Custo da descontaminação ameaça sonho da expansão nuclear
Muitos países avançam na construção de novos reatores nucleares, apesar de ainda não saberem bem como descontaminar os antigos - e a conta desse processo conta pode ser exorbitante.Em um prédio industrial da década de 1960, na costa alemã do Mar Báltico, Florian Grose segura um dosímetro enquanto se move em direção a um canto da sala. O aparelho começa a apitar freneticamente.
"Isso dá cerca de 10 microsieverts", disse ele, vestido com um macacão de proteção. Uma dose normal é inferior a 0,2 microsieverts. "Esta é uma área onde eu diria que talvez devêssemos nos afastar um metro. Não se deve ficar parado aqui por uma hora", alertou o técnico em proteção radiológica, em um tom surpreendentemente jovial.
Dentro do prédio especial nº 1 da antiga usina nuclear, partes da parede são irregulares e cheias de buracos - resultado do trabalho dos operários que quebravam camadas de concreto em busca de contaminação radioativa. Este tem sido um dos "edifícios mais difíceis de descontaminar e desmantelar", explica Kurt Radlof, responsável pela comunicação da usina.
Seus pais trabalharam no complexo nuclear da era soviética em Lubmin, na antiga Alemanha Oriental, antes de seu fechamento há 35 anos. O desmantelamento da instalação deveria levar cerca de 20 anos, mas ainda está longe de ser concluído e se tornou um dos projetos de desativação civil mais caros do mundo.
A energia nuclear existe há mais de 70 anos. Ainda assim, dos mais de 600 reatores já construídos, apenas um terço foi fechado e 20 totalmente desativados. A vida útil atual de um reator é de 30 a 40 anos, e centenas deles estão se aproximando da aposentadoria.
Embora o descomissionamento seja caro e complexo, países na Europa e em todo o mundo buscam revitalizar a indústria nuclear em declínio em busca da independência energética, diante da mais recente crise de energia precipitada pela guerra no Golfo Pérsico.
Numa recente Cúpula de Energia Nuclear, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a Europa queria juntar-se ao renascimento nuclear, citando as vulnerabilidades energéticas da guerra com o Irã e a capacidade da energia nuclear de complementar as energias renováveis intermitentes.
O descomissionamento de um único reator pode custar até 2 bilhões de dólares (R$ 10,6 bilhões), de acordo com a Agência Internacional de Energia Atómica (Aiea). Embora, em alguns casos, isto tenha ocorrido dentro do orçamento e do prazo previstos, ainda é algo que está longe de ser garantido.
Globalmente, mesmo sem grandes custos adicionais e não levando em conta os novos reatores, a limpeza de centrais desativadas poderá se tornar um problema de trilhões de dólares, onerando os contribuintes e as futuras gerações.
A queda de Lubmin da glória nuclear
Lubmin foi outrora a joia da coroa da tecnologia soviética na República Democrática Alemã (RDA). Escolhida em parte pela sua localização na extremidade nordeste do país, com fácil acesso às águas do Mar Báltico, necessárias para o arrefecimento dos reatores, a central deveria suprir cerca de um quarto das necessidades de eletricidade da RDA.
Mas os problemas na usina começaram cedo. Após cerca de um ano de operação, um incêndio irrompeu em uma das salas de máquinas, interrompendo o sistema de resfriamento essencial para evitar um colapso do núcleo. Outros problemas se seguiram, mas não foram relatados ao público.
Então, em 1989, o Muro de Berlim caiu, colocando a Alemanha no caminho da reunificação. Pela primeira vez, inspetores da Alemanha Ocidental foram autorizados a entrar na usina para examinar os reatores, e eles não gostaram do que encontraram.
Os vasos de pressão frágeis construídos para abrigar os núcleos de reatores nucleares e o resfriamento de emergência inadequado levaram os especialistas a considerar os reatores inseguros e a ordenarem o desligamento imediato dos cinco. Mas esse não foi o fim da história.
Como desativar uma usina nuclear
Desativar uma usina nuclear não é como demolir um prédio de escritórios. É um processo lento, meticuloso e altamente regulamentado, que se assemelha mais a uma cirurgia do que a uma construção.
O primeiro passo é remover as partes mais radioativas: as barras de combustível e tudo ao redor delas. Essas partes são levadas para as piscinas de resfriamento. Como esse resíduo de alto nível permanece radioativo por centenas de milhares de anos, ele é então transferido para armazenamento. Em Lubmin, somente esse processo levou sete anos.
A partir daí começa o trabalho de verdade. Todo o resto - cada cano, cabo, porta e componente estrutural - precisa ser medido quanto à radioatividade e desmontado peça por peça. No caso de Lubmin, isso significa 330 mil toneladas de material.
Alguns componentes contaminados também precisam ser armazenados em local seguro e de longo prazo, principalmente aqueles que ficavam mais próximos do combustível nuclear.
"Eles são colocados em armazenamento temporário, onde podem ser preparados para o armazenamento final e permanente", disse Kurt Radloff.
Outros componentes podem ser descontaminados e, após uma série de verificações, alguns podem até ser reciclados.
Quando o descomissionamento não sai como planejado
Trata-se de um processo extremamente complexo e demorado, mesmo quando tudo corre bem. Ainda mais quando as coisas não ocorrem como o esperado. Como em Lubmin, onde o dosímetro de Grose apita intensamente.
A água radioativa usada durante as operações se infiltrou em rachaduras no gesso, espalhando a contaminação pelas paredes, o que foi uma surpresa para a equipe de limpeza.
"Se havia uma rachadura no gesso em algum lugar, o que provavelmente não era incomum em 1990, a contaminação se infiltrou e se espalhou", explicou Grose. Todas as superfícies afetadas precisam ser identificadas e removidas.
A contaminação por vazamento também é um problema em outros reatores antigos. Mudanças nos padrões de segurança, espaço limitado para armazenamento de resíduos, complexidade tecnológica, falta de financiamento e oposição pública frequentemente aumentam os custos e os atrasos. Em Lubmin, o plano original era concluir o descomissionamento há dez anos por cerca de 1 bilhão de euros (R$ 6,1 bilhões). A estimativa atual é de 10 bilhões de euros, com conclusão prevista para meados da década de 2040.
A maioria dos países exige que as operadoras nucleares reservem fundos para o descomissionamento com antecedência, mas quando esse dinheiro é insuficiente, governos e contribuintes intervêm.
O que acontece com os resíduos nucleares restantes?
Mesmo após o descomissionamento, os resíduos ainda precisam ser removidos. Os resíduos nucleares de alta e média atividade devem ser armazenados permanentemente. Mas dos 31 países que atualmente produzem energia nuclear, apenas dois estão construindo instalações de armazenamento subterrâneo permanentes. A Alemanha, por exemplo, ainda não tem uma dessas instalações.
Em Lubmin, todo o material está localizado em um prédio de armazenamento provisório, enquanto aguarda um local permanente. Mas encontrar um local seguro para armazenar resíduos nucleares a longo prazo não é fácil. Radlof brinca que provavelmente não viverá o suficiente para ver os resíduos de alta atividade serem armazenados definitivamente, "a menos que a medicina faça avanços muito significativos".
Novos reatores, incluindo pequenos reatores modulares (SMRs), estão sendo projetados e construídos tendo em mente o descomissionamento. Isso inclui componentes mais padronizados e estruturas modulares que, teoricamente, são mais fáceis de desmontar.
Contudo, resta saber se isso se traduzirá em prazos mais curtos ou custos mais baixos. Até o momento, nenhum desses novos reatores foi desativado e apenas dois SMRs foram construídos em escala comercial.
Os custos de não pensar em tudo isso são claros. "O desmantelamento da usina nuclear não fazia parte do plano original. Eles realmente não pensaram nisso durante as fases de planejamento", disse Radloff.