Fobofobia: o medo de ter medo que afeta cada vez mais pessoas

Fobofobia: o medo de ter medo domina seus dias, gerando palpitações, respiração acelerada e um ciclo de ansiedade incontrolável

27 fev 2026 - 09h33

A manhã começa antes do despertador tocar. O corpo desperta em alerta, como se algo estivesse prestes a acontecer. O quarto está silencioso, mas o coração acelera sem motivo aparente. A mente percorre possibilidades: um ataque de pânico no trabalho, uma tontura no metrô, o medo de desmaiar em público. A sensação não é apenas de ansiedade; é o medo de que o medo surja, a antecipação de uma onda que ainda nem veio, mas já domina cada gesto.

Fora da cama, o dia segue um roteiro invisível. Cada passo é calculado para evitar qualquer situação que possa disparar sintomas. Antes de sair de casa, o corpo é escaneado mentalmente: respiração, batimentos, mãos, testa. Qualquer sinal mínimo, como um aperto leve no peito ou um suspiro mais fundo, é interpretado como alerta. A fobofobia, o medo de sentir medo, transforma atividades simples em potenciais gatilhos, e essa vigilância constante se mistura à rotina sem que os outros percebam.

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O que é a fobofobia e como esse medo se manifesta no corpo?

A fobofobia funciona como um círculo fechado. A pessoa não teme apenas lugares ou situações específicas; teme a própria reação de pânico. O pensamento não é "e se algo ruim acontecer?", mas "e se o medo aparecer aqui, agora?". A cada lembrança de uma crise passada, o organismo reage como se estivesse revivendo aquela experiência. Batimentos aceleram, a respiração fica curta e superficial, o peito pesa. O corpo responde a um perigo que não está do lado de fora, mas dentro da própria expectativa.

Esse processo costuma envolver sintomas físicos claros. Em muitos casos, surgem:

  • Palpitações rápidas, como se o coração estivesse tentando escapar do peito;
  • Respiração acelerada, com sensação de falta de ar mesmo em repouso;
  • Tensão muscular constante, principalmente em ombros, pescoço e mandíbula;
  • Sensação de tontura, irrealidade ou de que o ambiente está distante;
  • Suor frio nas mãos e na testa, mesmo sem esforço físico.

Ao notar qualquer desses sinais, a pessoa passa a acreditar que uma crise se aproxima, o que intensifica a vigilância e alimenta o medo de perder o controle.

Cada palpitação ou respiração acelerada se torna um alerta: o corpo reage antes do perigo real – depositphotos.com / AndrewLozovyi
Cada palpitação ou respiração acelerada se torna um alerta: o corpo reage antes do perigo real – depositphotos.com / AndrewLozovyi
Foto: Giro 10

Como o medo de sentir medo interfere na vida diária?

No trajeto até o trabalho, cada espaço fechado é mapeado: saídas de emergência, janelas, locais onde seria possível sentar, respirar e se recompor "caso algo aconteça". A fobofobia molda escolhas que, para quem observa de fora, parecem apenas preferências comuns. Elevadores são evitados, reuniões longas causam apreensão, filas extensas se transformam em cenários hostis. O receio não é de algo externo, mas da possibilidade de que, ali, surja um ataque de pânico.

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Com o tempo, esse comportamento pode se expandir. Alguns compromissos sociais são cancelados de última hora com justificativas neutras, como cansaço ou outros afazeres. Lugares que antes faziam parte de uma rotina tranquila passam a ser associados a riscos emocionais. O contato com pessoas desconhecidas pode ser reduzido, não por timidez, mas para evitar perguntas, olhares ou situações em que uma reação de medo se torne visível. A vida continua, mas dentro de um perímetro cada vez mais estreito.

O ciclo da ansiedade se fortalece à medida que a pessoa tenta controlar cada sensação. Surge um monitoramento interno quase ininterrupto, que consome energia mental. Ao menor sinal de desconforto, pensamentos como "vai começar de novo", "não vai dar para escapar" ou "vão perceber" se multiplicam. O corpo, já tenso, reage a esses pensamentos com mais sintomas físicos, reforçando a ideia de que um colapso é iminente. Assim, o medo de ter medo deixa de ser apenas uma inquietação e passa a organizar a rotina diária.

Viver com fobofobia é aprender a conviver com o medo sem deixar que ele organize cada passo do dia – depositphotos.com / AndrewLozovyi
Foto: Giro 10

Como alguém com fobofobia tenta enfrentar e compreender esse medo?

Entre uma tarefa e outra, surgem momentos de reflexão silenciosa. Em alguns dias, há a tentativa de entender o que está acontecendo, quase como se a mente se observasse de fora. A pessoa percebe que não está diante de um perigo real, mas de um medo excessivo da própria reação emocional. Em buscas discretas por informação, encontra o termo "fobofobia", lê sobre ansiedade antecipatória e começa a reconhecer seu próprio retrato em descrições clínicas e relatos anônimos.

As tentativas de enfrentamento variam. Em certos momentos, há a decisão de testar pequenos limites, como permanecer alguns minutos a mais em um ambiente que provoca desconforto ou não checar tantas vezes o próprio pulso. Em outros, a estratégia é aprender técnicas de manejo, como:

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  1. Respirar de forma lenta e profunda, focando na expiração prolongada;
  2. Observar os pensamentos sem lutar contra eles, reconhecendo que são apenas ideias transitórias;
  3. Perceber as sensações físicas sem interpretá-las imediatamente como perigo;
  4. Registrar em um caderno os momentos de medo e o que aconteceu depois, para confrontar previsões catastróficas.

Com o tempo, surge a compreensão de que o objetivo não é eliminar todas as emoções desconfortáveis, mas aprender a suportá-las sem que elas comandem cada escolha. Essa percepção não resolve o problema de forma imediata, mas abre espaço para buscar ajuda profissional, conversar com pessoas de confiança e se permitir sentir medo sem se ver como fracasso ou ameaça. A fobofobia continua presente, porém passa a ser vista como uma condição que pode ser compreendida, nomeada e, gradualmente, trabalhada.

Entre recaídas e pequenos avanços, a rotina vai sendo reconstruída. Alguns dias seguem marcados por palpitações, respiração acelerada e vigilância constante. Em outros, há breves intervalos de tranquilidade, em que o medo não desaparece, mas perde o posto de protagonista. Nesse movimento lento, a pessoa aprende a reconhecer que sentir medo faz parte da experiência humana e que, mesmo diante do medo de ter medo, ainda é possível seguir em frente um passo de cada vez.

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