Em diferentes partes do mundo, um grupo relativamente pequeno de pessoas com mais de 80 anos chama atenção de pesquisadores. São idosos que lembram datas, nomes e detalhes do dia a dia com a mesma agilidade de pessoas décadas mais jovens. Assim, esse grupo de superidosos virou foco de estudos que buscam entender por que, em alguns cérebros, o envelhecimento parece ocorrer em ritmo mais lento, preservando memória, atenção e raciocínio.
Nos últimos anos, avanços em exames de imagem e análises de tecidos cerebrais permitiram observar algo que até pouco tempo era considerado improvável. Ou seja, em certos superidosos, o cérebro continua produzindo novas células nervosas, mesmo em idades avançadas. Assim, essa capacidade, que tem o nome de neurogênese, aparece como uma das possíveis chaves para explicar como parte da população acima dos 80 anos consegue manter a mente afiada, apesar das mudanças naturais do envelhecimento.
Neurogênese em superidosos: o que a ciência já sabe?
A palavra-chave nessa discussão é neurogênese, o processo de formação de novos neurônios ao longo da vida. Assim, pesquisas recentes com superidosos indicam que, em regiões como o hipocampo — área central para memória e aprendizagem —, a produção de novas células nervosas continua ativa após os 80 anos. Estudos de autópsia e exames por ressonância magnética sugerem que esses cérebros mantêm uma densidade maior de neurônios e conexões sinápticas. Além disso, têm menos sinais de inflamação crônica.
Os cientistas destacam alguns fatores que costumam se associar a essa preservação. Entre eles estão um bom controle de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, maior nível de escolaridade, prática regular de atividades cognitivamente desafiadoras e interação social frequente. Assim, embora não exista um único elemento determinante, a combinação desses fatores parece criar um ambiente favorável para que o cérebro continue se reorganizando e compensando perdas naturais. Ou seja, um fenômeno que recebe o nome de plasticidade cerebral.
Como o entendimento sobre o envelhecimento cerebral mudou ao longo do tempo?
Por décadas, prevaleceu a ideia de que o cérebro atingia um "pico" na idade adulta e depois entrava em declínio inevitável. Até o fim do século XX, muitos manuais de neurologia ensinavam que a produção de neurônios parava ainda na juventude. Assim, o envelhecimento cerebral era visto quase exclusivamente como um processo de perda. Ou seja, menos células, menos conexões e menor capacidade de aprender coisas novas.
A partir dos anos 1990, essa visão passou a ser alvo de contestações. Experimentos com animais mostraram que, em áreas específicas, o cérebro adulto continuava formando novos neurônios. Mais tarde, pesquisas com humanos identificaram sinais de neurogênese adulta em idosos. Ao mesmo tempo, o acompanhamento de superidosos revelou que alguns octogenários e nonagenários apresentavam desempenho em testes de memória equiparável ao de pessoas muito mais jovens. Portanto, isso abriu espaço para um novo paradigma: o envelhecimento cerebral não é igual para todos e pode ser influenciado por hábitos, ambiente e genética.
Manter a mente afiada depois dos 80 é possível para qualquer pessoa?
Os pesquisadores evitam generalizações. A condição de superidoso parece resultar de uma combinação complexa de fatores biológicos, sociais e comportamentais. Não há garantia de que alguém vá se tornar superidoso, mas diversos estudos indicam que algumas atitudes ao longo da vida podem aumentar a chance de chegar à terceira idade com boa reserva cognitiva, termo usado para descrever a capacidade do cérebro de lidar melhor com o desgaste natural.
Essa reserva cognitiva funciona como uma espécie de "margem de segurança". Mesmo diante de pequenas lesões, alterações vasculares ou redução do volume cerebral, o indivíduo mantém o funcionamento intelectual estável. A literatura científica aponta que a construção dessa reserva começa cedo, mas continua ao longo de toda a vida, incluindo a velhice. Por isso, especialistas defendem que nunca é tarde para incluir na rotina comportamentos associados à saúde do cérebro.
Dicas baseadas em estudos para preservar a cognição na terceira idade
Embora não exista fórmula única, algumas recomendações aparecem com frequência em pesquisas sobre envelhecimento cerebral saudável. Muitas delas envolvem atitudes simples, que podem ser ajustadas à realidade de cada idoso.
- Atividade física regular: caminhadas, dança, musculação leve ou hidroginástica ajudam a melhorar a circulação sanguínea e a oxigenação do cérebro, além de estarem associadas a maior neurogênese no hipocampo.
- Estimulação mental constante: aprender um idioma, tocar um instrumento, fazer palavras cruzadas, ler livros variados ou utilizar aplicativos de treino cognitivo podem intensificar a criação de novas conexões neurais.
- Interação social: manter contato frequente com familiares, amigos, grupos comunitários ou institucionais reduz o isolamento, estimula a linguagem, a memória e a capacidade de resolver problemas em situações reais.
- Alimentação equilibrada: padrões alimentares com mais frutas, verduras, legumes, grãos integrais, peixes e azeite, aliados à redução de ultraprocessados, têm sido associados a menor risco de declínio cognitivo.
- Qualidade do sono: noites bem dormidas contribuem para a limpeza de resíduos metabólicos no cérebro e para a consolidação de memórias, favorecendo o bom funcionamento cognitivo.
- Controle de doenças crônicas: acompanhamento médico regular, adesão a tratamentos e monitoramento de pressão arterial, glicemia e colesterol ajudam a proteger os vasos sanguíneos cerebrais.
Alguns estudos também destacam a importância de evitar o tabagismo, moderar o consumo de álcool e cuidar da audição, já que perdas auditivas não tratadas têm sido associadas a maior risco de demência. A adoção conjunta dessas medidas costuma ter impacto maior do que a prática isolada de apenas uma delas.
Quando a ciência se encontra com o cotidiano dos superidosos
Relatos de superidosos em diferentes países mostram um padrão recorrente: muitos mantêm uma rotina que combina movimento, curiosidade intelectual e laços sociais ativos. Há registros de pessoas com mais de 80 anos que continuam trabalhando de forma adaptada, participando de projetos voluntários ou estudando novas áreas, o que proporciona desafios mentais diários.
Para além dos laboratórios, os resultados das pesquisas sobre neurogênese e envelhecimento saudável sugerem que o cérebro permanece mais "plástico" do que se imaginava. Em termos práticos, isso significa que, mesmo depois dos 80 anos, mudanças no estilo de vida podem ajudar a preservar ou até melhorar aspectos da cognição. A experiência de superidosos não é apresentada pela ciência como regra, mas como sinal de que o envelhecimento cerebral pode seguir caminhos diversos, e que a combinação entre conhecimento científico e escolhas diárias tem papel relevante na forma como cada pessoa atravessa a velhice.