"Banco de ouro vermelho" dos incas ainda guarda joias peculiares
Chamativas por suas numerosas espinhas vermelho coral, as conchas spondylus, consideradas mais valiosas que o ouro pelos antigos peruanos, foram armazenadas no norte do Peru para serem distribuídas por todo o império inca, inclusive em forma de joias talhadas nesse material.
Esse "banco de ouro vermelho" pré-colombiano estava no complexo arqueológico Cabeza de Vaca, situado na periferia da cidade peruana de Tumbes, próxima da fronteira com o Equador, onde arqueólogos encontraram a única oficina inca conhecida até agora para talhar os spondylus, com algumas de suas últimas peças ainda enterradas.
Nas escavações realizadas até agora foi possível encontrar figuras elaboradas na forma de aves, grãos de milho e, inclusive, uma cruz andina, denominada chacana, que serviam para adornar os luxuosos apetrechos dos nobres do antigo Peru, explicou à Agência Efe o diretor do projeto integral Cabeza de Vaca, Oliver Huamán.
Dos edifícios monumentais do complexo, ameaçados atualmente pela expansão desenfreada de bairros humildes, os spondylus, que só se encontram nas águas quentes do golfo de Guayaquil, chegaram a todos os confins de Tahuantinsuyo, nome do império incaico, que abrangia um território que ia da Colômbia até a Argentina.
Os incas distribuíram os spondylus e suas peças talhadas através do Qhapaq Ñan, a grande rede de caminhos construída por esta civilização para ligar todas as províncias de seu império, em um traçado de 30 mil quilômetros declarado Patrimônio da Humanidade, e cujo eixo litorâneo começa em Cabeza de Vaca.
É por isso que os spondylus, denominados "mullu" na língua quíchua dos incas, foram encontrados na maioria das sepulturas dos grandes personagens das civilizações pré-hispânicas do antigo Peru, inclusive a milhares de quilômetros de seu lugar de origem.
"Existe, além disso, um mito que fala de um deus que comia spondylus em uma laguna dos Andes próxima a Lima, que está cerca de 4.300 metros sobre o nível do mar, e que, precisamente, recebe o nome de Mullucocha (laguna de spondylus)", afirmou Huamán.
A diretora de pesquisa arqueológica de Cabeza de Vaca, Rosa María Valverde, contou que os spondylus, característicos pela dureza de sua concha, eram utilizados também como oferendas de alimento para os deuses.
"A extração do 'mullu' não era fácil, porque o molusco se encontra a uma profundidade de 15 a 30 metros no leito marinho, o que exigia o trabalho de mergulhadores especialistas, além de outros tipos de técnicas, para retirá-lo do mar", disse Valverde.
Huamán acrescentou que alguns crânios encontrados na região apresentam um calo no lugar dos ouvidos, um sinal característico dos mergulhadores que lidam com a pressão da água, o que demonstra o trabalho sacrificante destes para fornecer spondylus ao resto do império.
Em Cabeza de Vaca, construído por volta de 1470 e habitado até 1532, quando começaram a chegar os conquistadores espanhóis, se encontra uma Huaca del Sol, um enorme templo cerimonial de 300 metros de comprimento e 100 de largura condicionado em uma colina, além da oficina onde eram talhados os spondylus.
O complexo arqueológico, que abrange 69 hectares, tem mais de 60% de sua área sob as casas das periferias de Tumbes, construídas antes da delimitação da região arqueológica ao situar centenas de famílias atingidas pelas inundações do fenômeno do El Niño em 1983.
"Há quarteirões inteiros que estão sobre o complexo arqueológico. Ao fazer qualquer fundação, são encontrados restos de cerâmica, ossos e inclusive vasilhas inteiras, e os moradores não nos dizem por temor. Temos ciência que eles depois tentam vendê-las aos turistas, que infelizmente as compram", comentou Huamán.
Por esse motivo, os arqueólogos se esforçam para realizar conversas com os moradores para que tomem consciência do patrimônio existente sob seus pés e sobre a importância da conservação de um dos principais pontos de expansão do legado cultural dos incas para grande parte da América do Sul.