Uma criança que tropeça muito, tem dificuldade para correr ou parece insegura ao pular pode estar apenas desenvolvendo essas habilidades no próprio ritmo. Mas, em algumas crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), dificuldades motoras podem fazer parte desse quadro e interferir nas atividades do dia a dia.
Isso não significa que toda pessoa autista tenha problemas motores. O espectro é amplo e as características variam bastante.
No entanto, pesquisas mostram que dificuldades relacionadas à coordenação, ao equilíbrio e a outros aspectos do desenvolvimento motor são frequentes entre crianças com TEA.
Por isso, observar como a criança se movimenta também pode fazer parte do acompanhamento do desenvolvimento.
Dificuldades motoras no autismo: o que pode mudar na forma de andar
Caminhar parece uma tarefa simples, mas exige equilíbrio, coordenação e ajustes constantes do corpo.
Pesquisas sobre a marcha de crianças com autismo encontraram algumas diferenças em relação a crianças sem TEA.
Entre os achados estão maior variação entre os passos, passada mais larga e menor estabilidade durante a caminhada. Para outras características, como o comprimento dos passos e o ritmo, os resultados ainda não são conclusivos.
A fisioterapeuta Nathalia Barreto Castro Leitão explica por que a marcha pode revelar dificuldades que vão além do jeito de caminhar.
"A marcha depende da integração entre equilíbrio, coordenação, força muscular, planejamento motor e processamento sensorial. Quando existe alguma dificuldade nesses sistemas, podem surgir padrões compensatórios que afetam a mobilidade, a postura e a participação da criança em atividades do dia a dia. Por isso, a avaliação precoce é tão importante", explica.
6 sinais que os pais podem perceber
Nem sempre a dificuldade motora aparece de forma evidente. Às vezes, ela fica mais clara durante brincadeiras ou atividades que exigem maior coordenação.
Alguns sinais que merecem ser observados são:
- Tropeçar ou cair com frequência;
- Ter dificuldade persistente para correr ou pular;
- Apresentar problemas para manter o equilíbrio;
- Demonstrar pouca coordenação em determinadas atividades;
- Evitar brincadeiras ou esportes que envolvam movimentos mais complexos;
- Ter dificuldades motoras que atrapalham tarefas da escola ou de autonomia.
Um desses sinais, sozinho, não significa que exista um transtorno motor. O que importa é observar se a dificuldade persiste e se começa a limitar a rotina da criança.
Segundo Silvia Kelly Bosi, neuropsicopedagoga especialista em autismo, essas questões podem acabar ficando em segundo plano.
"Muitas vezes os pais observam que a criança tropeça com frequência, anda de forma diferente, apresenta desalinhamentos corporais ou dificuldade para realizar movimentos simples. Como o foco normalmente está em outras demandas do autismo, essas questões podem acabar sendo subestimadas", explica.
Nathalia acrescenta:
"Muitas famílias acreditam que essas dificuldades fazem parte apenas do perfil da criança, quando na verdade podem indicar alterações motoras que merecem acompanhamento especializado. Quanto mais cedo essas questões são identificadas, maiores são as possibilidades de intervenção e desenvolvimento funcional", destaca.
Dificuldades motoras no autismo / Fonte: Magnific
Equilíbrio e percepção do próprio corpo
Para correr, subir uma escada ou desviar de um obstáculo, a criança precisa perceber onde seu corpo está e ajustar os movimentos de acordo com o ambiente.
Essa percepção é parte do que se costuma chamar de consciência corporal. No autismo, diferenças no processamento sensorial podem estar associadas a dificuldades de movimento e equilíbrio em algumas pessoas.
Para Silvia, trabalhar essa percepção pode ter efeitos que vão além da própria movimentação.
"A conscientização corporal ajuda a pessoa a entender como seu corpo funciona e como ele se relaciona com o ambiente. Quando esse processo é estimulado adequadamente, observamos ganhos importantes na coordenação motora, na estabilidade, na postura e até na participação em atividades escolares, esportivas e sociais", destaca a profissional.
Para Nathalia, os efeitos também podem aparecer na independência da criança.
"Quando a criança compreende melhor seu corpo e seus movimentos, ela passa a executar atividades com mais segurança e eficiência. Isso favorece a independência, a confiança e a participação em diferentes contextos sociais e educacionais", afirma.
Quando procurar avaliação
A questão não é buscar uma postura perfeita ou esperar que toda criança autista se movimente da mesma maneira.
O sinal de alerta é quando uma dificuldade é frequente ou começa a atrapalhar atividades que fazem parte da rotina.
Quedas recorrentes, dificuldade para participar de brincadeiras, problemas para realizar tarefas esperadas para a idade ou limitações que afetam a autonomia podem justificar uma conversa com o profissional que acompanha a criança.
A partir dessa avaliação, pode haver indicação de acompanhamento específico, como fisioterapia ou terapia ocupacional, dependendo da necessidade.
E não existe um exercício ou método que sirva para todas as pessoas autistas.
Pesquisas sobre intervenções para equilíbrio e controle postural mostram resultados variados, reforçando a importância de considerar as características e necessidades de cada criança.
Por isso, o objetivo não deve ser simplesmente "corrigir" a maneira como uma criança autista se movimenta. O mais importante é ajudá-la a realizar as atividades da vida diária com mais segurança, conforto e independência.
Silvia resume essa perspectiva:
"O objetivo é ensinar o cérebro a construir padrões motores mais eficientes. Quanto mais cedo isso acontece, maiores são as chances de prevenir compensações que podem gerar deformidades ou limitações funcionais no futuro", explica.
A evidência científica, porém, é mais consistente ao mostrar diferenças motoras e de equilíbrio do que ao estabelecer que essas alterações necessariamente levarão a deformidades.
Por isso, essa possibilidade não deve ser apresentada como uma consequência inevitável do autismo.
Autismo não significa ter um problema motor
Dificuldades motoras podem acompanhar o TEA, mas não estão presentes da mesma maneira em todas as pessoas autistas.
Além disso, tropeçar, ter dificuldade para correr ou apresentar problemas de equilíbrio não é suficiente para indicar autismo.
O mais importante é perceber se existe uma dificuldade persistente e se ela interfere na vida da criança.
Como reforça Nathalia:
"Cada pessoa com autismo possui características motoras e sensoriais próprias. Por isso, o acompanhamento deve ser individualizado e construído de forma multidisciplinar. Quando diferentes profissionais e familiares trabalham em conjunto, os ganhos em mobilidade, funcionalidade e qualidade de vida tendem a ser mais consistentes e duradouros", conclui Nathalia.
No fim, mais importante do que observar se uma criança anda de um jeito diferente é perceber se essa diferença está impedindo que ela brinque, participe, aprenda ou realize atividades do cotidiano.
Quando isso acontece, vale investigar. Não para buscar uma "postura ideal", mas para entender se existe alguma dificuldade que possa ser trabalhada.
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