Uso de anabolizantes traz riscos graves à saúde, alertam especialistas

O uso de anabolizantes sem indicação médica pode causar danos silenciosos e graves. Entenda os riscos para sua saúde a curto e longo prazo.

12 ago 2026 - 16h53
Resumo
O uso de anabolizantes sem acompanhamento médico pode causar sérios danos à saúde, como infertilidade, problemas cardíacos, efeitos colaterais estéticos e risco de insuficiência renal. Especialistas alertam contra mitos disseminados nas redes sociais e recomendam diferenciar reposição hormonal de dosagens abusivas com fins estéticos. 🚨

A busca por ganho muscular rápido e definição corporal tem levado muitas pessoas ao uso de anabolizantes sem indicação médica. Influenciadores, vídeos de transformação e discursos que vendem a ideia de controle dos riscos alimentam essa prática. Mas, ao contrário do que é repetido nas redes sociais, esse tipo de estratégia pode custar caro para a saúde.

Foto: Liudmila Chernetska/Getty Images
Foto: Liudmila Chernetska/Getty Images
Foto: Sport Life

"Os anabolizantes, quando utilizados em doses elevadas e sem indicação médica adequada, não atuam apenas sobre os músculos aparentes, mas sim em todos os tecidos sensíveis à ação hormonal, incluindo vasos sanguíneos, rins e coração, por exemplo. E o grande perigo é que é uma agressão silenciosa", afirma o farmacêutico Dr. Maurizio Pupo, pesquisador, professor e diretor científico do IPUPO Pós-Graduações.

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Anabolizantes e a infertilidade

O uso de anabolizantes pode levar a problemas relacionados à saúde reprodutiva. "O uso indiscriminado de anabolizantes pode afetar a fertilidade de forma total ou parcial em homens, já que o aumento dos níveis de testosterona provocado por essas substâncias inibe a produção do hormônio responsável pela maturação das células reprodutivas", explica o Dr. Rodrigo Rosa, especialista em reprodução humana e diretor clínico da Clínica Mater Prime, em São Paulo.

Alguns estudos recentes também mostraram que o uso pode comprometer de forma semipermanente a produção de testosterona nos testículos, causando uma disfunção testicular. Nas mulheres, os anabolizantes inibem a produção dos hormônios que regulam o ciclo menstrual, como o FSH e o LH.

"Com isso, o organismo pode parar de ovular e a mulher deixar de menstruar por meses ou até anos. Esse quadro é reversível em alguns casos, mas, quanto maior o tempo de uso e a dose, maior o risco de danos duradouros", comenta o médico. Além disso, os anabolizantes podem afetar a qualidade dos óvulos, causar alterações morfológicas nos ovários e até favorecer o surgimento de cistos.

Anabolizantes e os danos ao coração

Por uma série de mecanismos bioquímicos complexos, o uso de anabolizantes pode favorecer um crescimento patológico do músculo cardíaco, especialmente do ventrículo esquerdo. "Diferente da hipertrofia fisiológica induzida pelo exercício aeróbico saudável, isso torna o coração mais espesso, rígido e menos eficiente. Além disso, ocorre morte programada das células musculares cardíacas e surgimento de fibrose no espaço deixado", diz o Dr. Maurizio Pupo.

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Essas alterações podem favorecer diferentes complicações cardiovasculares, incluindo quadros de cardiomiopatia, arritmias, insuficiência cardíaca e morte súbita. Segundo a Dra. Aline Lamaita, cirurgiã vascular em São Paulo e mestre em Ciências pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, essas substâncias também podem aumentar a produção de glóbulos vermelhos, favorecendo o aumento da viscosidade do sangue e a formação de coágulos.

Maior risco de trombose

Esse cenário pode levar à trombose venosa, especialmente em pessoas que já têm predisposição devido a fatores como histórico familiar, presença de varizes e tabagismo, por exemplo. "Em casos graves, esse coágulo que obstrui o fluxo sanguíneo pode se desprender da parede da veia e alcançar a circulação pulmonar, causando uma embolia pulmonar, quadro potencialmente fatal", detalha a médica.

Além disso, os anabolizantes podem favorecer o surgimento ou a piora de varizes em pessoas predispostas. "Apesar de não causarem varizes de maneira direta, os anabolizantes podem alterar a circulação de diferentes formas, com aumento da pressão arterial, vasoconstrição e maior dificuldade no retorno venoso, assim contribuindo para o adoecimento das veias", explica a Dra. Aline.

Prejuízos aos rins

Outro ponto alarmante e frequentemente negligenciado pelos usuários de anabolizantes é o impacto dessas substâncias nos rins. "O tecido renal expressa receptores de androgênio e pode sofrer com a exposição prolongada a essas substâncias. O risco se torna ainda maior quando o uso de anabolizantes é associado a dietas hiperproteicas, desidratação, uso de diuréticos e estratégias extremas de definição corporal, práticas comuns em alguns contextos de fisiculturismo", alerta o Dr. Maurizio Pupo.

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Com isso, os rins passam a trabalhar no limite e podem surgir lesões nos vasos renais e quadros como a glomerulosclerose segmentar e focal, quando partes dos glomérulos, que são responsáveis pela filtração do sangue, sofrem cicatrização. "Esse processo pode levar à perda progressiva da função renal e, nos casos mais graves, à insuficiência renal crônica", acrescenta.

Outros efeitos visíveis do uso de anabolizantes

Além dos danos invisíveis, o uso de anabolizantes também pode causar outras alterações estéticas, como queda de cabelo e acne, segundo a Dra. Patricia Magier, ginecologista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). "E nas mulheres, principalmente, pode acontecer virilização, isto é, elas começam a notar aumento do clitóris, mudança da voz, que fica mais grossa, e outras características masculinas", detalha a médica.

Mulheres com prótese de mama também podem sofrer com alterações no resultado da cirurgia devido ao uso de anabolizantes. "Os anabolizantes mudam a composição corporal. Eles tendem a diminuir a quantidade de gordura e aumentar a quantidade de músculo dos pacientes. No caso de uma paciente que tem a prótese nas mamas, principalmente localizada acima do músculo e em contato muito próximo com a pele, em um tecido mamário que atrofiou muito pela perda de gordura, a prótese pode ficar muito colada na pele, causando alterações que chamamos de rippling, que são deformidades", explica o cirurgião plástico Dr. Carlos Manfrim, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

A diferença entre reposição hormonal e uso estético

É importante, no entanto, não confundir o uso de esteroides anabolizantes em doses suprafisiológicas com a reposição hormonal chamada de fisiológica, feita com hormônios bioidênticos. "A reposição hormonal é feita em pacientes que estão na menopausa, com insuficiência de determinado hormônio depois dos 40 anos. O objetivo é devolver aquilo que a paciente não está conseguindo produzir. Já o uso de esteroides anabolizantes em doses suprafisiológicas, acima do que é considerado o ideal para cada pessoa, é usado principalmente com finalidade estética", finaliza a ginecologista Dra. Patrícia Margier.

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