A síndrome de Pica é um transtorno alimentar em que a pessoa passa a ingerir, de forma recorrente, substâncias que não são consideradas alimentos, como terra, gelo, papel, sabão ou cabelo. Esse comportamento costuma durar pelo menos um mês e acontece fora de contextos culturais em que a prática seria aceita. Dessa forma, o quadro chama a atenção de profissionais de saúde porque pode trazer riscos importantes ao organismo. Ademais, costuma associar-se a outras condições médicas ou emocionais.
O nome do transtorno tem origem no latim Pica, que designa aves como a pega-rabuda, conhecidas pelo hábito de pegar e bicar objetos variados, brilhantes ou sem valor nutritivo. A associação ocorreu justamente pela característica de "comer o que aparece", sem relação com uma alimentação usual. Ao longo das últimas décadas, a síndrome de Pica passou a ser alvo de estudos na psiquiatria e na nutrição, com protocolos específicos de diagnóstico e tratamento.
O que é a Síndrome de Pica e como ela se manifesta?
A síndrome de Pica é um transtorno de ingestão alimentar. O critério central é o consumo persistente de itens não alimentares, que não se adequam para o desenvolvimento e para a cultura em que a pessoa se insere. Esse comportamento não é explicado por curiosidade típica da infância, por práticas religiosas ou por escassez extrema de comida. Em muitos casos, o indivíduo mantém refeições habituais, mas adiciona substâncias sem valor nutricional à rotina diária.
Profissionais de saúde costumam observar alguns sinais de alerta. Entre eles, o uso repetido de certos objetos na boca, tentativas de esconder o comportamento, presença de resíduos nas roupas ou na casa e queixas físicas frequentes, como dor abdominal, constipação ou diarreia. Em contextos hospitalares, a síndrome de Pica também pode ser identificada após achados em exames de imagem, que revelam corpos estranhos no sistema digestivo.
Sintoma, transtorno alimentar ou hábito passageiro?
Nem toda ingestão de substâncias estranhas entra no conceito de síndrome de Pica. Por exemplo, em crianças pequenas é comum explorar o ambiente levando objetos à boca, o que, em geral, desaparece com o desenvolvimento. A suspeita do transtorno aparece quando o comportamento é persistente, inadequado para a idade e provoca algum tipo de prejuízo à saúde física ou ao convívio social. Ademais, em pessoas com deficiência intelectual ou transtorno do espectro autista, o diagnóstico exige avaliação cuidadosa do contexto e da frequência do ato.
Na prática clínica, a síndrome de Pica pode surgir como manifestação de outro problema, como anemia grave, transtornos de ansiedade, depressão, esquizofrenia ou quadros de demência. Nesses casos, o comportamento de ingerir itens não alimentares aparece como um sintoma dentro de um conjunto maior de alterações. Assim, a importância do diagnóstico está justamente em investigar o que está por trás da ingestão inadequada.
Síndrome de Pica: quais substâncias costumam ser ingeridas?
As substâncias ingeridas na síndrome de Pica variam bastante conforme a região, a cultura e a história de vida da pessoa. Assim, algumas estão descritas com mais frequência na literatura médica, recebendo inclusive nomes específicos. Entre os exemplos mais relatados estão itens sólidos e facilmente acessíveis no cotidiano doméstico, escolar ou laboral.
- Geofagia: ingestão de terra, barro ou argila;
- Pagofagia: ato de mastigar e consumir grandes quantidades de gelo;
- Amilofagia: consumo de amido, como fécula ou pó de lavagem de roupas;
- Tricofagia: ingestão de cabelo, fios ou pelos;
- Consumo de papel, papelão, algodão, giz, sabão, cinzas de cigarro, plástico ou borracha.
Essas substâncias podem provocar diferentes tipos de complicações. Terra e argila, por exemplo, associam-se a parasitoses intestinais e alterações na absorção de nutrientes. Por sua vez, cabelos podem formar massas compactas no estômago, conhecidas como tricobezoares, que às vezes exigem intervenção cirúrgica. Por fim, bjetos pontiagudos ou com componentes tóxicos elevam o risco de perfurações, intoxicações e outros quadros de urgência médica.
Quais são as possíveis causas da síndrome de Pica?
As causas da síndrome de Pica são multifatoriais. Um dos fatores que são alvo de investigações é a deficiência nutricional, especialmente de ferro e zinco. Afinal, estudos descrevem que, em alguns casos, o comportamento de ingerir terra, argila ou gelo surge em pessoas com anemia ferropriva, e diminui quando os níveis de nutrientes são corrigidos. Ainda não há consenso sobre o mecanismo exato, mas a associação é documentada em diferentes países.
Aspectos psicológicos e psiquiátricos também aparecem ligados ao transtorno. A ingestão de substâncias não alimentares pode funcionar como forma de aliviar tensão, lidar com ansiedade, preencher sensação de vazio ou seguir um impulso difícil de controlar. Em indivíduos com transtornos obsessivo-compulsivos, transtornos do espectro autista, esquizofrenia ou quadros demenciais, a síndrome de Pica pode fazer parte do conjunto de sintomas apresentados.
Outros fatores frequentemente citados incluem:
- Contexto social e ambiental: ambientes com negligência, violência ou ausência de supervisão podem favorecer o surgimento e a manutenção do comportamento;
- Práticas culturais: em algumas regiões, o consumo de barro ou argila tem significados tradicionais ou religiosos; nesse caso, o diagnóstico exige cuidado para diferenciar hábito cultural de transtorno;
- Histórico de internações prolongadas: em instituições, a limitação de estímulos e a ociosidade podem contribuir para comportamentos repetitivos, entre eles a ingestão de objetos.
Quem é mais afetado pela Síndrome de Pica?
A síndrome de Pica pode ocorrer em diferentes faixas etárias, mas é descrita com maior frequência em crianças, gestantes e pessoas com transtornos do desenvolvimento. Em crianças, o comportamento costuma aparecer entre os 2 e 6 anos, exigindo avaliação para distinguir exploração normal do ambiente de um padrão persistente e arriscado. Em mulheres grávidas, relatos de desejo por gelo, terra ou amido são associados tanto a alterações hormonais quanto a possíveis carências nutricionais.
Adultos com deficiência intelectual, transtorno do espectro autista ou transtornos psiquiátricos graves também aparecem com destaque nas estatísticas. Nesses grupos, o acompanhamento costuma envolver equipes multidisciplinares, com atuação conjunta de psiquiatras, psicólogos, nutricionistas e outros profissionais. Em idosos, a síndrome de Pica é menos comum, mas pode surgir em contextos de demência, solidão ou institucionalização.
Como é feita a avaliação e quais são os cuidados recomendados?
O diagnóstico da síndrome de Pica é clínico, baseado em entrevista detalhada, observação do comportamento e investigação de fatores de risco. Profissionais de saúde costumam solicitar exames para verificar anemia, alterações metabólicas, presença de parasitas ou danos ao trato gastrointestinal. Em alguns casos, exames de imagem ajudam a identificar corpos estranhos alojados no estômago ou nos intestinos.
Os cuidados propostos envolvem, em geral, três frentes principais:
- Correção de deficiências nutricionais: suplementação de ferro, zinco e outros micronutrientes, quando necessário;
- Acompanhamento psicológico ou psiquiátrico: intervenções para lidar com ansiedade, impulsividade, transtornos associados e aprendizado de estratégias de controle;
- Ajustes ambientais: supervisão adequada, redução do acesso às substâncias ingeridas e orientação a familiares, cuidadores e equipes escolares.
A síndrome de Pica chama a atenção pela complexidade de suas causas e pelos riscos envolvidos, mas também por ser um indicador importante da saúde global da pessoa. Quando identificada e manejada de forma precoce, a condição permite atuação direcionada sobre carências nutricionais, fatores emocionais e contextos de vulnerabilidade, favorecendo não apenas a redução do comportamento, mas também uma melhor qualidade de vida.