONU enviaram comunicações formais a governos e instituições envolvidas, alertando sobre violações e intimidação de ativistas.
O KfW rejeitou essas conclusões, afirmando que não houve violações graves. Ainda assim, encomendou uma auditoria independente preventiva sobre a implementação da consulta.
Governo sob pressão
A embaixada alemã declarou que empresas alemãs devem cumprir normas ambientais e sociais, mas que a fiscalização cabe às autoridades mexicanas. Já especialistas, como representantes da Fundação Rosa Luxemburgo, ligada ao partido alemão A Esquerda, afirmam que os riscos eram conhecidos antes do financiamento.
Para o analista Ignacio Martínez Cortés, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), o governo enfrenta um dilema. O México importa fertilizantes, e a planta reduziria custos e fortaleceria a agricultura, sobretudo em Sinaloa.
Por outro lado, o impacto social e ambiental é alto, atingindo bases políticas do governo. Há ainda suspeitas de corrupção ligadas a autorizações concedidas no passado.
Cancelamentos de projetos anteriores por razões ambientais mostram precedentes possíveis. No entanto, um eventual cancelamento poderia levar a uma disputa internacional bilionária com base em tratados de proteção a investimentos.
Ainda assim, há alternativas. Uma delas seria contestar juridicamente o projeto por possíveis irregularidades em sua origem. Outra, sugerida por especialistas, seria relocalizar a planta. Segundo Escobedo, a empresa rejeitou essa possibilidade por razões de custo e infraestrutura.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.