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'Um luto sem corpo': mãe procura filha desaparecida há 30 anos e criou o Movimento Mães da Sé

No Dia das Mães, histórias de mulheres que transformaram a dor da ausência em luta coletiva expõem o abandono enfrentado por famílias

10 mai 2026 - 05h00

"Há 30 anos eu carrego uma dor que não tem remédio. Um luto sem corpo".

Em 23 de dezembro de 1995, a vida de Ivanise Esperidião mudou para sempre. Naquela noite chuvosa, a filha dela, Fabiana, então com 13 anos, saiu de casa para dar um abraço de aniversário em uma colega da escola. Era uma visita rápida, a poucos metros de casa. No caminho de volta, as duas meninas se separaram. Fabiana nunca mais foi vista.

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A partir daquele dia, Ivanise mergulhou em uma busca desesperada por hospitais, IMLs, ruas e delegacias de São Paulo. Sem respostas e sem apoio, viu a própria vida desmoronar.

Eu te confesso que cheguei à beira da loucura procurando minha filha de dia e de noite. Durante o dia, eu procurava minha filha nos IMLs e nos hospitais, e à noite eu procurava ela nas ruas. Não tem um hospital, um IML em São Paulo e na Região Metropolitana que eu não tenha procurado.

Quase 30 anos depois, ela ainda não encontrou Fabiana, que teria 44 anos hoje. Mas transformou a própria dor em uma das principais redes de apoio a familiares de desaparecidos do país: o Movimento Mães da Sé.

Neste Dia das Mães, a história de Ivanise ajuda a retratar a realidade de milhares de mulheres brasileiras que convivem diariamente com a ausência, a espera e a falta de respostas.

O Brasil registrou 84,7 mil desaparecidos em 2025, uma média de 232 pessoas por dia. Quase um terço das vítimas tinha menos de 18 anos.

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"Volta para casa e espera 24 horas"

Na madrugada do desaparecimento, Ivanise procurou uma delegacia para registrar o caso. O que encontrou, segundo ela, foi descaso. "O delegado olhou para mim e disse: 'Volta para casa, mãe. Isso é coisa de adolescente. Até o dia amanhecer sua filha já voltou. Deve estar com algum namoradinho'".

Mesmo insistindo que a filha não costumava ficar fora de casa naquele horário, ouviu que precisava esperar 24 horas para registrar o desaparecimento. No dia seguinte, voltou à delegacia e enfrentou novamente resistência. Se recusou a sair até que fosse registrado. Ela conta que acreditava que, após o registro do boletim de ocorrência, as buscas começariam imediatamente. Descobriu rapidamente que não era assim.

Ivanise conta que vê sua filha em todos os desaparecidos que consegue encontrar
Ivanise conta que vê sua filha em todos os desaparecidos que consegue encontrar
Foto: Arquivo pessoal

"Eu achava que, a partir do momento em que a polícia registrasse o boletim, eles iriam procurar minha filha. E não foi isso que aconteceu. Não é isso que acontece nem hoje".

Hoje, a legislação brasileira não exige espera de 24 ou 48 horas para registrar desaparecimentos. Segundo Ivanise, muitos familiares ainda desconhecem esse direito e acabam aceitando a negativa de atendimento. "Ninguém precisa esperar 24 ou 48 horas. O delegado que se recusa a registrar está cometendo crime de prevaricação".

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Nos meses seguintes ao desaparecimento, Ivanise passou a viver exclusivamente em função das buscas. Percorria hospitais durante o dia e ruas durante a noite. Dormia pouco, quase não se alimentava e acabou internada em um hospital psiquiátrico.

O psiquiatra teve uma conversa muito dura comigo. Disse: 'Você vai morrer desse jeito'. E perguntou: 'Se você morrer, quem vai procurar pela sua filha?'

Ela afirma que saiu da internação decidida a continuar. "Quando saí do hospital, saí determinada a juntar todos os caquinhos que tinham se quebrado e continuar procurando minha filha".

Rede de mães

Pouco tempo depois, Ivanise foi convidada a participar da novela Explode Coração, escrita por Glória Perez, que passou a incluir depoimentos reais de mães de desaparecidos. Foi ali que percebeu que não se tratava de uma experiência individual.

"Quando cheguei ao Rio, encontrei 72 mães. Foi um choque para mim, porque até então eu achava que só eu passava por aquilo". Após uma entrevista para jornais paulistas, Ivanise divulgou seu telefone para outras famílias que passavam pela mesma situação. No dia seguinte, recebeu dezenas de ligações.

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Em março de 1996, mais de 100 pessoas se reuniram nas escadarias da Catedral da Sé. O encontro deu origem ao Movimento Mães da Sé e, posteriormente, à Associação Brasileira de Busca e Defesa à Criança Desaparecida (ABCD).

A partir daquele dia, transformei a minha dor numa luta não só pela minha filha, mas por todas aquelas mulheres.

Apenas cinco mães do primeiro encontro continuam procurando seus filhos. As demais tiveram respostas dos paradeiros ou conseguiram reencontrá-los.

"Nossos filhos viram apenas estatística"

Em 2019, o Brasil criou a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, com previsão de integração entre órgãos de segurança, saúde e assistência social. Segundo dados da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), apenas 12 estados estão atualmente integrados ao Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, criado para auxiliar investigações e cruzamento de informações.

Para Ivanise, o país ainda falha em tratar o desaparecimento como prioridade. "Precisamos de um trabalho unificado entre as polícias de todos os estados. Enquanto não houver essa integração, nossos filhos continuarão sendo apenas números".

Ela afirma que 30 anos após a sua experiência, o preconceito ainda é frequente no atendimento às famílias. "Quando você chega na delegacia, muitas vezes já existe uma opinião formada: 'sumiu porque quis', 'fugiu de casa', 'teve problema familiar'".

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Aparecida da Silva é uma das mães que sentiu a ausência de ajuda na pele. Seu filho, José Thiago Honório da Silva desapareceu em 4 de setembro de 2023, na região da Lapa, na zona Oeste de São Paulo. Ele havia saído de casa para ir ao médico e nunca voltou. Ele teria 25 anos hoje. 

"Até hoje, não tenho notícias nenhuma. Fui atrás dos recursos que eu podia. Tentei pagar advogado, fui no Ministério Público, na Defensoria Pública, fiz B.O., mas até hoje não descobri rastro nenhum".

José Thiago Honório da Silva, de 25 anos, desapareceu em 4 de setembro de 2023
Foto: Arquivo pessoal

"Hoje eu carrego essa dor. É um vazio. É um luto vivo. Não tem mais aquele Natal feliz, não tem mais aquele Dia das Mães. Antes eu tivesse enterrado um corpo. Talvez já tinha aliviado a dor, porque esquecer nunca esquece. Mas é insuportável o que a gente sente. Eu tomo remédio controlado até hoje. Estou de pé até hoje por isso".

Quem desaparece no Brasil

Miguel Lau Mbiya, de 17 anos, desapareceu depois de sair com os colegas da escola, na Sé, região Central de São Paulo. Desde o dia 23 de agosto de 2025, a mãe, Ana Maria Mbiya, o procura. A família se mudou para o Brasil em 2021, natural de Angola.

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Segundo Ivanise, a maioria das pessoas desaparecidas no país são homens negros e de baixa renda. Já entre crianças e adolescentes, os casos costumam envolver situações de vulnerabilidade.

Miguel Lau Mbiya, de 17 anos, desapareceu na região da Sé em agosto de 2025
Foto: Reprodução

"As crianças desaparecem indo para a escola, voltando da escola, brincando na porta de casa". Ela também chama atenção para casos ligados a adoção ilegal, exploração sexual e tráfico de pessoas. "São sempre crianças bem afeiçoadas".

Entre crianças desaparecidas há muitos anos, Ivanise acredita que parte tenha sido levada para fins criminosos.

Tecnologia ajuda, mas também cria riscos

Ao longo das últimas décadas, a tecnologia passou a desempenhar um papel importante nas buscas. Ivanise destaca o uso de redes sociais, inteligência artificial e sistemas de reconhecimento facial.

"Hoje nossa principal ferramenta são as redes sociais". Ela cita programas como o Smart Sampa, em São Paulo, que utiliza milhares de câmeras para localizar desaparecidos e pessoas em situação de confusão mental, por exemplo.

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Fabiana Esperidão teria 44 anos hoje. Ivanise fez uma imagem com progressão de idade de como ela estaria nos dias atuais
Foto: Reprodução

Ao mesmo tempo, alerta para os perigos da internet no aliciamento de adolescentes. "A internet também é uma faca de dois gumes. Ela ajuda a localizar, mas também facilita aliciamentos, fugas e crimes".

Mães da Sé

"Quem é que vai atrás, quem é que sofre, quem é que passa pela humilhação, pelo descaso, pelo abandono do Estado, são as mães. Raramente você vai ver um pai ajudando. Essa luta é da mãe. É a mãe que abdica da sua vida profissional, da sua vida pessoal, abdica do seu trabalho em busca de uma resposta".

Ivanise considera que o desaparecimento desestruturou a família e levou à separação. O pai de Fabiana se mudou de volta para Alagoas, se casou, reconstruiu a vida, e faleceu em 2021.

Mesmo sem encontrar Fabiana, Ivanise afirma que nunca pensou em desistir. "De jeito nenhum. Esse trabalho é o que me mantém viva".

Hoje, o trabalho das Mães da Sé inclui acolhimento psicológico, divulgação de desaparecidos, orientação jurídica e articulação com órgãos públicos. Segundo ela, muitas famílias chegam até a associação depois de passarem por situações de humilhação e abandono.

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"Eu nunca prometo que vamos encontrar o filho delas. Se eu tivesse esse poder, já teria encontrado a minha filha". O que ela oferece, diz, é algo que conheceu na própria pele: acolhimento.

"Mas eu digo: 'A partir de agora, você não está mais sozinha'".

Fonte: Portal Terra
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