O início do ano é marcado por férias, viagens e aeroportos cheios. Mas, para quem convive com enxaqueca, o perrengue não é apenas a superlotação e nem o estresse típico desses espaços, mas as crises, especialmente durante ou após viagens de avião.
"Essa relação não é coincidência e tem explicação fisiológica e científica bem estabelecida. A enxaqueca é uma doença neurológica crônica, caracterizada por um cérebro mais sensível a mudanças do ambiente. Entre os principais gatilhos envolvidos nas viagens aéreas está a mudança brusca da pressão atmosférica, à qual o organismo é submetido durante a decolagem, o voo e o pouso", explica o neurologista, Dr. Tiago de Paula.
O que causa a piora da enxaqueca durante o voo?
Durante um voo, mesmo com a cabine pressurizada, ocorre uma variação significativa da pressão atmosférica em relação ao nível do solo. "Para pessoas com enxaqueca, essa alteração funciona como um estímulo capaz de aumentar a excitabilidade do sistema nervoso. Essa associação foi reforçada por uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, que avaliou 31 estudos sobre condições climáticas e enxaqueca. Os resultados mostraram que mudanças climáticas relatadas pelos pacientes tiveram associação significativa com crises de enxaqueca", diz o médico.
"Entre os fatores analisados, a pressão atmosférica apresentou associação estatisticamente significativa com crises, assim como a temperatura. Esses dados reforçam que alterações ambientais, mesmo discretas, podem ser suficientes para precipitar crises em cérebros mais sensíveis", esclarece o Dr.
Outros fatores importantes
O estudo mostrou que a mudança de pressão gera um estresse fisiológico no organismo. "Em pacientes com enxaqueca, esse estresse contribui para alterações no funcionamento dos vasos sanguíneos, no equilíbrio autonômico e na liberação de neurotransmissores envolvidos na dor", diz o médico.
Além disso, fatores comuns às viagens de avião potencializam esse efeito, como: desidratação, favorecida pelo ar seco da cabine, privação ou alteração do sono, e jejum prolongado ou alimentação inadequada. Por fim, o próprio estresse físico e emocional associado ao deslocamento funciona como um gatilho. Esse conjunto de fatores aumenta a hiperexcitabilidade cerebral, característica central da enxaqueca, facilitando o surgimento das crises.
Risco aumenta nas férias?
No período de férias, o risco tende a ser ainda maior. "Mudanças de rotina, consumo de álcool, noites mal dormidas e calor intenso ao chegar ao destino funcionam como gatilhos adicionais. Em pessoas que não estão com a enxaqueca bem controlada, essa soma de estímulos pode explicar por que as crises aparecem com mais frequência durante viagens", comenta o Dr. Tiago.
O médico reforça que, embora os gatilhos existam, eles não são a causa da doença. "O problema central é a enxaqueca não tratada. Quanto melhor está o controle da doença, menor é a influência de fatores como pressão atmosférica, clima ou viagem de avião. O objetivo do tratamento é permitir que o paciente viaje, voe e viva normalmente, sem precisar ter medo constante de uma crise", explica o médico. "Pacientes adequadamente tratados tendem a tolerar melhor as mudanças ambientais, inclusive durante voos", comenta o médico.
Como se prevenir?
Medidas como manter boa hidratação, evitar jejum prolongado, dormir adequadamente antes da viagem e reduzir o consumo de álcool podem ajudar a diminuir o risco de crises, segundo o médico. "No entanto, elas não substituem o tratamento individualizado e contínuo da enxaqueca, que deve conduzir-se por um especialista", diz.
"Hoje o tratamento pode combinar uso da toxina botulínica com medicamentos desenhados para tratar a enxaqueca. Medicamentos orais como anticonvulsivantes e betabloqueadores como propranolol, além dos monoclonais Anti-CGRP, primeiros medicamentos desenvolvidos, do início ao fim, para enxaqueca, podem ser usados. Eles bloqueiam o efeito do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), que contribui para a inflamação e transmissão de dor e está presente em maiores níveis em pacientes com enxaqueca", detalha o neurologista.
"A toxina botulínica é aplicada em pontos nervosos específicos para reduzir a hiperexcitabilidade modulando receptores cerebrais da periferia do sistema nervoso central para região do encéfalo, ajudando, assim, no controle da enxaqueca", diz o especialista. "Com acompanhamento adequado, é possível reduzir crises, melhorar a qualidade de vida e aproveitar as viagens de fim de ano com mais segurança e tranquilidade", finaliza.
Sobre o especialista
Dr. Tiago de Paula (CRMSP 168999) é médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP). É membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Atuou como preceptor dos ambulatórios de enxaqueca infantil, enxaqueca do adulto e migrânea vestibular da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e atualmente integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP).
*Fonte: Holding Comunicações