Violência psicológica é a forma de abuso mais percebida por ginecologistas, diz pesquisa

Maioria dos profissionais atende casos de violência ao menos ocasionalmente, mas nem todos estão preparados para lidar com as vítimas

10 mar 2026 - 12h26

*Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.

A violência psicológica é a forma de agressão mais frequentemente percebida no consultório por ginecologistas e obstetras, segundo pesquisa realizada pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

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Em segundo lugar está a violência sexual, seguida das violências física e patrimonial, definidas pela Lei Maria da Penha como:

  • violência psicológica: qualquer conduta que cause danos emocionais e diminuição da autoestima da vítima ou que prejudique e perturbe seu pleno desenvolvimento; que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, violação de sua intimidade, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;
  • violência sexual: qualquer conduta que constranja a vítima a presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou utilizar sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos;
  • violência física: qualquer conduta que ofenda a integridade ou a saúde corporal;
  • violência patrimonial: qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer as necessidades da vítima.

De acordo com o levantamento, 57% dos ginecologistas atendem casos de violência contra a mulher ao menos ocasionalmente e 15% afirmam atender vítimas de violência frequentemente, evidenciando a recorrência do problema na prática clínica — de 2011 a 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) contabilizou 2,1 milhões de notificações de violência contra mulheres.

Nem todos os médicos, porém, dizem estar preparados para lidar com essa situação. A maioria dos respondentes declara preparo intermediário para lidar com a violência contra a mulher, e 23% dos profissionais relatam sentir-se pouco ou nada preparados.

A pesquisa mostra ainda que 46% dos profissionais abordam o tema com suas pacientes apenas quando há sinais evidentes; 26,55%, apenas quando a paciente relata espontaneamente; 14,48% realizam abordagem rotineira; e 12,41% raramente ou nunca abordam a violência.

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Quanto aos principais desafios enfrentados pelas pacientes nessa esfera, os profissionais destacam a falta de rede de apoio e questões legais ou burocráticas.

A pesquisa foi feita com 290 ginecologistas e obstetras de cinco estados (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Piauí e Rio Grande do Sul) por meio de um questionário com perguntas fechadas e múltipla escolha. A participação era voluntária e anônima. Mais de 72% dos respondentes têm mais de 50 anos e 61% atuam tanto na rede pública quanto na rede privada.

Orientações para os médicos

A partir dos resultados do levantamento, a Febrasgo prevê ações visando reforçar o papel do ginecologista e obstetra como agente essencial na rede de proteção à mulher e combater o cenário de violência.

No âmbito educacional, a entidade informa que produzirá conteúdos, capacitações e orientações para apoiar o profissional no reconhecimento e manejo de situações de violência. Em relação à área científica, ela afirma que irá incorporar o tema a eventos, congressos e discussões técnicas.

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Também para orientar os profissionais sobre como conduzir atendimentos de vítimas de violência de forma mais humanizada, acolhedora e responsável, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) lançou nesta segunda-feira, 9, o guia "Boas práticas no atendimento médico às mulheres vítimas de violência".

"O médico precisa usar uma linguagem acolhedora e respeitar o tempo da paciente. Não pode ser uma consulta rápida de pronto-socorro. Ele também tem que entender os limites que ela impuser durante a conversa inicial, além de adotar uma escuta qualificada e acolher a paciente sem julgamentos", diz Flavia Bassanezi, vice-corregedora do Cremesp e coordenadora do guia.

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