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Ciência

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Estudo com corais liga El Niño extremo ao aquecimento global

3 out 2026 - 19h20
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Resumo
Um estudo da Universidade de Michigan analisou a composição química de corais nas ilhas Galápagos para reconstruir o clima dos últimos mil anos e concluiu que os episódios de El Niño tornaram-se significativamente mais intensos após a era industrial. A pesquisa preenche a falta de dados históricos e reforça projeções de que o aquecimento global agrava o fenômeno. No entanto, cientistas apontam cautela devido a incertezas locais e ao risco de branqueamento e morte dos próprios recifes de corais.

Registros preservados por séculos em recifes das Galápagos sugere que episódios climáticos de grande intensidade ficaram mais frequentes após o início da era industrial,Um dos mais fortes episódios de El Niño já registrados pode estar em formação, segundo projeções de agências meteorológicas e centros de pesquisa. O fenômeno climático é natural e ocorre, em geral, a cada dois a sete anos, mas sua intensidade varia. Quando as temperaturas da superfície do mar no Pacífico leste superam em mais de 1,5°C a média histórica, o evento é classificado como forte.

Já em julho, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) registrava anomalias superiores a 3°C no Pacífico central e oriental. O Serviço Meteorológico Alemão avaliou que havia alta probabilidade de ocorrência de um dos episódios mais intensos desde o início das medições.

Ainda não há consenso científico sobre como o aquecimento global influencia a frequência dos eventos mais extremos de El Niño. Segundo o Instituto Max Planck de Meteorologia, essa continua sendo uma área de pesquisa em desenvolvimento.

Corais ajudam a preencher lacuna histórica

Um dos principais desafios para compreender a evolução do fenômeno é a escassez de dados históricos confiáveis. Medições sistemáticas da temperatura da superfície dos oceanos por satélite existem apenas desde o início da década de 1980, período insuficiente para avaliar como o El Niño se comportava antes da industrialização e da queima massiva de combustíveis fósseis.

Para reduzir essa lacuna, a climatologista e paleoclimatologista Julia Cole, da Universidade de Michigan, e sua equipe analisaram corais vivos e fossilizados nas ilhas Galápagos, no leste do Pacífico, próximo ao Equador. Os resultados foram publicados na revista científica Science.

"Sabíamos que os últimos 40 ou 50 anos registraram episódios muito intensos de El Niño, mas era difícil determinar se isso fazia parte de um ciclo natural ou se estava relacionado ao aquecimento do planeta", afirma Cole. Segundo ela, os dados obtidos apontam fortemente para a segunda hipótese.

Registros naturais de mil anos

Os corais crescem entre um e dois centímetros por ano e formam estruturas semelhantes aos anéis de crescimento das árvores. Durante esse processo, incorporam elementos químicos que refletem as condições ambientais do período.

"Os corais registram as temperaturas do mar na composição química de seus esqueletos", explica Cole.

Entre os indicadores analisados está a proporção entre estrôncio e cálcio. Em águas mais frias, os corais incorporam mais estrôncio; em águas mais quentes, menos. A relação entre esses elementos permite reconstruir variações de temperatura ao longo do tempo.

Outro indicador utilizado foi a proporção entre diferentes isótopos de oxigênio. Em condições mais frias, o oxigênio-18 tende a ser incorporado em maior quantidade do que em períodos mais quentes.

Com base nesses registros, os pesquisadores conseguiram reconstruir parte da história climática dos últimos mil anos. A conclusão foi que os eventos de El Niño se tornaram significativamente mais intensos em comparação com a era pré-industrial.

Resultados reforçam projeções climáticas

Para Jens Zinke, paleobiólogo da Universidade de Leicester, no Reino Unido, os resultados estão alinhados com as projeções dos modelos climáticos mais avançados.

"Esses modelos indicam uma probabilidade maior de ocorrência de eventos extremos de El Niño no Pacífico oriental nas próximas décadas", afirma.

Outros especialistas, porém, avaliam os resultados com mais cautela. Andreas Fink, professor de Meteorologia do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT), destaca que registros de corais apresentam elevada resolução temporal, mas dependem de condições ambientais locais.

Segundo ele, essa característica introduz incertezas na comparação com dados instrumentais modernos e limita conclusões mais amplas. Fink também aponta a concentração da pesquisa em uma única região do Pacífico como fator que reduz o alcance das conclusões.

A própria Cole reconhece as limitações do estudo. "Nossa série de dados ajuda a preencher uma lacuna importante, mas não é contínua. Não temos registros para todos os anos do último milênio. Conseguimos cobrir pouco menos da metade desse período", afirma.

Embora tenha origem no Oceano Pacífico, o El Niño influencia padrões climáticos em diversas partes do mundo. No Equador e no Peru, costuma aumentar o risco de chuvas intensas e enchentes. Já na Austrália e na Indonésia, pode favorecer secas prolongadas, com impactos sobre a agricultura e aumento do risco de incêndios florestais.

Além disso, o fenômeno tende a elevar temporariamente a temperatura média global, contribuindo para recordes de calor.

Ameaça aos recifes de coral

Segundo Thomas Felis, que coordena o grupo de pesquisa em paleoclimatologia de corais do Centro MARUM de Ciências Marinhas Ambientais da Universidade de Bremen, anos marcados por fortes eventos de El Niño costumam estar associados a episódios extensos de branqueamento de corais.

Os corais dependem de uma relação simbiótica com algas microscópicas, responsáveis por fornecer parte da energia necessária à sua sobrevivência por meio da fotossíntese. Quando a temperatura da água sobe demais, essas algas passam a produzir substâncias nocivas e são expulsas pelos corais.

Sem elas, os recifes perdem a cor característica e entram em estado de estresse. Se as temperaturas retornarem rapidamente ao normal, as algas podem recolonizar os corais. Quando o aquecimento persiste por semanas ou meses, entretanto, a mortalidade aumenta significativamente.

"Se as temperaturas anormalmente elevadas se mantiverem por muito tempo, os corais acabam morrendo", afirma Felis.

Um processo global de degradação dos recifes representaria não apenas a perda de ecossistemas marinhos de enorme biodiversidade, mas também a destruição de um importante registro natural da história climática dos oceanos.

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