Estou no meu escritório, de pé diante do notebook, dançando de forma desajeitada ao som de uma playlist de sucessos de verão.
É uma da tarde e estou no trabalho — mas isso não é apenas mais uma estratégia de procrastinação. Estou dançando para beneficiar meu cérebro.
Existem inúmeras recomendações sobre quanto e quando nos exercitarmos — e, muitas vezes, isso é tratado como algo muito sério.
Mas seguir técnicas específicas ou se preocupar demais com a forma correta de executar os movimentos pode tirar a diversão da atividade física ou, pior ainda, fazer com que adiemos o momento de se exercitar. É muito fácil passar o dia todo quase sem se mover.
Por isso, quando um colega me disse que dançar poderia trazer diversos efeitos positivos para o meu humor e o meu cérebro, decidi verificar se eu mesma conseguiria experimentar esses benefícios com mais regularidade.
Para isso, propus-me o desafio de fazer uma pausa de cinco minutos para dançar todos os dias, durante uma semana, para ver se notava alguma melhora no humor e na produtividade.
No primeiro dia, pareceu um pouco estranho dançar sozinha, no meio do expediente. Mas, ao voltar a me sentar, senti-me mais energizada em um horário em que, normalmente, costumo me sentir um pouco letárgica.
Surpreendentemente, a experiência foi tão prazerosa que eu teria continuado a dançar por mais tempo com gosto.
O que vivenciei é comprovado por evidências. A dança oferece uma combinação única de benefícios físicos, cognitivos e sociais que a diferencia de outras formas de exercício. E praticá-la — mesmo que por apenas cinco minutos, como descobri — traz inúmeros benefícios para a saúde, especialmente para a do cérebro.
Dança melhora o condicionamento físico
À medida que envelhecemos, tendemos a "desaprender a dançar", mas nascemos para isso, afirma Peter Lovatt, psicólogo especializado em dança e ex-dançarino profissional.
Um dos principais motivos pelos quais a dança é tão benéfica é a combinação de movimento e ritmo. Somos biologicamente predispostos ao movimento e ao ritmo, mesmo ainda no útero.
Pesquisas recentes revelaram que recém-nascidos já conseguem antecipar padrões rítmicos. "A dança consegue, de alguma forma, unir três aspectos realmente importantes para a nossa saúde e o nosso bem-estar que outras atividades não proporcionam simultaneamente", afirma a neurocientista e ex-bailarina profissional Julia F. Christensen, do Instituto Max Planck de Estética Empírica, na Alemanha.
Esses benefícios, explica Christensen, são o exercício aeróbico, a conexão social e a alegria de se expressar criativamente por meio da música.
Dançar pode melhorar o condicionamento físico e, ao dançarmos com outras pessoas, obtemos os benefícios adicionais da socialização para a saúde.
Quando sincronizamos nossos movimentos com os de outras pessoas, nosso corpo libera endorfinas — que geram sensação de bem-estar — e hormônios importantes para a criação de vínculos.
Benefícios cognitivos
Dançar faz muito bem a nós porque envolve diversas partes do corpo, além do cérebro. Ao aprender uma coreografia — em vez de dançar livremente —, você assimila um padrão de movimento complexo e memoriza uma sequência de passos sincronizada com a música. Há até evidências de que aprender uma coreografia pode ajudar a melhorar o raciocínio e a memória.
No meu caso, decidi seguir uma coreografia que encontrei na internet para facilitar a dança quando estou sozinha — em vez de tentar inventar meus próprios passos na minha "festa" particular.
Mesmo dançando sozinha, percebi que o simples fato de participar me deixava sorridente. Às vezes, eu me atrapalhava um pouco ao tentar acompanhar a coreografia complexa de um instrutor online, mas, com a prática, fui me familiarizando com os movimentos e ganhando mais confiança na precisão da execução.
Além de melhorar nosso humor no momento, estudos demonstraram que a dança beneficia tanto o bem-estar psicológico quanto a saúde cognitiva, podendo oferecer vantagens superiores a outras formas de exercício no que diz respeito ao humor, à redução da depressão e à qualidade de vida.
Constatou-se também que ela reduz o risco de demência em adultos.
Até mesmo uma breve sessão de dança pode nos trazer benefícios. Um estudo recente com crianças em idade escolar revelou que apenas cinco minutos de uma atividade de dança em grupo sincronizada melhoraram a concentração dos alunos em uma tarefa de matemática realizada na sequência.
Além disso, as crianças apreciaram mais essa atividade do que muitas outras formas de exercício aeróbico.
Vassilios Panoutsakopoulos, professor assistente do laboratório de biomecânica da Universidade Aristóteles de Tessalônica, na Grécia, e coautor do estudo, afirma que os resultados demonstraram que pequenas pausas para atividades auxiliam na concentração e na produtividade, evitando o acúmulo de fadiga.
A dança nos torna mais criativos
Uma prática de dança de cinco minutos também pode melhorar a criatividade. "Isso está ligado a um vasto conjunto de pesquisas sobre o 'efeito de incubação'", diz Christensen.
Assim como ao dar um tempo antes de tomar uma decisão importante, "ao realizar os movimentos de dança, você ativa partes do cérebro necessárias para resolver problemas".
Da mesma forma, pesquisas mostram que a dança improvisada estimula o pensamento divergente — a capacidade de gerar novas ideias para solucionar um desafio. "Ela pode nos ajudar a romper com padrões de pensamento preestabelecidos", acrescenta ela.
Como minha produtividade (e, de fato, a redação deste texto) pareceu fluir sem entraves após minha pausa para dançar, isso certamente faz sentido para mim — mesmo considerando que eu estava seguindo uma coreografia complexa.
Talvez, da próxima vez, eu tente improvisar alguns movimentos para ver se isso me dá um impulso extra.
É claro que a dança também traz benefícios físicos óbvios. Ela pode nos deixar mais fortes, melhorar nosso equilíbrio e aumentar a confiança em nosso corpo, o que, por sua vez, reduz o risco de quedas.
Esse é um dos motivos pelos quais profissionais de saúde utilizam a dança como terapia para pessoas com doença de Parkinson.
Por exemplo, um pequeno estudo constatou que uma intervenção de dança com duração de 18 meses resultou em melhor equilíbrio e no aumento do hipocampo, uma área do cérebro importante para a memória, o aprendizado e a navegação espacial.
Então, o que há para não gostar no ato de dançar? Com o passar da semana, comecei a aguardar com expectativa minha pausa para a dança, e isso também me ajudou a me sentir mais produtiva.
Pausas para exercícios são especialmente importantes, dado que descobertas recentes associam ficar sentado por mais de 30 minutos seguidos a um risco maior de câncer e morte precoce. Pesquisadores relatam que quem interrompe o tempo de sedentarismo com uma breve atividade física pode melhorar a saúde.
Encontre uma música e uma rotina de que você goste
Quanto a como começar, Christensen recomenda dançar ao som de músicas que você adora como um primeiro passo fundamental. Você pode encontrar uma dança de que goste na internet e simplesmente imitá-la.
Para obter um benefício social adicional, Christensen sugere participar de uma aula para iniciantes ou voltada para exercícios.
Uma barreira comum, constatou Lovatt, é que as pessoas às vezes se sentem inibidas ao dançar ou não confiam em sua própria capacidade. Precisamos eliminar essa barreira, diz ele, enquanto dança movimentando o tronco e os braços durante nossa chamada de vídeo.
"O que precisamos fazer é convencer as pessoas de que todo corpo é um corpo que dança", afirma, acrescentando que ele mesmo continua dançando todos os dias.
Panoutsakopoulos concorda e afirma que, quando nos exercitamos regularmente — seja dançando ou praticando outra atividade —, nossa qualidade de vida melhora, inclusive com o aumento da autoestima e do autocontrole, já que os dançarinos precisam memorizar e seguir sequências específicas de movimentos.
"Se tiver a oportunidade, aproveite-a ao máximo", diz ele.
No meu caso, descobri que uma busca online por uma sequência de dança de cinco minutos oferecia muitas opções para experimentar. Basta ter o cuidado de escolher uma que seja adequada ao seu nível de habilidade.
Embora eu me sentisse mais tranquila por saber que ninguém estava olhando, quem sabe? Assim que eu ganhar mais confiança, talvez o próximo passo seja dançar com um grupo maior.