No longa Amores Materialistas, o personagem de Pedro Pascal passa por cirurgia de alongamento ósseo para ganhar 15 centímetros de altura. Embora o filme seja uma ficção, o procedimento existe e é indicado para corrigir diferenças no comprimento dos ossos, como entre os membros, ou para aumentar a altura em casos de baixa estatura extrema, que vão além dos fins estéticos.
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Embora a cirurgia tradicionalmente seja dolorosa e invasiva, os avanços da medicina trazem esperança. Uma técnica inovadora, que utiliza a implantação de uma haste motorizada no canal do fêmur, torna o procedimento mais preciso e menos agressivo. No Brasil, uma menina de 11 anos foi a primeira paciente a passar por essa cirurgia inédita, capaz de alongar o osso em até 6 centímetros.
O procedimento foi realizado em junho, no Hospital Ortopédico AACD, em São Paulo, para igualar o comprimento dos membros inferiores da criança, que sofreu o fechamento precoce das cartilagens responsáveis pelo crescimento na parte baixa do fêmur e na parte alta da tíbia, causado por uma infecção grave no joelho chamada de artrite séptica.
A técnica consiste na implantação de uma haste motorizada dentro do canal do fêmur: um dispositivo que utiliza tecnologia de radiofrequência para promover o crescimento controlado do osso. A haste é implantada no interior do osso e possui um receptor localizado no subcutâneo da coxa. Por meio de um equipamento externo, o paciente ou responsável pode ativar o sistema a cada oito horas, estimulando um crescimento médio de 1 milímetro por dia no osso afetado.
Segundo o ortopedista pediátrico Dr. Rafael Yoshida, responsável pela cirurgia, “o fêmur é um osso bem indicado para esse tipo de procedimento em pacientes jovens (já no fim do crescimento) e adultos, pois promove maior conforto e adaptação para terapias durante o alongamento",
A previsão é que o osso da paciente seja alongado em até 6 centímetros. Durante o processo de recuperação, a menina passará por reabilitação motora contínua, e a haste poderá ser removida após cerca de dois anos, quando o osso estiver remodelado.
Mais conforto e menos risco
A técnica com haste motorizada traz diversas vantagens em comparação aos métodos tradicionais, como os fixadores externos — aquelas estruturas metálicas visíveis que ficam presas do lado de fora do corpo por meio de pinos. Diferente desses aparelhos, a haste fica dentro do osso, garantindo mais conforto, mobilidade e qualidade de vida durante o período de recuperação.
Dr. Yoshida afirma que a cirurgia já é realizada nos EUA e em países da Europa desde 2012. No entanto, o procedimento ainda é pouco difundido e segue restrito a centros médicos altamente especializados.
“A nova técnica, já feita fora do Brasil, representa um avanço no pós-operatório em termos de conforto para terapias, mobilidade e ausência de infeção superficial de pinos presente nos fixadores”, afirma o médico. Pacientes submetidos a esse tipo de cirurgia tendem a retomar suas atividades com mais rapidez, além de terem menor risco de infecções superficiais, comuns nos procedimentos com estruturas externas
- Quem pode fazer a cirurgia?
De acordo com o especialista, a indicação principal é para a correção de deformidades que causam diferença de comprimento entre os ossos, tanto do fêmur quanto da tíbia. A técnica, porém, exige que o paciente já tenha passado pela maior parte do crescimento ósseo.
“Pode ser realizada em adolescentes no final do crescimento ou adultos. Isso porque a técnica cirúrgica necessita que a haste passe pela região de crescimento do osso”, explica Dr. Yoshida.
A cirurgia também pode ser indicada em casos de deficiências congênitas ou adquiridas, como sequelas de traumas, tumores ou infecções tratadas.
- E para fins estéticos?
Embora o foco principal seja terapêutico, o médico relata que a haste também pode ser utilizada para fins estéticos, como o aumento de estatura em pessoas saudáveis, desde que haja uma justificativa funcional ou psicológica relevante.
“Acredito que a indicação para fins estéticos é válida a partir do momento que a queixa de baixa estatura é um fator que atrapalha a qualidade de vida da pessoa em termos funcionais e/ou psicológicos”, conclui.