Quando a luz não vem do mundo: o que a retina revela sobre os fosfenos e o cérebro "enganado

Em situações de esforço intenso, como um espirro muito forte, uma tosse prolongada ou o ato de levantar peso, muitas pessoas relatam "ver estrelas" por alguns instantes.

9 mai 2026 - 20h03

Em situações de esforço intenso, como um espirro muito forte, uma tosse prolongada ou o ato de levantar peso, muitas pessoas relatam "ver estrelas" por alguns instantes. Esses pontos luminosos, riscos coloridos ou manchas brilhantes recebem o nome de fosfenos e representam um fenômeno visual que ocorre mesmo na completa ausência de luz. Longe de qualquer explicação mística, esse efeito se relaciona a mecanismos bem descritos da retina e do cérebro.

A experiência geralmente dura poucos segundos e, na maioria dos casos, desaparece sem deixar sinais. No entanto, o que muitas pessoas consideram apenas uma curiosidade visual mostra, de forma direta, como o sistema visual responde a estímulos físicos e não apenas a fótons vindos do ambiente. Além disso, compreender a ciência por trás dos fosfenos esclarece como a pressão mecânica repentina e as variações rápidas na pressão dentro do olho alteram o comportamento das células sensíveis à luz. Dessa forma, o fenômeno se conecta tanto à neurociência básica quanto à prática clínica em oftalmologia.

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O que são fosfenos e por que "aparecem" sem luz?

A palavra-chave central, fosfenos, descreve a percepção de luz sem um estímulo luminoso real incidindo sobre a retina. Do ponto de vista neurobiológico, os fosfenos pertencem a um tipo de alucinação visual fisiológica, em que o cérebro interpreta sinais elétricos anômalos como se enxergasse imagens produzidas pela visão normal. O circuito visual, portanto, funciona de modo típico, porém outro tipo de estímulo o aciona.

Normalmente, a luz entra pela pupila, atravessa o cristalino, foca-se na retina e ali desencadeia reações químicas nas células fotorreceptoras, os cones e bastonetes. Nos fosfenos, entretanto, esse caminho tradicional sofre um "atalho". Em vez de fótons, forças mecânicas ou alterações hemodinâmicas modificam a atividade elétrica dessas células e das camadas neurais da retina. O resultado final, contudo, mantém forte semelhança: o cérebro recebe um fluxo de sinais e "acredita" que percebe estímulos luminosos reais.

retina – depositphotos.com / Ischukigor
retina – depositphotos.com / Ischukigor
Foto: Giro 10

Como a pressão no olho e o esforço físico provocam fosfenos?

Um dos mecanismos mais frequentes para o surgimento de fosfenos envolve a pressão mecânica direta sobre o globo ocular. Ao esfregar os olhos com força ou pressioná-los com as mãos, a pessoa comprime temporariamente a retina e suas camadas nervosas. Essa deformação física, por sua vez, pode abrir canais iônicos nas membranas das células ou despolarizar neurônios, o que dispara sinais elétricos que o sistema visual interpreta como luz.

Algo semelhante ocorre durante um espirro violento, um acesso de tosse ou o esforço de levantar muito peso. Nessas situações, aparece um aumento súbito da pressão intratorácica, que altera o retorno venoso e provoca variações rápidas de pressão na circulação da cabeça e dos olhos. Mesmo pequenas mudanças na pressão intraocular ou na irrigação sanguínea da retina já perturbam a atividade normal dos neurônios retinianos e do nervo óptico.

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De forma simplificada, a pessoa pode entender o processo em etapas:

  1. O esforço físico ou a pressão direta gera uma força mecânica sobre o globo ocular e seus vasos.
  2. Essa força modifica temporariamente o fluxo sanguíneo e a pressão no interior da retina.
  3. Células nervosas e fotorreceptoras sofrem deformação ou variação brusca de potencial elétrico.
  4. Essas alterações produzem descargas que seguem pelo nervo óptico em direção ao cérebro.
  5. O córtex visual interpreta tais sinais como luz e cria o efeito de "ver estrelas".

Biofísica da retina: por que as células respondem a pressão como se fosse luz?

A base biofísica dos fosfenos envolve a forma como as células fotorreceptoras e os neurônios da retina geram e modulam seus sinais. Em condições normais, os fotorreceptores mantêm um fluxo de íons regulado por canais sensíveis à luz. Quando os fótons atingem as moléculas de pigmento visual, ocorre uma cascata bioquímica que leva ao fechamento de canais iônicos e modifica o potencial elétrico da célula. Esse processo altera o padrão de disparo que segue pela via visual.

Em situações de pressão mecânica ou de alteração abrupta de pressão intraocular, o que muda não envolve o pigmento visual, mas a própria membrana celular. A compressão física pode:

  • Esticar ou deformar a membrana e afetar canais iônicos sensíveis à mecânica;
  • Alterar a concentração local de íons, como cálcio e sódio, na vizinhança da célula;
  • Modificar o potencial de membrana de neurônios bipolares e ganglionares, que integram o sinal visual.

Do ponto de vista elétrico, o resultado se assemelha ao efeito da luz, pois surge uma sequência de despolarizações e hiperpolarizações que percorrem a retina em direção ao nervo óptico. A diferença permanece apenas na causa inicial do estímulo, e não na rota que os sinais percorrem depois. Essa semelhança explica por que, na percepção consciente, os fosfenos se confundem com clarões luminosos reais. Além disso, estudos de eletrofisiologia mostram padrões de atividade muito próximos entre fosfenos e estímulos luminosos fracos.

Qual é o papel do cérebro na criação dessa ilusão visual?

O cérebro não analisa a origem física dos impulsos elétricos, pois lida apenas com os padrões de atividade que chegam às áreas visuais. Quando grupos específicos de neurônios do córtex visual recebem determinado tipo de disparo, o sistema interpreta, de forma automática, que existe luz em certa região do campo visual. Portanto, o fenômeno dos fosfenos ilustra como o sistema visual funciona por probabilidade e padrão, e não por verificação direta da fonte do estímulo.

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Neurobiologicamente, o caminho segue o mesmo da visão convencional. Os sinais passam do nervo óptico ao quiasma, depois ao corpo geniculado lateral e, por fim, ao córtex occipital. Em nenhuma dessas estações aparece um "filtro" dedicado a checar se os sinais surgiram por fótons, pressão ou estímulos elétricos artificiais. Isso se torna evidente em estudos que utilizam estimulação magnética transcraniana ou implantes visuais, métodos que provocam fosfenos por meio de correntes diretas no córtex, sem qualquer participação da retina. Assim, a ilusão visual não depende apenas do olho, mas de toda a cadeia de processamento.

Fosfenos, saúde ocular e quando procurar avaliação médica?

Na maioria dos casos, os fosfenos associados a espirros fortes, pequenas quedas de pressão ou esforço físico pontual permanecem como fenômenos transitórios e benignos. Eles aparecem de forma breve, não se associam a dor ocular intensa e não costumam interferir de maneira prolongada na visão. Mesmo assim, funcionam como um lembrete de que a retina e suas vias neurais reagem de forma sensível a variações mecânicas e hemodinâmicas.

Alguns sinais, porém, exigem atenção especializada. Profissionais de saúde costumam orientar que a pessoa procure avaliação oftalmológica quando surgem:

  • Fosfenos frequentes, sem relação clara com esforço ou pressão;
  • Clarões acompanhados de "chuva" de pontos escuros ou perda de parte do campo visual;
  • Dor ocular forte, queda súbita da visão ou sensação de sombra fixa em um dos olhos.

Nesses contextos, o mesmo mecanismo de atividade anômala da retina pode indicar problemas estruturais, como alterações vítreo-retinianas ou descolamento de retina. Assim, o estudo científico dos fosfenos ajuda não apenas a entender como o cérebro "se engana" diante de estímulos físicos, mas também a reconhecer quando a ilusão visual deixa de ser apenas uma curiosidade. A partir desse ponto, o fenômeno pode se transformar em um possível indicador de alteração ocular relevante, que merece investigação e acompanhamento adequados.

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retina – depositphotos.com / Ischukigor
Foto: Giro 10
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