Trabalhar doente virou regra? Entenda o presenteísmo e seus riscos para a saúde e a produtividade

A cultura de "trabalhar doente", conhecida como presenteísmo, tornou-se um fenômeno comum em diferentes setores da economia. Entenda o fato e seus ricos para a saúde e produtividade.

6 mai 2026 - 13h00

A cultura de "trabalhar doente", conhecida como presenteísmo, tornou-se um fenômeno comum em diferentes setores da economia. Em vez de faltar ao trabalho quando estão com problemas de saúde física ou mental, muitos profissionais continuam cumprindo jornada normalmente, mesmo sem condições ideais. Esse comportamento é visto em escritórios, fábricas, comércio e serviços, e costuma estar ligado a fatores como medo de perder o emprego, pressão por metas e ausência de suporte adequado das empresas.

O presenteísmo nem sempre é facilmente percebido. Em muitos casos, o trabalhador está fisicamente presente, mas com concentração reduzida, dor constante, ansiedade intensa ou exaustão. À primeira vista, pode parecer comprometimento, porém, na prática, representa um sinal de alerta. A manutenção dessa rotina, sem tempo adequado para descanso e tratamento, acaba gerando consequências para a saúde do indivíduo, para os resultados da organização e para a economia como um todo.

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A cultura de “trabalhar doente”, conhecida como presenteísmo, tornou-se um fenômeno comum em diferentes setores da economia – depositphotos.com / AndrewLozovyi
A cultura de “trabalhar doente”, conhecida como presenteísmo, tornou-se um fenômeno comum em diferentes setores da economia – depositphotos.com / AndrewLozovyi
Foto: Giro 10

O que é presenteísmo e por que tantos trabalham doentes?

O presenteísmo no trabalho ocorre quando o funcionário permanece em atividade mesmo estando adoecido, em vez de se afastar para se recuperar. Ao contrário do absenteísmo, que é a falta ao serviço, o presenteísmo é mais silencioso, porque não aparece nos registros de ausência, mas impacta o desempenho diário. Essa cultura é reforçada em ambientes onde faltar é visto como sinal de fraqueza ou descompromisso.

Entre as razões mais frequentes para que pessoas insistam em trabalhar doentes estão:

  • Medo de demissão ou de que a ausência prejudique futuras promoções;
  • Pressão por resultados e metas agressivas, que desencorajam pausas para cuidar da saúde;
  • Insegurança financeira, especialmente em contextos de desemprego elevado;
  • Cultura organizacional que valoriza jornadas longas e disponibilidade permanente;
  • Falta de informação sobre direitos trabalhistas e acesso a atestados médicos e apoio psicológico.

Esse cenário é ainda mais nítido em casos de sofrimento mental, como ansiedade e depressão, que muitas vezes não são reconhecidos de imediato como motivos legítimos para afastamento.

Quais são os riscos do presenteísmo para a saúde do trabalhador?

Trabalhar doente, seja com problemas físicos ou emocionais, aumenta a chance de agravamento das doenças. Gripes simples podem evoluir para quadros mais sérios, dores musculares podem se tornar lesões crônicas, e transtornos mentais podem ganhar intensidade, exigindo tratamentos mais longos. A falta de repouso adequado e o adiamento da procura por atendimento médico atrasam o diagnóstico e a recuperação.

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Além disso, o presenteísmo tende a provocar queda acentuada de produtividade. O profissional presente, porém debilitado, encontra mais dificuldade em manter foco, lembrar tarefas, tomar decisões e lidar com situações de pressão. Isso aumenta a probabilidade de erros e retrabalho. Em médio prazo, a sobrecarga acumulada pode levar a:

  • Afastamentos mais longos no futuro;
  • Maior risco de afastamento por burnout e transtornos relacionados ao estresse;
  • Dependência de medicamentos para suportar a rotina;
  • Impactos na vida pessoal e familiar, com piora da qualidade do sono e do bem-estar.

O ciclo se torna repetitivo: o trabalhador evita faltar, piora a própria condição de saúde e, mais à frente, precisa se afastar por períodos prolongados.

Impactos do presenteísmo para empresas e para a economia

Do ponto de vista das organizações, o presenteísmo nas empresas gera custos indiretos significativos. Como a produtividade cai, a empresa passa a produzir menos com o mesmo número de pessoas, ou precisa de mais tempo e recursos para entregar o mesmo volume de trabalho. Isso se reflete em atrasos, diminuição da qualidade e perda de competitividade.

Entre os principais impactos para os negócios, destacam-se:

  1. Erros operacionais, que podem gerar desperdícios, retrabalho ou falhas em serviços;
  2. Perda de eficiência, já que o desempenho médio da equipe diminui quando vários membros estão adoecidos;
  3. Aumento do risco de acidentes em atividades que exigem atenção constante, como operações industriais ou transporte;
  4. Custos indiretos com treinamento de substitutos, seguros, ações judiciais e rotatividade.

Para a economia, a soma desses efeitos representa menor produtividade geral, mais gastos com saúde pública e previdência social, além de impacto na renda das famílias quando há afastamentos prolongados. Estudos de diferentes países apontam que o presenteísmo pode representar perdas financeiras superiores ao próprio absenteísmo, justamente por ser menos visível e mais duradouro.

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Pressão por resultados, medo e ausência de políticas de saúde

A cultura do presenteísmo está intimamente ligada ao modo como o trabalho é organizado. Ambientes que reforçam a ideia de "não parar nunca", em que ficar doente é visto como fraqueza, alimentam o comportamento de permanecer em atividade mesmo em situações de risco. Em alguns casos, há relatos de metas diárias difíceis de cumprir, avaliação individual excessivamente competitiva e cobrança por disponibilidade fora do horário contratual.

Outro componente é a falta de políticas de apoio à saúde. Empresas que não oferecem canais claros para apresentação de atestados, não possuem programas de saúde ocupacional estruturados ou não divulgam informações sobre saúde mental acabam dificultando o acesso a cuidados. Em cenários de trabalho informal ou com baixa estabilidade, o temor de perder a vaga por faltas médicas também favorece o presenteísmo.

Por outro lado, experiências de gestão mais cuidadosas mostram que a criação de rotinas de acompanhamento de saúde, campanhas internas de conscientização e abertura para diálogo com lideranças podem reduzir significativamente a prática de trabalhar doente. Isso inclui tanto a saúde física quanto a saúde emocional, muitas vezes negligenciada.

A cultura do presenteísmo está intimamente ligada ao modo como o trabalho é organizado – depositphotos.com / VitalikRadko
Foto: Giro 10

Como a legislação trabalhista e a boa gestão abordam o presenteísmo?

A legislação trabalhista brasileira prevê direitos básicos relacionados à saúde do trabalhador, como repouso semanal, férias, adicionais em atividades insalubres e possibilidade de afastamento com apresentação de atestado médico. Em casos de incapacidade temporária, o sistema de seguridade social oferece suporte financeiro, desde que preenchidos os requisitos legais. Esses instrumentos têm o objetivo de proteger a integridade física e mental dos profissionais.

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No entanto, a existência de direitos formais não impede, por si só, a cultura do presenteísmo. Em muitas situações, o medo de represálias, a falta de informação sobre procedimentos ou a percepção de que a empresa valoriza apenas quem "nunca falta" acabam enfraquecendo a aplicação prática dessas garantias. Por isso, além da legislação, as boas práticas de gestão têm papel central.

Entre as medidas adotadas por organizações que buscam ambientes mais saudáveis, destacam-se:

  • Programas de promoção de saúde e prevenção de doenças, com ações educativas;
  • Políticas claras de acolhimento de atestados médicos e retorno ao trabalho;
  • Treinamento de líderes para identificar sinais de adoecimento na equipe;
  • Flexibilização de jornada em casos específicos, quando compatível com a função;
  • Incentivo explícito para que trabalhadores procurem ajuda médica e psicológica.

A construção de um ambiente de trabalho mais saudável passa por reconhecer que cuidar da saúde não é falta de comprometimento, mas condição para a continuidade das atividades profissionais. Ao reduzir o presenteísmo, empresas preservam a força de trabalho, melhoram resultados de longo prazo e contribuem para uma economia mais sustentável e equilibrada.

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