Para muita gente, a música é refúgio emocional, trilha sonora da vida e até ferramenta para regular o humor. Mas a neurociência já identificou que essa experiência não é universal. Um pequeno grupo de pessoas simplesmente não sente prazer ao ouvir músicas - independentemente do estilo, do ritmo ou da melodia. Esse fenômeno tem nome: anedonia musical específica.
Descrita em estudos publicados na Trends in Cognitive Sciences, a condição não tem relação com problemas auditivos nem com falta de sensibilidade emocional geral. Quem vive essa experiência escuta normalmente, reconhece melodias e pode sentir prazer em outras situações do cotidiano, como comer, socializar ou receber recompensas financeiras. O "desligamento" acontece apenas quando o estímulo é musical.
O que acontece no cérebro
Segundo pesquisadores da Universidade de Barcelona, a explicação está na comunicação entre áreas específicas do cérebro. Em pessoas que se emocionam com música, o som ativa regiões auditivas e, em seguida, estimula o circuito de recompensa - responsável pela liberação de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer.
Na anedonia musical, essa ponte funciona de forma mais fraca. "Essa falta de prazer pela música é explicada pela desconectividade entre o circuito de recompensa e a rede auditiva, não pelo funcionamento do circuito de recompensa em si", explica Josep Marco-Pallarés. Ou seja: o cérebro até escuta, mas não transforma o som em emoção prazerosa.
Um prazer que varia de pessoa para pessoa
A pesquisa também reforça que o prazer musical existe em um espectro. Algumas pessoas sentem arrepios, vontade de chorar ou dançar; outras têm reações mais sutis. A anedonia musical está no extremo dessa escala, mas variações intermediárias são comuns e naturais.
Para identificar o fenômeno, os cientistas criaram o Barcelona Music Reward Questionnaire (BMRQ), um questionário que avalia cinco dimensões da experiência musical: resposta emocional, regulação do humor, vínculo social, impulso para o movimento e curiosidade por novas músicas. Pessoas com anedonia musical costumam pontuar baixo em todas essas áreas.
Exames de neuroimagem confirmam o padrão: ao ouvir música, o circuito de recompensa quase não se ativa - enquanto responde normalmente a outros estímulos prazerosos, como dinheiro ou comida.
Genética, ambiente e novas descobertas
As causas ainda estão sendo investigadas, mas estudos com gêmeos indicam que fatores genéticos podem explicar até 54% das diferenças individuais no prazer musical. Experiências de vida e desenvolvimento cerebral também parecem influenciar.
Para o neurocientista Ernest Mas-Herrero, a descoberta amplia a compreensão do prazer humano. "Aqui, mostramos que não é apenas o engajamento do circuito de recompensa que importa, mas também como ele interage com outras regiões do cérebro relevantes para cada tipo de estímulo", afirma.
Por que isso importa?
Entender por que a música não provoca prazer em algumas pessoas ajuda a decifrar mecanismos mais amplos da motivação e da felicidade. Os pesquisadores acreditam que a mesma abordagem pode revelar outras anedonias específicas, como dificuldades em sentir prazer com comida ou interações sociais - algo observado em alguns transtornos mentais.
Agora, os estudos avançam para identificar genes associados à anedonia musical e investigar se essa condição é estável ao longo da vida ou se pode ser modificada com novas experiências. Enquanto isso, a ciência reforça uma ideia importante: sentir prazer não é uma experiência padronizada - o cérebro humano encontra caminhos muito diferentes para se emocionar.