Surto de hantavírus: quais são os maiores riscos de saúde a bordo de um navio de cruzeiro?

Navios favorecem a disseminação de doenças por serem ambientes fechados e de alta circulação, mas caso de hantavírus em cruzeiros é incomum, diz infectologista

6 mai 2026 - 13h21
Até agora, sete casos foram identificados: dois confirmados para hantavírus e cinco suspeitos
Até agora, sete casos foram identificados: dois confirmados para hantavírus e cinco suspeitos
Foto: Reuters / BBC News Brasil

A Organização Mundial da Saúde (OMS) investiga a possibilidade de uma rara transmissão de hantavírus entre passageiros do navio holandês MV Hondius — três pessoas que estavam a bordo já morreram desde o início da atual viagem da embarcação.

Segundo a OMS, apesar do surto no navio, o risco para o público em geral é baixo e não há recomendação de restrições de viagem.

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A embarcação partiu de Ushuaia, na Argentina, em 1º de abril com 174 pessoas a bordo. O cruzeiro percorreu regiões remotas do Atlântico Sul, incluindo Antártica, Geórgia do Sul, Tristan da Cunha, Santa Helena e Ilha de Ascensão.

No dia 2 de maio, a OMS foi oficialmente comunicada sobre casos de doença respiratória aguda grave a bordo do navio.

No mesmo dia, exames realizados na África do Sul confirmaram infecção por hantavírus em um dos pacientes internados em terapia intensiva.

Até agora, sete casos foram identificados — dois confirmados laboratorialmente e cinco suspeitos. Entre os três mortos, uma mulher holandesa teve diagnóstico confirmado para hantavírus. As outras duas mortes seguem sob investigação.

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Até terça-feira (5/5), o navio permanecia ancorado próximo a Cabo Verde. Mas, segundo autoridades locais, o país não tinha estrutura suficiente para conduzir toda a operação sanitária e médica necessária.

O Ministério da Saúde da Espanha informou que receberia o MV Hondius nas Ilhas Canárias no próximo final de semana, "em conformidade com o direito internacional e os princípios humanitários".

Passageiros sintomáticos foram retirados da embarcação e, segundo o ministro da Saúde da Espanha, os demais passageiros não apresentam sintomas.

A decisão, no entanto, gerou reação política nas Canárias. O presidente do governo regional, Fernando Clavijo, afirmou ser contrário à autorização para que o navio atraque no arquipélago.

"Se os passageiros estão seguros e saudáveis, não faz sentido que precisem ir às Ilhas Canárias para serem repatriados. Isso poderia ser feito a partir do aeroporto internacional de Cabo Verde", disse.

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Infográfico mostra rota do navio que saiu da Argentina rumo à Cabo Verde
Foto: BBC News Brasil

O surto a bordo também reacendeu uma pergunta que ganhou força durante a pandemia de Covid-19: afinal, cruzeiros são ambientes seguros do ponto de vista sanitário?

A infectologista Elba Lemos, pesquisadora do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e coordenadora so serviço de referência na área para o Ministério da Saúde, afirma que ainda é cedo para concluir se houve transmissão dentro da embarcação ou se os passageiros foram infectados antes do embarque.

"Para a gente chegar a uma conclusão, está faltando algo que é fundamental: procurar todos os dados clínicos e epidemiológicos", disse Lemos à BBC News Brasil.

"Onde essas pessoas estiveram, se elas tiveram locais de exposição e o que elas fizeram. Isso ainda não temos."

Segundo a OMS, há indícios de que a primeira pessoa infectada possa ter embarcado já contaminada. A organização também afirmou que investiga se os casos estão ligados à cepa Andes e possibilidade de transmissão "entre contatos realmente próximos" dentro do navio.

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Lemos afirma que o principal cuidado neste momento é evitar conclusões precipitadas ou alarmismo. "É muito importante a gente ter mais informação para poder ter um embasamento", afirmou. "O que aconteceu foi algo inusitado."

Ambientes fechados e de alta circulação

Em outubro do ano passado, mais de 90 passageiros e tripulantes de um cruzeiro da Royal Caribbean adoeceram durante uma viagem iniciada em San Diego, nos Estados Unidos.

O navio Serenade of the Seas registrou um surto de norovírus, causador de infecções gastrointestinais, antes de sua parada final em Miami, segundo informações do Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

Em janeiro deste ano, o vírus também afetou passageiros e tripulantes do navio Rotterdam, da companhia Holland America Line, que partiu da Flórida. De acordo com autoridades de saúde, mais de 80 pessoas apresentaram sintomas durante a viagem.

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Navios de cruzeiro reúnem características que favorecem a disseminação de doenças infecciosas: grande circulação internacional de pessoas, ambientes compartilhados, convivência prolongada e espaços fechados.

"O que caracteriza um navio? Um ambiente fechado, estanque, com sistema de ar, tudo confinado", lista a infectologista. "É só você imaginar dentro da sua casa um ambiente restrito. O que vai acontecer? Uma propagação."

Historicamente, surtos em cruzeiros costumam envolver vírus respiratórios ou gastrointestinais, como influenza, sarampo, Covid-19 e norovírus.

Além do confinamento, comportamentos típicos de viagens de lazer também influenciam a propagação, segundo a infectologista. "As pessoas estão ali para se divertir. Até isso interfere, porque muitas vezes as medidas básicas de higiene deixam a desejar."

A pandemia voltou a colocar os navios em cena. Em 2020, o navio Diamond Princess ficou em quarentena na costa do Japão após registrar centenas de casos da doença. Mais de 700 passageiros e tripulantes teriam sido infectados antes da evacuação.

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Nos primeiros meses da pandemia, mais de 40 cruzeiros registraram casos de Covid-19. O impacto foi tão grande que empresas passaram a desmontar embarcações antigas diante do colapso do setor.

Lemos afirma, porém, que o hantavírus é muito diferente da Covid-19 em termos de transmissibilidade. "Não existe [no caso atual] possibilidade de uma epidemia igual à Covid", disse.

O ambiente propício para transmissibilidade de doeças não significa necessariamente que cruzeiros sejam intrinsecamente inseguros. Lemos afirma que o setor opera hoje sob regras sanitárias mais rígidas do que antes da pandemia.

Segundo a pesquisadora, hoje há regras rigorosas para climatização, manipulação de alimentos, descarte de resíduos, controle da água, monitoramento de vetores e avaliação sanitária de passageiros e tripulantes.

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Ela ressalta, no entanto, que a avaliação detalhada desses protocolos cabe a órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). "Não pode mais ser uma coisa amadora", afirmou.

Hantavírus: por que o caso é considerado atípico

O hantavírus é um grupo com mais de 20 espécies de vírus, transmitido principalmente por roedores silvestres, por meio da inalação de partículas presentes na urina, fezes ou saliva dos animais. A infectologista destaca que o vírus não está associado a ratos urbanos.

"É muito importante que a gente diga isso, porque não é a ratazana, não é o camundongo, e se trata de roedores silvestres."

Segundo ela, os hantavírus não são descobertas novas , circulam há décadas nas Américas e estão ligados a diferentes espécies de roedores conforme a região. No Brasil, por exemplo, as variantes como Juquitiba e Araraquara já foram identificadas desde os anos 1990. Desde então, o país registrou pouco mais de 2 mil casos, afirma a infectologista.

Ela afirma que as pessoas que se infectam geralmente são pessoas que moram em área rural.

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"São pessoas que, por exemplo, têm poder aquisitivo mais baixo, não é um grande fazendeiro, não tem silos, tem aquela sua pequena plantação de milho e bota a colheita no quartinho da sua casa de forma inadequada, que pode ser alimento para o roedor. Ali o animal evacua, urina e a pessoa entra em contato com o vírus no local."

"Em termos de transmissão, isso é o que predomina para todos os hantavírus, de todas as espécies. Mas o vírus Andes tem uma peculiaridade que há uma possibilidade de transmissão pessoa a pessoa."

Este tipo de transmissão é considerada excepcional e foi documentada principalmente com a cepa Andes, encontrada na Argentina e no Chile. Por isso, segundo Lemos, o surgimento de casos em um cruzeiro é algo incomum. "Não é um ambiente esperado para hantavírus dentro de um navio", disse.

Os hantavírus podem podem causar duas grandes síndromes: uma renal hemorrágica, comum em cepas encontradas na Europa e Ásia; e outra pulmonar, mais ligada ao continente americano.

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"Essa diferença se dá porque os roedores nativos da Europa são muito diferentes daqui, como os também do Brasil também são diferentes da Argentina ou dos Estados Unidos. Cada espécie de roedor, de uma forma simplificada, tem um vírus específico. O vírus da cepa Andes, que preocupa agora, está associado com uma espécie de um roedor lá na Argentina, que é o Oligoryzomys longicaudatus [rato-de-rabo-longo]."

Hantavírus é um grupo com mais de 20 espécies de vírus
Foto: Centros de Controle e Prevenção de Doenças via Reuters / BBC News Brasil

Apesar de rara, a doença preocupa pela alta letalidade. "Entre 100 pessoas que adoecem de dengue, cinco podem evoluir para o óbito. Na hantavirose, pode ser de 20% a 50%", disse.

Ela afirma que ainda há muitas hipóteses em aberto. Uma delas é que os passageiros tenham sido infectados antes do embarque — especialmente durante viagens por áreas rurais da Patagônia argentina, onde o vírus circula.

"O período de incubação pode variar de três a 60 dias", afirmou. "Eles podem ter se infectado um mês antes."

Outra hipótese considerada pelas autoridades é uma rara transmissão entre pessoas em contatos íntimos dentro do navio. Mas Lemos afirma que também é preciso considerar, ainda que remotamente, a possibilidade de contaminação por alimentos ou materiais expostos a roedores.

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"Quando a gente investiga, precisa considerar até a hipótese menos provável", disse. Mas ela ressalta que uma falha sanitária estrutural dentro da embarcação parece pouco provável neste momento. "É possível? É possível. Mas pouquíssimo provável."

O risco é motivo para preocupação?

Por enquanto, organismos internacionais não tratam o episódio como uma ameaça ampla à saúde pública. A OMS ressalta que a maioria das atividades turísticas rotineiras apresenta pouco ou nenhum risco de exposição ao hantavírus.

A entidade recomenda monitoramento de sintomas, higiene frequente das mãos, ventilação adequada e isolamento de passageiros sintomáticos.

Já Lemos afirma que viagens de cruzeiro exigem os mesmos cuidados recomendados para outros ambientes fechados e de grande circulação.

A infectologista diz que viagens de cruzeiro exigem os mesmos cuidados recomendados para outros ambientes fechados e com grande circulação de pessoas, como atenção à vacinação, higiene frequente das mãos e cautela diante de sintomas respiratórios.

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Pessoalmente, a médica afirma que não se sente confortável em espaços confinados por longos períodos, embora ressalte que navios operam hoje sob forte vigilância sanitária.

"Eu já fiz cruzeiro, mas não me sinto confortável", conta. "Como médica, até no avião, se vejo uma pessoa espirrando ou tossindo, me incomoda."

Segundo ela, a preocupação vai além de navios. "Estamos falando de um cruzeiro, que tem toda uma exigência sanitária. Agora imagina ambientes que a gente frequenta e em que você não sabe se existe manutenção adequada do sistema de ar-condicionado, dos filtros, qual é o rigor daquele local."

Ela também defende que viajantes recebam mais orientação sobre riscos sanitários específicos dos destinos visitados.

"É muito importante que quem vai viajar saiba o que acontece onde vai", afirmou. "Você vai para o Amazonas? Tem que saber quais doenças circulam ali. Vai para a Argentina? Precisa entender quais são os riscos daquela região. Informação faz parte da prevenção."

Segundo ela, profissionais do turismo deveriam ser mais preparados para orientar passageiros sobre doenças endêmicas e riscos locais.

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A Oceanwide Expeditions, que opera o navio holandês MV Hondius, afirma que continua respondendo à situação médica em andamento a bordo do navio. Segundo a empresa, a "saúde e a segurança de todos os passageiros e tripulantes" seguem como prioridade máxima.

A empresa afirmou ainda que a embarcação opera sob protocolos médicos e sanitários.

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